Quem passou pela escola provavelmente se lembra da Morfologia como um conjunto de listas de prefixos e sufixos. Basta, no entanto, observar o cotidiano da língua para perceber que a Morfologia é muito mais do que isso. Todos os dias, nós produzimos e compreendemos palavras que nunca ouvimos antes. Sabemos quase que instantaneamente que uberização é uma palavra possível, entendemos imediatamente o sentido de instagramável, mas dificilmente aceitaríamos uma forma como desmesa ou rebonito, por exemplo.
Como somos capazes de fazer esses julgamentos sem nunca termos pensado conscientemente sobre as regras que os sustentam? A resposta está no nosso conhecimento morfológico, um componente da competência linguística que todo falante possui intuitivamente. A Morfologia é a área da Linguística que busca compreender a natureza desse saber, mas não apenas catalogando morfemas das línguas, e sim investigando os princípios e mecanismos que nos permitem adquirir, reconhecer, criar e interpretar um número potencialmente infinito de palavras na nossa língua.
Foi com essa perspectiva que nasceu o livro Morfologia: teoria e prática. Concebido para acompanhar a formação de estudantes de Letras e Linguística, a obra convida o leitor a enxergar as palavras como verdadeiros objetos de investigação científica. Para isso, o livro oferece uma introdução consistente à área, sem perder de vista a necessidade de tornar esse conhecimento leve e acessível.
Ao mesmo tempo, o livro também dialoga com professores da Educação Básica ao aproximar os conceitos teóricos abstratos da prática docente concreta. Nessa interface, a Morfologia deixa de ser apenas um conjunto de classificações estanque para se tornar uma ferramenta de reflexão sobre a língua, capaz de enriquecer a leitura, a escrita e as práticas de análise linguística dos alunos e de fortalecer o ensino de Língua Portuguesa.

Ao longo do livro, o leitor é convidado a percorrer a área da Morfologia a partir de suas questões mais fundamentais. O percurso tem início nas questões que definem o próprio campo de investigação e toma como ponto de partida conceitos clássicos, como morfema, tipos de morfema, alomorfia e sincretismo. A partir dessa base, a obra explora os processos de formação de palavras, como a flexão, a derivação e a composição, revelando suas propriedades características, mas também problematizando as fronteiras entre eles. Na sequência, o livro conduz o leitor a temas centrais da pesquisa linguística contemporânea, evidenciando que a Morfologia não pode ser compreendida de forma isolada, mas em constante diálogo com outros componentes da gramática. A discussão sobre as categorias lexicais revela a estreita relação entre Morfologia e Sintaxe, convidando o leitor a revisitar classificações tradicionalmente tratadas como evidentes à luz de debates teóricos atuais. Já o capítulo dedicado à Morfologia Avaliativa amplia ainda mais esse horizonte ao explorar a interface entre forma, significado e subjetividade. Nele, o leitor é convidado a compreender como a Morfologia pode codificar o ponto de vista do falante, por meio da construção de valores afetivos, apreciativos e depreciativos, revelando um domínio particularmente rico para a investigação linguística.
O percurso proposto pelo livro culmina na aproximação entre a reflexão teórica e a prática pedagógica. Nos dois capítulos finais, a pesquisa linguística dialoga diretamente com as demandas da Educação Básica, por meio de propostas de atividades fundamentadas nas habilidades previstas pela Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. Nesse espírito, as habilidades EF07LP03 e EF67LP35 são abordadas sob uma perspectiva equilibrada e propositiva, valorizando seu potencial para orientar a prática docente e para promover a reflexão sobre o ensino, em vez de tratá-las apenas como alvo de críticas ou de um debate estéril. Mais do que transpor conceitos teóricos para a sala de aula, esses capítulo práticos demonstram que a Morfologia pode constituir um instrumento privilegiado para promover a reflexão sobre a língua e transformar a sala de aula em um espaço de descoberta, investigação e construção do conhecimento.
Morfologia: teoria e prática é, sobretudo, um convite para olhar as palavras a partir de uma perspectiva científica e curiosa, reconhecendo nelas um rico objeto de investigação. Ao explorar sua estrutura e seu funcionamento, o leitor descobrirá que as palavras suscitam questões centrais para a teoria linguística e oferecem caminhos férteis para a reflexão sobre o ensino de Língua Portuguesa. Afinal, é justamente na constituição interna das palavras que se revelam os mecanismos mais fundamentais da gramática e uma das expressões da criatividade linguística humana.
Paula Armelin é doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, com estágio de doutorado na Queen Mary University of London. É professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora e atua na linha de pesquisa em Linguística e Cognição do programa de pós-graduação em Linguística da mesma universidade.

