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O Conflito Geoeconômico do Século 21

O Conflito Geoeconômico do Século 21

Confira o texto em que o pesquisador Niels Soendergaard, autor do livro Economia Política Global e coautor de Organizações e Instituições internacionais, escreve sobre aspectos geoeconômicos do conflito entre Rússia e Ucrânia,  guerra que está mexendo com as estruturas do mundo em 2022.

A disputa, que já seria complexa apenas pelo longo histórico de relações entre os dois países, se torna ainda mais difícil de analisar quando considerados os outros fatores direta ou indiretamente relacionais – alguns, como a expansão da Otan. Assim, a geopolítica, as relações com outras nações, instituições internacionais, grupos de interesse e até mesmo as leis internacionais precisam ser avaliadas para uma compreensão adequada do atual cenário.

Por isso, convidamos os autores da Coleção Relações Internacionais para escreverem cada um sobre seu tema de especialidade e mostrar como cada um desses aspectos dos estudos em RI se relacionam e explicam a guerra entre Rússia e Ucrânia.


A invasão russa na Ucrânia desencadeou uma profunda mudança na dimensão da segurança internacional, apresentando um panorama de rivalidade acentuada, em primeiro lugar, entre a OTAN e a Rússia, e, em segundo lugar, entre a ordem Ocidental e a emergente ordem Euro-Asiática, Sino-Russa.  

Para além das implicações políticas, os novos contornos que aparecem no horizonte próximo também parecem abranger uma forte dimensão econômica. No dia 4 de fevereiro, na esteira da invasão russa, o presidente Vladimir Putin e o seu par chinês, Xi Jinping, assinaram uma declaração conjunta na qual anunciaram uma “nova era” nas relações internacionais. A declaração continha um forte foco em cooperação econômica dentro de uma ampla gama de setores, abrangendo cadeias produtivas, tecnologia e investimento.

Mas, para além das suas metas concretas, a maior importância da declaração reside no seu caráter de resposta à nova situação geopolítica. Desde o suposto Fim da História com a queda do bloco soviético, o paradigma dominante na economia global tem sido o de liberalização e abertura. Em retrospecto, a fé de que isso levaria a um caminho irreversível no sentido de uma economia fortemente integrada pode parecer quase ilusória, especialmente lembrando que, com algumas possíveis exceções, o comércio internacional historicamente sempre correu em paralelo à divisão geopolítica do mundo.

Assim, estaríamos de volta a uma situação “normal”, na qual o comércio administrado e as extensas barreiras dominam o cenário comercial internacional? Não necessariamente. O comércio anual acumulado entre a URSS e os EUA no período da Guerra Fria é equivalente ao valor de apenas um dia de trocas comerciais entre a China e os EUA hoje! Isso nos indica que, apesar das já declaradas animosidades e relações de forte desconfiança, a economia global chegou a um nível de integração inédito e dificilmente reversível. A nova situação talvez seja de que essa integração não necessariamente funcione de acordo com preceitos ideológicos liberais; ao contrário, seja meramente a consequência da lógica funcional da interconexão dos sistemas produtivos ao redor do mundo.

Os custos advindos do corte desses laços comerciais são evidenciados pelo rápido colapso da economia russa em função dos históricos embargos impostos pelo Ocidente. Porém, mesmo que o completo isolamento comercial não seja mais uma opção para nenhum Estado no sistema internacional, nada impede que partes dos fluxos comerciais estejam sujeitas a considerações que vão além dos interesses puramente econômicos. De fato, estamos vendo isso ocorrer cada vez mais como parte da rivalidade entre os EUA e a China, sobretudo em setores caracterizados pela alta sofisticação tecnológica e o uso dual civil/militar. Portanto, o desafio dos políticos nas próximas décadas parece ser balancear uma interdependência comercial incontornável com os imperativos políticos e estratégicos.

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Organizada pelo professor da UnB Antônio Carlos Lessa, a coleção Relações Internacionais reúne manuais introdutórios essenciais para as disciplinas obrigatórias dos cursos de RI. Cada obra é escrita por um ou mais autores especialistas no tema. Além do curso de RI, as obras também são indicadas para Ciência Política, Sociologia, Direito e Comércio Exterior. Para ampliar as discussões sobre os temas das Relações Internacionais, inclusive suas relações com o conflito entre Rússia e Ucrânia, a Contexto e o Centro de Estudos Globais estão organizando o II Ciclo Relações Internacionais. São cinco lives sobre alguns dos principais tópicos das RIs. Confira a programação completa aqui.

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Niels Soendergaard é pesquisador pleno do Centro de Agronegócio Global no Insper, São Paulo, e do Centro de Estudos Globais da UnB. É doutor em RI pela UnB, onde também desenvolveu estudos pós-doutorais. É editor-associado da Revista Brasileira de Política Internacional (RBPI).


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