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Vacinas: temos o direito de correr o risco e ainda transmitir?

Vacinas: temos o direito de correr o risco e ainda transmitir?

Vacinas: temos o direito de correr o risco e ainda transmitir?

Poucas ações na História tiveram tanto impacto para reduzir mortalidade quanto a vacinação. Seu custo-benefício é fantástico. Sim, os adultos jovens e idosos têm que se vacinar. Não apenas as crianças.

Existe um calendário para as vacinas específico para a vida adulta e velhice. Temos a tríplice viral (sarampo, rubéola, caxumba), contra HPV, antitetânica (com difteria), antigripal (incluindo o H1N1), antipneumocócica, antizóster, antiamarílica (febre amarela), anti-hepatite B, antimeningite, ou seja, um grande arsenal para evitar doenças que podem matar.

O Brasil foi exemplo mundial de vacinação em massa, utilizando o Sistema Único de Saúde e a propaganda governamental. Pessoas mais velhas cresceram com a imagem do Zé Gotinha, em analogia às gotas da vacina Sabin contra poliomielite criada em 1960 e que quase erradicou a doença do país.

A varíola é o grande exemplo de que uma ação global pode erradicar totalmente uma doença. O nome varíola vem do latim vari e significa “irrupção de botões”; varius são “indivíduos com o rosto recoberto de manchas”. Os acometidos tinham o rosto “bariolado” ou “variolado”. Popularmente, no Brasil, essas lesões eram as bexigas, que originou o nome popular do bairro da Bela Vista, em São Paulo.

A varíola matou mais de 300 milhões de pessoas no decorrer da História. Em epidemias, 20% a 40% dos infectados morriam, e foi a maior causa de mortalidade infantil durante anos. Entre os nativos americanos, matou 75% dos infectados.

O início da vacinação começou, na verdade, com a variolização, que consistia em pegar pústulas de doentes e, com uma agulha, inoculá-las em pessoas saudáveis. Em 1777, George Washington instituiu a variolização no exército, depois da devastação ocorrida com os soldados durante a Guerra da Independência.

A vacinação difere desse método, pois, enquanto na variolização o material é retirado de pústulas humanas, na vacinação, o processo de induzir a formação de anticorpos originalmente veio da vaca (de onde vem o nome “vacina”).

Edward Jenner, em 14 de maio de 1796, o médico rural inglês, examinou as mãos da ordenhadora Sarah Nelmes. Nesse momento, lembrou do conselho de seu mestre: “Não pensa, experimenta, com paciência e meticulosidade”. Retirou material das lesões de Sarah e injetou-o no braço do jovem de 8 anos James Phipps, que desenvolveu erupções. Em 1º de julho de 1796, injetou material de pessoa atacada por varíola no jovem, que não desenvolveu a doença. A cowpox protegia contra a smallpox.

Em 1980, a ONU declarava a varíola extinta da terra, menos de 200 anos depois de feita a vacina.

Entretanto, um duro golpe iria criar um debate que poderia ter sido evitado. A vacinação contra sarampo, rubéola e caxumba teve um grande declínio no mundo após uma publicação na revista Lancet em 1998. A revista errou ao aceitar o artigo de Andrew Wakefield, que descrevia que algumas crianças, segundo relato dos pais e médicos, pioraram de seu autismo após a vacinação. O artigo, com grave equívoco metodológico, teve um impacto absurdo contra a vacinação, mesmo tendo sido banido posteriormente. A distorção foi tão grande, que se espalhou a notícia que poder-se-ia inclusive causar autismo em crianças sem esta condição. Wakefield foi acusado de fraude deliberada e teve sua licença médica caçada. A alegação para eventual causa de autismo seria o mercúrio no Thimerosal, estabilizante de algumas vacinas. Vários outros artigos desmentiram essa associação da vacina ao autismo, porém o mal estava feito.

Ao contrário do que se pensava, o sarampo não faz parte das doenças benignas da infância. Antes da vacina, matava mais de 2 milhões de crianças por ano, porque o vírus causa depressão imunológica, que predispõe a complicações bacterianas. Com a vacina, disponível desde 1963 na Europa, o número de mortes caiu para 139 mil em 2010.

Só conseguiremos extinguir o sarampo da face da Terra quando todos forem vacinados (na verdade, 95% da população). A transmissão dele é altíssima: 1 pessoa contamina em média 18 outras.

No Brasil, que já foi considerado modelo de vacinação, o sarampo voltou. Desinformação associada a postos de saúde que abrem apenas em horário comercial (as mães perdem dia de trabalho para vacinar seus filhos) e falta de campanhas governamentais são os principais fatores. O vírus agradece.

A poliomielite é outra doença que também poderia estar extinta. No Brasil, o último caso relatado foi em 1990. Dessa feita, outros fatores influenciaram: Osama bin Laden.

A história foi publicada no Guardian, na revista Science e pelo Dr. Dráuzio Varella. Esse inacreditável episódio me faz cada vez mais acreditar em teorias da conspiração.

“Era uma vez uma meia-irmã de Bin Laden que morreu nos EUA, em Boston, em 2010. Guardaram seu material genético. Anos depois, souberam que o maior terrorista vivo estava escondido numa região no Paquistão. A CIA forjou uma campanha de vacinação contra hepatite B e colheram material genético de todas as crianças da região. Bingo: acharam uma compatível com aquele material genético guardado. Seguiram a criança e acharam o esconderijo, matando o terrorista”. E viveram infelizes para sempre, porque, desde então, as campanhas de vacinação são rejeitadas e até há relatos de profissionais da saúde mortos naquelas regiões.

O número de casos mundiais de poliomielite caiu de 350 mil em 1988 para 650 em 2011. A doença persiste apenas no Paquistão, no Afeganistão e na Nigéria.

No Brasil, também temos uma história bem triste, mas com final feliz: a Revolta da Vacina, em 1904.

Osvaldo Cruz era o equivalente a ministro da Saúde de hoje. O Rio de Janeiro, capital do país, estava se modernizando. Queriam ampliar as avenidas, a exemplo de Paris, e os cortiços foram derrubados, levando a população para os morros, começando as favelas. A crise econômica era intensa. Somando-se a isso, a população foi obrigada a se vacinar contra a varíola, doença que matava 400 mil pessoas por ano. Os agentes entravam à força nas casas, arregaçavam as mangas das senhoras pudicas e aplicavam a vacina. Ação certa, do jeito errado. Conclusão: uma verdadeira revolta com mais de 50 mortos, 100 feridos e centenas de presos. Os cadetes, que estavam descontentes, aproveitaram o movimento, e estado de sítio foi decretado pelo presidente Rodrigues Alves. Final feliz: o número de casos da varíola despencou no Brasil e as pessoas voluntariamente começaram a se vacinar.

A vacina contra o HPV foi um dos grandes saltos da ciência. Sabemos que o câncer de colo de útero está intimamente relacionado ao papilomavírus humano, aquele que dá uma verruguinha genital. Estima-se que, se toda a população for vacinada, meninas e meninos, esse câncer será praticamente extinto. No Brasil, 16.500 casos novos de câncer de colo de útero são diagnosticados por ano, a maioria pelo exame de papanicolaou. A maior parte das 6 mil mortes poderia ser evitada com a vacina. No mundo, são 570 mil casos por ano, com 311 mil mortes O uso de preservativos pode diminuir muito o contágio desse vírus. A vacina tetravalente confere proteção contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV. Os dois primeiros causam a verruga e os dois últimos são responsáveis por 70% dos cânceres de colo de útero. Lembre-se de que quem transmite à mulher, em geral, são os homens, portanto ambos têm que se vacinar.

Nem todas as vacinas são feitas da mesma maneira. Isso faz com que algumas pessoas com baixa imunidade, por estarem com câncer, ou recebendo certos medicamentos que baixam a resistência, não possam receber vacinas como a de febre amarela ou a tríplice viral, entre outras. Essas vacinas são produzidas com vírus atenuados, ou seja, vivos, apenas um pouco “atordoados”. Por estar com baixa imunidade, podem ser vítimas da doença que as vacinas deveriam, exatamente, evitar. O que fazer então? O que a Medicina não resolve, a cidadania pode resolver. Ou seja, se os que podem se vacinar se vacinarem, a sociedade protegerá seus vulneráveis.


Arnaldo Lichtenstein, é doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (fmusp), onde também cursou a graduação. Fez residência médica em Clínica Geral no Hospital das Clínicas da fmusp, área em que atua profissionalmente. É diretor técnico do serviço de Clínica Geral do Hospital das Clínicas, coordenador de curso e professor da fmusp. É diretor da Sociedade Brasileira de Trombose e Hemostasia e representante do American College of Physicians no Brasil, como governador. Possui mais de 40 artigos científicos e capítulos de livros publicados.