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O vírus e a farsa populista | Lançamento

O vírus e a farsa populista | Lançamento

O vírus e a farsa populista | Lançamento

“No mundo que emergirá após a crise do coronavírus, nada mais será como antes”, tal como Albert Camus antecipou em A peste.
O coronavírus se tornou uma metáfora do estado do mundo, onde os cidadãos perderam o controle de suas vidas numa espécie de isolamento físico, social e político. Para muitos, a tendência é de erosão do Estado de Direito, de quarentena democrática e progressão do vírus do autoritarismo.
Também não é de estranhar o desprezo com que as presidências dos Estados Unidos, do Brasil e de outros países dirigidos por populistas de extrema direita lidaram com a dimensão da ameaça, dando sinais de rejeição da ciência, que tanto dano tem feito à humanidade.
O mundo que emergirá após a crise poderá reforçar ainda mais a tendência para soluções políticas autoritárias e unilateralistas. Ou não.

Um dos paradoxos desta pandemia é que, embora não seja das mais letais, quando comparamos a outras próximas ou distantes, nenhuma atingiu as proporções de ameaça global da covid-19. Pode-se dizer que este é o efeito mais dramático do processo de globalização que marcou o mundo nas últimas décadas e cujas consequências econômicas, sociais e políticas pareciam irreversíveis. Agora, nada mais se sabe. A única certeza absoluta é que a chamada “globalização feliz” terminou.

Outro paradoxo: à globalização da ameaça do vírus se contrapôs o reflexo defensivo do fechamento das fronteiras, do enclausuramento de países, regiões e indivíduos, para não falar do retorno do instinto nacionalista e xenófobo, confundidos com o instinto de sobrevivência. O politólogo português David Pontes, numa coluna do jornal Público, disse não estranhar o fato de que a primeira reação à pandemia por parte de lideranças como Donald Trump ou Vladimir Putin tenha sido o fechamento das fronteiras, matriz do “nós contra eles”, do nacionalismo protecionista como panaceia para todos os males. Como se o bem fosse representado por nós, o mal por eles.

Num primeiro momento, a Europa transformou-se numa mera abstração. O francês Emmanuel Macron foi o único líder a clamar por uma ação conjunta. Inicialmente sem sucesso. No momento em que anunciava em rede nacional as primeiras medidas de luta contra o coronavírus, alertando para a necessidade de uma concertação europeia, seis países do centro do continente decidiam fechar unilateralmente as suas fronteiras. Passamos do espaço Schengen, de livre circulação, ao bloqueio isolacionista sem qualquer consulta política nem aviso prévio. Não se trata aqui de dizer qual opção estava certa ou errada, mas de se tentar encontrar, juntos, a melhor solução para todos. A ideia de que o vírus se espalhou com incrível rapidez por vivermos uma globalização sem fronteiras é falsa, como se as pandemias de outrora respeitassem o mapa. O acelerador do fenômeno foi a facilidade de mobilidade.

De qualquer maneira, há de se constatar que a máquina da globalização emperrou. Definitiva ou temporariamente? O autor e colunista norte-americano Zachary Karabell, num artigo do The Wall Street Journal, mostra-se convencido de que o fechamento das fronteiras, reclamado de longa data pelos nacionalistas, é uma ilusão. Longe de assinar a morte da globalização, a crise sanitária marcaria a abertura de uma segunda fase. Prova disso, segundo ele, é a corrida internacional para a descoberta de um tratamento eficaz, graças à cooperação transnacional, tida como “a melhor vacina contra uma futura pandemia”. “A globalização morreu. Viva a globalização!”, concluiu Karabell.

A capacidade das instituições internacionais em regular a globalização foi comprometida exatamente no momento em que ela seria mais útil. Nos anos 1980, 1990, 2000, houve uma aceleração dos movimentos transfronteiriços de bens comerciais, meios financeiros e indivíduos. O fluxo de bens, serviços e pessoas provocou uma redução da pobreza mundial extremamente rápida. Dois bilhões de pessoas saíram da miséria.

Mas as instituições internacionais não puderam ou não souberam administrar os riscos gerados pela globalização. O campo de ação da Organização das Nações Unidas (ONU) não evoluiu. O mundo continua a ser governado por nações divididas, muito embora os desafios sejam mundiais. Quanto mais conectados, maior a interdependência. A crise financeira de 2008 jogou populações inteiras nos braços dos populistas da pior espécie. E os organismos internacionais, sem recursos nem autoridade suficientes, foram incapazes de enfrentar com sucesso os riscos sistêmicos crescentes e cada dia mais perigosos. As democracias vão resistir aos estragos do coronavírus? Elas também foram infectadas. Com o mundo bloqueado pelo medo ainda convalescente da crise financeira de 2008, a Europa foi incapaz de dar uma resposta concertada às consequências econômicas, sanitárias e sociais da pandemia. Quando o vírus surgiu na Itália, o bloco foi quase inexistente, limitando-se a disponibilizar 65 bilhões de euros e fechar as suas fronteiras externas. Pouco e tarde, mesmo se depois Bruxelas suspendeu a regra que impunha um teto de 3% de déficit orçamentário e adotou um plano de investimentos pós-pandemia de 750 bilhões de euros, por volta de 4,5 trilhões de reais, sob a impulsão do casal franco-germânico. A União Europeia mostrou que está viva e que os seus membros precisam uns dos outros para superar a dureza dos próximos muitos anos. Mas, há sempre um mas, dois países governados por populistas de ultradireita – Hungria e Polônia – rejeitaram o pacote
financeiro, alegando o pretexto de que havia uma cláusula de condicionalidade inaceitável: o respeito do Estado de Direito.

O coronavírus, como um tsunami em câmara lenta, entrou na casa de todos sem pedir licença e deixou às claras as outras crises: climática, dos refugiados, das desigualdades sociais, a ascensão da extrema direita. “Um vírus invisível tornou visíveis as nossas verdadeiras forças e fraquezas”, escreveu Dan Zak no The Washington Post. “Expôs as falhas dos nossos sistemas, a sinceridade das nossas relações, as formas como trabalhamos juntos ou não. […] Quanto mais nos afastarmos dos outros, mais precisaremos deles.” O mundo é cada vez mais igual, com cada qual isolado. Como disse o jornalista Vicente Jorge Silva, “o sentimento de um repórter americano não poderia ser mais idêntico ao de um repórter português: estamos todos no mesmo barco, apesar de fechados cada qual na sua concha, de Lisboa a Seattle, Nova Iorque, Madrid, Milão, Pequim, Brasília”.

Uma crise é sempre reveladora das nossas fragilidades e das nossas capacidades. Não devemos esquecer que o medo quase nunca é bom conselheiro. Continue a leitura clicando aqui


Milton Blay atualmente é correspondente em Paris do Brasil 247. Começou sua carreira na rádio Jovem Pan, tendo integrado a equipe que ganhou o prêmio Esso de melhor programa radiofônico. Vive na capital francesa desde 1978, tendo trabalhado como correspondente da revista Visão, do jornal Folha de S.Paulo e das rádios Capital, Excelsior (depois CBN), Eldorado. Foi redator-chefe da Radio France Internationale e presidente da Associação da Imprensa Latino-Americana na França. Graduou-se em Direito pela USP e Jornalismo pela Fiam. Possui mestrado em Economia e doutorado em Política pela Université de Paris 3. É autor dos livros Direto de Paris, A Europa hipnotizada e O vírus e a farsa populista e coautor de O Brasil no contexto: 1987-2017, publicados pela Contexto.