Iniciamos esta “Introdução” com a célebre frase de Noam Chomsky (1965: 145), com a qual podemos pensar sobre o lugar da Sintaxe nas línguas naturais: Colorless green ideas sleep furiously (‘Ideias verdes incolores dormem furiosamente’). Seja em inglês, na sua versão original, ou em português, é inegável que essa é uma sentença estruturalmente possível nas duas línguas. Há um sujeito Colorless green ideas ou Ideias verdes incolores, um verbo – o predicador da sentença –
sleep ou dormem, e um adjunto adverbial, furiously ou furiosamente. Além das funções sintáticas, podemos descrever os tipos de sintagma – e deles falaremos já no capítulo “Sintagmas, testes de constituintes e estrutura argumental”: há um sintagma nominal (SN) – Colorless green ideas ou Ideias verdes incolores –, um sintagma adverbial (SAdv) – furiously ou furiosamente –, além de um sintagma verbal (SV) formado pelo predicador e seu adjunto adverbial – sleep furiously ou dormem furiosamente. Por fim, podemos apontar que toda a sentença é um SV. Também identificamos as posições dos sintagmas dessa oração: a sentença está na ordem S-V-Adj (sujeito-verbo-adjunto). Mas como sabemos todas essas informações se, no plano do significado, essa sentença não é possível em nenhuma das duas línguas, ou seja, não há coerência na seleção semântica?
Sabemos tudo isso porque a Sintaxe tem autonomia em relação à Semântica. Isso significa que as nossas deduções sobre o conteúdo sintático não precisam e não deveriam partir, inicialmente, da Semântica. Defendemos, neste livro, que, se conseguimos descobrir as propriedades estruturais de sentenças como a que abre a nossa “Introdução”, da qual não se pode depreender nenhum significado lógico, é então possível estudarmos a sintaxe pela sintaxe.
A sintaxe pela sintaxe é um método de trabalho que implica olharmos para os conteúdos da área da Sintaxe – funções, categorias sintagmáticas, ambiguidades estruturais, fenômenos sintáticos vários etc. – a partir de critérios sintáticos. Isso não significa, contudo, que o significado e o sentido deixarão de ser contemplados, mas que eles não são o ponto de partida. Voltemos às bases para quiçá entendermos melhor, em outros planos, como podemos estruturar as produções da nossa língua, dotadas de significados reais.
A fim de costurar esse desejo de volta ao debate sobre estrutura linguística, ou seja, de retorno à discussão sobre a sintaxe pela sintaxe – ou, em outras palavras, da “autonomia” da Sintaxe –, nos debruçamos, unicamente, neste livro, sobre a Sintaxe do período simples. Sempre consideramos sentenças criadas por nós, gramaticais ou agramaticais, com itens lexicais dotados de significado ou com itens lexicais inventados para tecer a descoberta das características sintáticas das línguas naturais, mas mais especificamente da língua portuguesa. Organizamos esta obra em seis capítulos, que estão divididos em dois grandes módulos. No primeiro, trazemos teoria sintática e, no segundo, aplicamos, ao ensino na educação básica (anos finais do ensino fundamental e ensino médio), o que aprendemos.

No capítulo “Sintagmas, testes de constituintes e estrutura argumental”, retomaremos, brevemente, conceitos fulcrais da Sintaxe – palavra, oração, frase –, os quais nos conduzirão até a definição de sintagma, ponto central do capítulo. Dessa definição decorrerá a apresentação dos testes de constituintes, com a posterior conceituação de predicador e argumentos.
No capítulo “Os complementos”, exploraremos a estrutura da complementação com dados do português do Brasil (PB). Discutiremos a transitividade verbal; portanto haverá uma apresentação cuidadosa sobre a estrutura argumental dos predicadores do tipo verbo. Em um segundo momento, traremos o debate sobre o predicador nominal. Observe que o tecer desta obra nos leva a apontar os distintos tipos de predicadores da sentença, o que também nos permitirá pensar sobre os argumentos externos e internos dos verbos e dos nomes. Ao mesmo tempo, esse caminho textual nos levará a tratar dos distintos predicativos e, por consequência, haverá o espaço para debatermos o tema dos diferentes tipos de predicado.
Já no capítulo “O sujeito”,trataremos da estrutura interna do sujeito. Falaremos sobre a classificação e a sua definição. Discutiremos também o seu estatuto de argumento externo ou argumento interno. Falaremos sobre as suas propriedades sintáticas, categoriais, mórficas, mas sem esquecer dos seus traços semânticos. Ao final, deixaremos um espaço para debater um fenômeno prototípico do PB, relacionado com as mudanças linguísticas que caracterizam a emergência da nossa gramática.
O capítulo seguinte, “Os adjuntos”,reunirá descrições sobre os termos não selecionados pelos predicadores verbais e nominais. Faremos a aproximação entre eles, indicando que os seus estatutos são semelhantes, justamente por não integrarem a grade argumental dos seus predicadores. Todavia eles serão diferenciados a partir do fato de um ser um constituinte oracional enquanto o outro é um subconstituinte. Ainda neste capítulo, trataremos do aposto. Ao final, traremos a ambiguidade estrutural e encerraremos o debate teórico que perpassa os quatro capítulos iniciais desta obra.

Os dois últimos capítulos, respectivamente intitulados “O sujeito pela via dos critérios” e “O predicativo do objeto e o adjunto adnominal pela via dos testes”,vão tratar da aplicação, na educação básica, de conceitos trabalhados ao longo da obra. Lê-los será uma oportunidade para pensarmos sobre como a sintaxe pela sintaxe pode chegar ou voltar à sala de aula. É importante mencionar que as duas propostas estão ancoradas em habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), portanto cumprem os requisitos para serem utilizadas nas salas de aula de escolas do Brasil inteiro.
Assim, no capítulo “O sujeito pela via dos critérios”, trataremos da função sintática do sujeito e apresentaremos uma proposta didática para trabalhá-la nos anos finais do ensino fundamental. Lançaremos a discussão sobre os critérios sintático, mórfico e semântico que nos permitirão levar o aluno a observar os distintos níveis de análise sobre essa função.
No capítulo seguinte, “O predicativo do objeto e o adjunto adnominal pela via dos testes”, pensaremos em como diferenciar, a partir dos testes, as funções sintáticas em questão. Haverá a diferenciação entre predicativo do objeto e adjunto adnominal. Atentem-se, porque essas funções geralmente causam muitas dúvidas na sala de aula, quando postas à identificação; por isso foram escolhidas para compor o debate no último capítulo deste livro.
Ao fim desta “Introdução”, estamos todos prontos para os caminhos que nos levarão a pensar a sintaxe pela sintaxe e esperamos que as reflexões aqui feitas sobre nossa sentença inicial – “Ideias verdes incolores dormem furiosamente” (Chomsky, 1965: 145) – tenham preparado o terreno para novos caminhos ao trabalho com a Sintaxe na educação básica.
Mayara Nicolau de Paula é doutora em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa) pela Universidade Fedral do Rio de Janeiro e é professora adjunta na área de Linguística da Faculdade de Letras da Universidade Fedral de Minas Gerais, onde atua na graduação e no mestrado profissional em Letras – Profletras. Atualmente, coordena o curso de especialização em ensino de gramática – Cegrae. Tem interesse em pesquisas sobre sintaxe do português, mudança e variação linguística e ensino de gramática, orientando pesquisas e desenvolvendo projetos relacionados.
Elaine Melo é doutora em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e é professora adjunta na área de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, onde atua na graduação, na pós-graduação em Estudos de Linguagem (PosLing-UFF), bem como na especialização em Língua Portuguesa. É líder do Grupo de Estudos em Sintaxe (GESINT-UFF), onde desenvolve projetos de pesquisa, ensino e extensão. Tem como foco de pesquisa a sintaxe do português por um viés formalista, orientando trabalhos sobre ensino de língua portuguesa, mudança e descrição linguística.

