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sintaxe do período simples

A possibilidade de trabalhar a “Sintaxe pela sintaxe”

Em Sintaxe do período simples: teoria e prática, defendemos que “a Sintaxe pela sintaxe” é uma via de estudos pensada para ser explorada a partir da organização estrutural das sentenças das línguas naturais. Para tecer esse método, tomamos como base os aspectos biológicos da nossa espécie, perspectiva na qual a sintaxe é entendida como o componente mental que gera todas as sentenças de qualquer língua natural. Ela compõe um sistema complexo, localizado em um dado módulo da nossa mente: a faculdade da linguagem. A sintaxe é a responsável por controlar a formação e a integração dos pequenos conjuntos – os sintagmas – que formam as sentenças de modo independente do significado ao serem combinados de maneira organizada. Por isso, nessa obra, a via que escolhemos nos leva ao estudo da “Sintaxe pela sintaxe”, ou seja, ao estudo da estrutura da língua a partir do nosso conhecimento tácito sobre gramática.

Pensemos, neste momento, sobre a seguinte pergunta: é possível identificarmos padrões sintáticos a partir de itens desprovidos de significado ou que quando combinados não estabelecem um significado lógico? Se a resposta for sim, é plausível estudarmos a “Sintaxe pela sintaxe”.

Para responder à pergunta anterior, retomemos uma célebre frase de um famoso linguista – Noam Chomsky – “Colorless green ideas sleep furiously”, que, em uma tradução livre, significa “Ideias verdes incolores dormem furiosamente”. No nível semântico, sabemos que “ideias verdes” não são capazes de adormecer, assim como não é plausível entendermos que elas dormem de maneira furiosa. Todavia, no âmbito da Sintaxe, somos capazes de dizer que o conjunto “Ideias verdes” é bem formado em português e estabelece relação de concordância com o verbo “dormir” cujas marcas flexionais indicam a terceira pessoa do plural do presente do indicativo, portanto é o sujeito da oração. Ao mesmo tempo, “furiosamente” forma outro conjunto que, contudo, não é selecionado pelo predicador “dormir”, pois cumpre em relação a ele a função de adjunto. Os conjuntos, ou seja, os sintagmas, podem inclusive ser classificados: “Ideias verdes” é um bloco cujo núcleo é um nome, portanto, um sintagma nominal, enquanto “furiosamente” é outro agrupamento, cujo núcleo é um advérbio, por conseguinte é um sintagma adverbial.

Sem dúvidas, a percepção de que podemos estudar a estrutura sintática a partir da sua própria hierarquia é um diferencial dessa obra. Essa abordagem permite aos seus leitores (re)construírem saberes técnicos, reposicionando o lugar da Sintaxe na discussão sobre a língua. Assim, a obra Sintaxe do período simples: teoria e prática destina-se aos docentes de nível superior, que encontram um livro com uma linguagem técnica, mas ancorada em uma abordagem didática, cujo texto é acessível aos estudantes de graduação. A organização do livro contempla a hierarquia das sentenças: falamos sobre predicadores, argumentos e adjuntos no nível oracional e suboracional. Definimos sintagmas e apresentamos os testes que são capazes de identificá-los. Discutimos os tipos de predicados e suas distintas estruturações. Enfim, mergulhamos no refinado universo da hierarquia da Sintaxe do período simples.

sintaxe do período simples

Essa também é uma obra em que nós não nos furtamos a discutir sobre como a abordagem da “Sintaxe pela sintaxe” pode ser aplicada na educação básica, haja vista o fato de que ela integra a coleção Linguística e Ensino da Editora Contexto. Trazemos um debate sobre como diferenciar adjuntos adnominais e predicativos do objeto, um tema que é, para muitos estudantes, fonte de intensas dúvidas. Ao mesmo tempo, dedicamos um capítulo para examinar o tratamento da função sintática de sujeito na educação básica. Tudo isso com a finalidade de apontar que a observação da estrutura, a partir de um método de raciocínio lógico, auxilia a desvendar o mistério que há na identificação e na metalinguagem das funções sintáticas. Assim, nosso livro também tem como público-alvo os docentes e os estudantes da educação básica, sem deixar de contemplar aquelas pessoas que, embora sejam leigas nos estudos em Letras, são curiosas sobre o potencial de estruturação da língua.

Sobre as suas origens, precisamos dizer que Sintaxe do período simples: teoria e prática começa a ser concebido nos corredores da Faculdade de Letras da UFRJ por onde caminhávamos,  inicialmente, como graduandas e, posteriormente, como pós-graduandas. Durante boa parte do percurso: estudantes de Sintaxe. Naqueles conjuntos de ementas que nos formaram, naquelas conversas e reuniões em salas de pesquisa, em cafés ou em corredores de congressos, algumas perguntas nos intrigavam: como falar sobre Sintaxe para os mais distintos públicos? Como despertar nos estudantes o gosto pelo conhecimento sobre a estrutura da língua? Não tínhamos respostas, mas sabíamos que, à Sintaxe, cabia o mote de pesquisa que não só nos tirava, mas também nos colocava nos eixos de uma vida profissional voltada para a docência e para a pesquisa em Sintaxe. Sintaxe do período simples: teoria e prática é, portanto, o produto das inquietações e das experiências que nos conduziram até a Faculdade de Letras da UFMG e ao Instituto de Letras da UFF, instituições onde atuamos como docentes e pesquisadoras.

O trabalho cuidadoso de escrita desse livro nos desafiou a responder às perguntas anteriores. Assumimos que o caminho mais produtivo para essa empreitada é pensarmos a Sintaxe como o desvelar das estruturas sentenciais da língua, todas advindas de um componente mental. Isso significa que lançamos mão da construção de raciocínios lógicos, embasados em passos ordenados, para que as generalizações sejam construídas. Logo, buscamos evidenciar as vias cujas entradas e saídas, quando observadas com atenção, permitem ao sintaticista (em formação) fazer descobertas sobre a organização estrutural das sentenças do português.

Esperamos que essa obra desperte nos seus leitores o gosto por se aventurar nas averiguações sobre como sentenças do tipo “Ideias verdes dormem furiosamente” podem ser estruturalmente analisadas sem que haja nenhuma coerência de significado na combinação dos seus sintagmas. O desafio pode ser bem-sucedido se estudarmos a “Sintaxe pela sintaxe”. Desejamos que os leitores do livro também se sintam instigados a se debruçar sobre o universo da Sintaxe a fim de que novos profissionais especialistas nessa área brotem das salas de aula nacionais.

Aos nossos leitores, sintam-se desafiados!!!


Mayara Nicolau de Paula é doutora em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa) pela Universidade Fedral do Rio de Janeiro e é professora adjunta na área de Linguística da Faculdade de Letras da Universidade Fedral de Minas Gerais, onde atua na graduação e no mestrado profissional em Letras – Profletras. Atualmente, coordena o curso de especialização em ensino de gramática – Cegrae. Tem interesse em pesquisas sobre sintaxe do português, mudança e variação linguística e ensino de gramática, orientando pesquisas e desenvolvendo projetos relacionados.

Elaine Melo é doutora em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e é professora adjunta na área de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, onde atua na graduação, na pós-graduação em Estudos de Linguagem (PosLing-UFF), bem como na especialização em Língua Portuguesa. É líder do Grupo de Estudos em Sintaxe (GESINT-UFF), onde desenvolve projetos de pesquisa, ensino e extensão. Tem como foco de pesquisa a sintaxe do português por um viés formalista, orientando trabalhos sobre ensino de língua portuguesa, mudança e descrição linguística.

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