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Três livros por Milton Blay

Três livros por Milton Blay

Recomendações de leituras são sempre bem-vindas. Quando feitas por grandes autores, especialistas renomados em suas áreas, melhor ainda.

Então, nesse momento pelo qual todos nós estamos passando, nossos autores fazem indicações de livros para a sua quarentena.

Confira as dicas do jornalista Milton Blay:

Três livros por Milton Blay

O Sumiço, do francês Georges Perec, é escrito com todas as letras menos uma: “e”,  a mais frequente da língua francesa. Isso já seria, por si só, uma façanha, mas a originalidade da obra não está apenas na falta da vogal, e sim em fazer do desaparecimento da letra o próprio tema do livro. O autor cria um mundo de letras, povoado por seres de letras, cujo destino depende também das letras, e, principalmente, do sumiço de uma delas. É uma mirabolante história de investigação policial, cheia de mistério, bom-humor, romances e reviravoltas, vai além de um enredo intrigante, voltando-se para o ato da escrita e os jogos de linguagem. O tradutor José Roberto Andrade Féres teve a tarefa hercúlea de recriar esse jogo em português, também amputada de uma vogal que muitos julgariam imprescindível. ‘O sumiço levará o leitor a querer brincar com Perec, desvendar suas pistas e encaixar as peças dos seus inúmeros quebra-cabeças. Enfim, uma obra  divertida e um desafio para o leitor.

Maravilhosamente bem escrito, em 1947, A Peste nos transporta inevitavelmente à Covid-19, alimentando as nossas interrogações. Albert Camus nos convida à solidariedade, nos mostra as fraquezas do sistema imunitário de uma sociedade que se tornou patologicamente individualista, escravizada pelo sacrossanto “mercado”.  A ‘Peste’ sinaliza os horrores da natureza humana, mas nos revela também o que há de bonito no ser humano, há muito mais a admirar que a desprezar.

Considerado pelo The New York Times o livro menos tendencioso sobre Israel, Minha Terra Prometida coloca os fatos relacionados à criação de Israel em perspectiva e em nenhum momento toma posição a favor de uns ou de outros. Ari Shavit traz histórias particulares que ilustram o desenvolvimento dos kibutzim e da atividade econômica israelense, ao mesmo tempo em que fala da situação trágica dos árabes que vivam naquelas terras e foram expulsos. Não se trata de mais um livro sobre o conflito israelo-palestino; o autor não discute nem se posiciona sobre qual lado tem razão. Ele dá a palavra aos atores desta peça em que todos são perdedores.


Milton Blay é correspondente em Paris do grupo Bandeirantes. Começou sua carreira na rádio Jovem Pan, tendo integrado a equipe que ganhou o prêmio Esso de melhor programa radiofônico. Vive na capital francesa desde 1978, tendo trabalhado como correspondente da revista Visão, do jornal Folha de S.Paulo e das rádios Capital, Excelsior (depois CBN), Eldorado. Foi redator-chefe da Radio France Internationale e presidente da Associação da Imprensa Latino-Americana na França. Graduou-se em Direito pela USP e Jornalismo pela FIAM. Possui mestrado em Economia e doutorado em Política pela Université de Paris 3. Autor do livro Direto de Paris e coautor O Brasil no Contexto 1987-2017, publicados pela Contexto.