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teoria da história

Teorizar o mundo

Este livro começou a ser concebido em setembro de 2024, quando nós, autores, tivemos o primeiro encontro para discutir seu objetivo e os temas que nele trataríamos. Amigos de longa data e parceiros de muitas reflexões, o propósito básico que nos moveu foi o de trabalhar juntos em um projeto que, além de sistematizar nossas próprias inquietações em relação à produção do conhecimento histórico, pudesse oferecer a um público interessado em História – em especial aos estudantes de graduação, com os quais lidamos direta e constantemente – uma introdução a um só tempo panorâmica e sólida a tópicos e debates centrais dos estudos históricos.

Justamente por isso, assumimos de saída a posição de tratar a Teoria da História não como um campo circunscrito a especialistas, muito menos como uma dimensão hermética – ou, pior, independente – da historiografia. Reconhecemos, é claro, que ela tem a sua especificidade, bem como recortes e “conteúdos” que a identificam, como demonstram as grades curriculares dos cursos superiores de História no Brasil (nas quais sempre aparece ao menos uma disciplina com esse nome), as revistas especializadas internacionais e nacionais (como History & Theory, História da Historiografia e Revista de Teoria da História, entre várias outras), os encontros da área que ocorrem tanto aqui quanto no exterior (os congressos da International Network for Theory of History e o Seminário Brasileiro de Teoria e História da Historiografia, por exemplo); tudo isso, porém, não a limita, antes a amplia: como diz a frase que abre o livro, a Teoria da História vive em muitos lugares da prática historiográfica.

Na verdade, não temos nenhuma dúvida de que seu estudo é uma atitude imprescindível ao nosso ofício. Certa feita, o grande historiador inglês Eric Hobsbawm disse, em seu conhecido tom irônico, que durante o século XIX e boa parte do XX a História “não foi uma disciplina que exigiu grandes faculdades intelectuais”, uma vez que não pedia muito mais que “uma capacidade para trabalho muito árduo e certa engenhosidade de detetive” dos que a ela se dedicavam. Era como se a empiria e a prática pela prática bastassem em si e por si. Há tempos as coisas não são mais desse jeito, mas, como ainda é comum encontrarmos resistências, quando não hostilidades, à Teoria da História entre os historiadores, o que defendemos em nosso livro é a ideia de que a separação entre teoria e prática é uma falácia que, longe de valorizar o conhecimento do passado, antes o turva e obscurece. Fazemos coro assim a outro historiador inglês, Richard Evans, para quem a Teoria da História é importante demais para ser deixada apenas aos teóricos…   

teoria da história introdução

Pelo seu propósito e pelas características da coleção a que pertence, a organização do livro nos obrigou a fazer escolhas muito precisas. Sabemos bem que há muitas maneiras de se estudar Teoria da História, nenhuma necessariamente melhor que a outra. Alguns professores dividem suas aulas em escolas históricas, outros preferem enfatizar autores e obras específicos, outros ainda destacam teorias das ciências humanas em geral e seus diálogos com o campo historiográfico. De nossa parte, para fazer valer a defesa de uma permanente teorização da História, optamos por tratar de quatro grandes questões que, de alguma forma, dizem respeito a qualquer estudo histórico: 1) diferentes concepções de tempo entre os historiadores; 2) o problema das escalas de observação e análise; 3) as relações entre conhecimento histórico, narrativa e linguagem; e 4) o tradicional e atualíssimo problema da verdade histórica.

Quatro questões, quatro capítulos, os quais evidentemente não esgotam os assuntos neles elencados. Ao contrário: estamos cientes de que existem muitas outras formas de teorizar tempo, unidades de análise, narrativa e verdade para além das que apresentamos; do mesmo modo, há numerosos outros temas decisivos para o trabalho do historiador que não abordamos. O que fizemos, há que se repetir, foi indicar alguns passos preliminares a serem dados para o estudo desse desafiador e fascinante campo do conhecimento histórico que é a Teoria. Tão fascinante, aliás, que abrimos cada capítulo com histórias reais, as quais, além de aguçar a curiosidade dos leitores pelo que vamos discutir, demonstram como a teoria é uma bússola importante para percorrer o caminho que leva do presente ao passado.

Enfim, hoje, quase dois anos depois de nossa primeira reunião, é com alegria que vemos nosso livro pronto. E é também com muita alegria que, por meio dele, convidamos você a visitar a Teoria da História e se encantar com ela da mesma forma que nos encantamos – se não ainda mais, quem sabe?


João Paulo Pimenta é doutor em História. Professor do Departamento de História da USP desde 2004, foi professor visitante em universidades do México, Espanha, Equador, Chile e Uruguai. Especialista em História do Brasil e da América espanhola dos séculos XVIII e XIX, Teoria da História e História do Tempo. É autor de dezenas de trabalhos acadêmicos e de divulgação histórica e de dez livros editados em seis países. Pela Contexto é coautor da obra Dicionário de datas da história do Brasil e autor de Independência do Brasil e Formação da nação brasileira.

Fábio Franzini é doutor em História Social pela USP e professor associado da Unifesp. É membro fundador da Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia e da Red Iberoamericana de História de la Historiografía e membro da International Network for Theory of History. É especialista em Teoria da História, História da Historiografia Brasileira, História Intelectual e das Ideias e História do Livro, da Edição e da Leitura.

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