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Teoria das Relações Internacionais | Lançamento

Teoria das Relações Internacionais | Lançamento

As teorias de Relações Internacionais (RI) são o principal instrumento analítico à disposição do internacionalista para compreender as relações internacionais. As teorias servem como um guia crítico para compreender fenômenos complexos e de difícil entendimento. O estudo das teorias é parte fundamental dos cursos de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais; elas são o coração dessa disciplina e, ao lado do estudo da Política Externa, Teoria das Relações Internacionais é uma das poucas matérias específicas, encontrada unicamente nos cursos de Relações Internacionais, diferenciando-se, nesse sentido, das áreas correlatas do mundo acadêmico, tais como Ciência Política, Economia, História ou Direito.

No entanto, como veremos ao longo do livro, as teorias de RI são construídas frequentemente com textos clássicos de outras áreas. De fato, não há Teoria de RI sem Direito, História, Economia ou Política. Porém, o estudo sistemático das teorias de RI por internacionalistas foi além do que essas outras disciplinas diziam sobre temas eminentemente internacionais, tais como guerra, diplomacia, política externa e o relacionamento entre os povos. Por serem específicas e focadas nesses temas, as teorias de RI se tornaram mais complexas e mais bem acabadas para perceber o mundo internacional do que os textos que tratavam de temas internacionais em outras disciplinas. Assim, se um estudante deseja compreender e se aprofundar em temas internacionais, as demais disciplinas podem até oferecer algumas pistas, mas nada melhor que estudar as teorias de RI para entendê-los.

Teoria das Relações Internacionais | Lançamento

As teorias de RI ajudam os estudantes de RI a compreender e agir sobre o mundo internacional de três maneiras. Primeiro, servem como um guia para interpretar as Relações Internacionais contemporâneas. O mundo internacional é complexo demais, e as teorias ajudam a simplificar e hierarquizar os fatores que contribuem para guerras, pandemias, negociações comerciais, lutas por diretos humanos e tantos outros temas relevantes das relações internacionais. Sem o estudo das teorias de RI, o aluno de Relações Internacionais ficaria sem esse guia analítico para poder compreender um mundo cada vez mais complexo a sua frente, no qual fatores aparentemente importantes podem se tornar irrelevantes e aspectos pouco estudados virar decisivos. Desse modo, as teorias de RI têm a capacidade de desvelar como funcionam as Relações Internacionais. São como mapas que nos orientam em águas não conhecidas, nos mostrando os fatores fundamentais e deixando de lado o periférico.

Segundo, as teorias de RI também podem revelar o que está por trás dos discursos e narrativas dos atores internacionais e que nem sempre fica claro para o ouvinte. As narrativas internacionais de Estados, diplomatas e militares sempre trazem consigo interesses embutidos que invariavelmente favorecem alguns grupos em detrimentos de outros. Nesse sentido, algumas teorias de RI nos ajudam a desvendar essas narrativas de poder e colocar em evidência diversos tipos de opressões, tais como de raça, de gênero ou de credo, que nem sempre são claras. Há muito mais nos discursos de autoridades internacionais do que aparece em suas palavras e gestos. As teorias de RI também nos ajudam a entender a dominação e a opressão camufladas.

Terceiro, as teorias de RI nos ajudam a fazer análises morais sobre o mundo a nossa volta. Ajudam-nos a dizer que tipo de ação política é justa ou injusta e a partir de quais parâmetros morais podemos fazer esses julgamentos. Assim, elas procuram não apenas explicar ou desvelar o mundo, mas também nos dão códigos morais de conduta nas relações internacionais. Com elas podemos avaliar certas ações dos atores como justas ou injustas e sob quais critérios morais podemos fazer essas avaliações e propor soluções para os problemas internacionais. As teorias de RI também exigem que nos posicionemos perante a injustiça, algo tão importante em um mundo cheio de violações de direitos humanos.

Mas como podemos utilizar essas diferentes teorias para analisar casos reais e concretos das Relações Internacionais? Por exemplo, a Guerra Civil Síria (2011-) pode ser analisada usando teorias de RI de pelo menos três maneiras. Primeiro, uma teoria de RI explicativa como o realismo permite ao analista simplificar a realidade complexa do conflito tendo como base a luta pelo poder entre os atores locais. Os princípios e modelos analíticos realistas diriam que o analista precisa focar sua atenção na capacidade militar dos atores e como eles usam esse material para atingir seus objetivos máximos, quais sejam, sobreviver e expandir o controle sobre os demais. Outros fatores, como discursos, normas morais ou a justiça da lei internacional, pouco importam para um olhar realista do conflito, pois não ajudam a explicar a luta pelo poder. O que importa é a luta pelo poder entre os vários atores domésticos e internacionais e suas consequências mais comuns, conforme previsto pela teoria, equilíbrio ou expansão de poder material.

Uma segunda forma de analisar o mesmo conflito é tentar observar o que está por trás dos discursos dos atores em luta na guerra, principalmente os de fora da região. O que eles escondem? Quais relações de poder mascaram em seus discursos sobre a realidade do conflito? Uma teoria interpretativa e crítica como a pós-colonial dá ao analista os instrumentos para identificar, no discurso de países como EUA ou França, posições neocoloniais em relação ao Oriente Médio. Para essas potências, é “natural” e “obrigação” intervir militarmente na Síria porque os sírios não “sabem governar” e precisam dos ocidentais para resolver seus próprios problemas. Ainda que os discursos das potências não usem abertamente estes termos, uma teoria pós-colonial permite ao analista observar o que está por trás desses discursos tidos como universais e benignos, mas que mascaram interesses concretos.

Por fim, a terceira forma de usar uma teoria de RI para analisar a Guerra Civil Síria é observar as noções éticas de justiça embutidas nos discursos e ações dos atores envolvidos no conflito. Se o analista partir de uma visão cosmopolita das Relações Internacionais, para a qual qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo possui direitos universais à integridade física e de sua comunidade, é justo utilizar a força militar das grandes potências para cessar ou estancar ataques militares que ocorrem contra grupos específicos dentro da Síria. Mas se o analista partir de uma visão comunitarista, para a qual os indivíduos têm direitos que só fazem sentido à luz da cultura local, uma intervenção militar das grandes potências pode violar as tradições locais, gerando injustiças ainda maiores e piorando a situação da população.

Enfim, as Teorias de RI dão ao analista e estudante de RI o aparato analítico necessário para examinar o mesmo problema concreto a partir de diversos ângulos e ênfases diferentes, a depender da teoria específica a ser utilizada. Um bom aluno de RI aprende a dominar várias teorias para pensar o mundo.

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Feliciano de Sá Guimarães é professor-associado da Universidade de São Paulo (USP), atuando na área de Teoria das Relações Internacionais Avançada. Doutor em Ciência Política pela USP, foi professor visitante da Universidade de Yale, Estados Unidos. É pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).