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Morfologia teoria e prática

Morfologia: teoria e prática

O termo morfologia é tradicionalmente atribuído ao escritor e estudioso alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), que o empregou originalmente no contexto da Biologia. A palavra tem origem grega e seu significado é resultante da combinação de morphē (forma) e lógos (estudo). Na Biologia, o termo se refere a um campo de investigação dedicado ao estudo da forma e da estrutura dos organismos. No campo dos estudos linguísticos, por sua vez, o emprego do termo é creditado à August Schleicher (1821-1868), que, em 1859, em seu artigo “Zur Morphologie der Sprache” (“A morfologia da língua”, em tradução livre), aplicou o termo morfologia à descrição das línguas em um interessante exercício de tipologia. Alguns autores apontam que o fato de o termo ser resultado de um empréstimo das Ciências Biológicas reflete, de forma consciente ou inconsciente, a visão da linguagem como um organismo.

Embora o termo morfologia seja relativamente recente na Linguística, o interesse pela estrutura interna das palavras possui raízes históricas muito profundas. Práticas de registro, classificação e análise de palavras já eram observadas em civilizações antigas, como na Mesopotâmia, em tábuas de argila datadas de cerca de 1.600 a.C. Além disso, é de notável influência para a Morfologia – como a reconhecemos hoje – a gramática de Pāṇini (520 a.C.- 460 a.C.), que, datada aproximadamente entre 350 e 250 a.C., descreve com relevante rigor formal as peças envolvidas na formação de palavras, bem como a relação entre palavras no sânscrito.

Ainda que esse interesse esteja historicamente identificado, foi apenas no século XIX, com o desenvolvimento da Linguística Histórica, que se passou a dedicar atenção mais sistemática à estrutura interna da palavra. Esse período é marcado pelo estabelecimento do método histórico-comparativo, voltado à identificação de relações genéticas entre línguas e à reconstrução da evolução fonética a partir de formas hipotéticas consideradas ancestrais. Nesse contexto, nota-se uma mudança de enfoque: a análise passa a concentrar-se mais nos elementos formativos do que na palavra enquanto unidade indivisível.

Na Linguística moderna, a Morfologia constitui o campo dedicado ao estudo da estrutura interna das palavras e dos processos que regulam sua formação. Seu objetivo vai além da descrição das palavras existentes na língua, abrangendo também os mecanismos que permitem aos falantes reconhecer, produzir e interpretar palavras novas. Assim, a Morfologia evidencia padrões, regularidades e restrições que organizam a estrutura interna das palavras nas línguas naturais, bem como os princípios que regulam a combinação e distribuição dessas formas no sistema linguístico. Há um conjunto expressivo de evidências na literatura que sustenta a ideia de que os falantes não se limitam a aprender e armazenar palavras complexas como unidades indivisíveis. Em vez disso, eles demonstram conhecimento dos padrões estruturais que compõem as palavras da sua língua, sendo capazes de reconhecer, decompor e produzir novas formas.

Em seu funcionamento, a Morfologia ocupa um importante papel para a compreensão da gramática das línguas naturais de modo mais abrangente. Como campo científico dedicado à análise da estrutura das palavras, a Morfologia faz interface diretamente com diversos outros níveis de análise linguística, como a Sintaxe, a Fonologia e a Semântica, por exemplo, oferecendo, portanto, um espaço privilegiado para a investigação das relações estabelecidas entre esses componentes no sistema linguístico. Além disso, a Morfologia permite explorar a fronteira entre dois mecanismos da nossa cognição que são fundamentais para o funcionamento das línguas: memorização e depreensão de regras.

Os estudos morfológicos se preocupam, então, em desvendar os elementos que precisam ser armazenados como primitivos no léxico e as regularidades e padrões que emergem de sua combinação. Nessa perspectiva, como sistematiza Lieber (2009), diferentes linhas de investigação convergem para a hipótese de que formas morfologicamente regulares, baseadas em padrões produtivos, e formas irregulares, que dependem da memorização, são tratadas de maneira distinta no processamento linguístico. Entre essas evidências estão, por exemplo, estudos com indivíduos afásicos, pesquisas de neuroimagem e investigações sobre o desenvolvimento linguístico sob condições genéticas específicas.

As afasias são alterações da linguagem, decorrentes de lesões cerebrais adquiridas, que podem comprometer a produção, a compreensão ou ambas, em diferentes níveis linguísticos (fonológico, morfológico, sintático e semântico). Em afasias com quadros de agramatismo, observa-se um comprometimento da estrutura gramatical das sentenças: a fala tende a apresentar omissão de morfemas gramaticais e de palavras de classe fechada. Nesses casos, a literatura aponta maior dificuldade no processamento de formas morfológicas regulares, enquanto formas irregulares tendem a estar relativamente preservadas. Em contraste, nos quadros de afasias com emprego de jargão, a fala é fluente, mas os enunciados são frequentemente ininteligíveis, incompreensíveis ou marcados por palavras inventadas. Nesses casos, a literatura reporta que os indivíduos costumam empregar, de maneira mais adequada, regras morfológicas regulares, mas apresentam maior dificuldade na produção e no reconhecimento de formas irregulares (Badecker e Caramazza, 1999).

Conclusões semelhantes podem ser observadas quando analisamos o desenvolvimento linguístico em condições genéticas, como o Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL) e a Síndrome de Williams. O TDL é caracterizado por comprometimentos no desenvolvimento linguístico em crianças que, no entanto, apresentam desempenho típico nos demais domínios cognitivos. Estudos indicam que indivíduos com TDL tendem a apresentar maior dificuldade no processamento de formas morfológicas regulares, enquanto mostram desempenho relativamente melhor com formas irregulares (Redmond e Rice, 2001). Em contraste, a Síndrome de Williams caracteriza-se por comprometimento intelectual, acompanhado de relativa preservação das habilidades linguísticas quando comparadas a outros domínios cognitivos. Nesse quadro, observa-se um padrão inverso ao descrito para o TDL: os indivíduos tendem a empregar adequadamente formas complexas regulares, mas apresentam maior dificuldade com formações irregulares, frequentemente recorrendo à sobregeneralização da marcação regular (Clahsen; Ring; Temple, 2004).

Evidências provenientes de estudos de neuroimagem com indivíduos sem alterações neurológicas reforçam essa distinção. Utilizando a tomografia por emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês), técnica que permite inferir a atividade cerebral a partir das variações no fluxo sanguíneo, Jaeger et al. (1996) observaram que formas regulares e formas irregulares não recrutam exatamente as mesmas regiões cerebrais. Nesses experimentos, áreas específicas foram ativadas quando os participantes liam ou produziam palavras com flexão regular, enquanto outras regiões do cérebro foram mais envolvidas na leitura ou produção formas irregulares.

Esses padrões similares, provenientes de diferentes tipos de evidência, indicam que a Morfologia não pode ser reduzida a um simples inventário de formas armazenadas na memória. Ao contrário, o funcionamento do sistema morfológico envolve padrões abstratos e produtivos que permitem gerar e reconhecer padrões regulares, ao lado de representações que dependem da memória. Por isso, estudar Morfologia é uma forma valiosa de entender como a língua articula conhecimento memorizado e operações gramaticais na produção e interpretação das palavras.

Para aprofundar esse debate e examinar as unidade básicas, bem como os mecanismos de combinação dessas unidades menores em palavras, este livro se organiza da seguinte forma: quatro capítulos de natureza teórica, que são complementados por dois últimos capítulos de natureza prática. Os quatro capítulos teóricos são voltados à construção dos fundamentos conceituais da Morfologia. O capítulo “A Morfologia e seu objeto de estudo” delimita o campo de investigação, define noções centrais como palavra e morfema e introduz as questões que orientam o estudo da estrutura interna das palavras nas línguas naturais. Em seguida, o capítulo “Processos de formação de palavras” apresenta e distingue os principais mecanismos responsáveis pela constituição de formas complexas, explicitando seus critérios de identificação, seus pontos de convergência e as dificuldades teóricas envolvidas na delimitação de fronteiras entre esses processos. O terceiro capítulo, “Classes de palavras”, discute as categorias lexicais a partir de uma perspectiva histórica e descritiva, articulando-a a abordagens teóricas contemporâneas que buscam oferecer explicações mais sistemáticas para sua organização. O capítulo “Morfologia Avaliativa” examina o escopo e a definição desse domínio, analisa suas propriedades formais e discute, com base em dados do português, o funcionamento dos afixos avaliativos e suas implicações para a teoria morfológica.

Além desses quatro capítulos teóricos, o livro inclui dois capítulos dedicados às práticas de análise, com o objetivo de tornar os conteúdos desenvolvidos aplicáveis ao ensino de Língua Portuguesa no ensino médio e nos anos finais do ensino fundamental. O capítulo “Análise linguística na formação de palavras derivadas” articula os fundamentos teóricos da Morfologia à habilidade EF07LP03 da BNCC, promovendo a reflexão linguística e o desenvolvimento da consciência morfológica a partir da análise de palavras complexas do português. Na mesma direção, o capítulo “Estratégias pedagógicas para diferenciar processos morfológicos” dialoga com a habilidade EF67LP35 da BNCC, oferecendo ferramentas pedagógicas que auxiliam na distinção entre diferentes processos de formação de palavras. Ao final, as “Considerações finais” retomam os principais pontos discutidos ao longo da obra, seguidas das “Referências bibliográficas” citadas.

A partir dessa organização, o livro Morfologia: teoria e prática convida o(a) leitor(a) a refletir, ao longo de seus capítulos, sobre a natureza e a complexidade do conhecimento morfológico e sobre seu papel central na organização da gramática das línguas naturais.


Paula Armelin é doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, com estágio de doutorado na Queen Mary University of London. É professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora e atua na linha de pesquisa em Linguística e Cognição do programa de pós-graduação em Linguística da mesma universidade.

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