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Refém

Cinco terroristas entram com armas em punho. Estamos de pijama; eles trajam uniformes, balaclavas e portam Kalashnikovs. Eles nos encontraram: encontraram-me; minha esposa, Lianne; nossas lindas filhas, Noiya e Yahel; e nossa cadela. Estamos em nosso quarto seguro, um abrigo reforçado em nossa casa que deveria nos proteger de ataques com foguetes – não de invasores como esses. A cachorra late em desespero. Ela não gosta de estranhos. O som atrai o fogo dos terroristas, que ricocheteia nas paredes. É ensurdecedor. Lianne e eu pulamos em cima das meninas para protegê-las, verificando se não estão feridas e gritamos para os terroristas pararem. Imploramos. Não tenham medo, eles respondem em árabe, e exigem que entreguemos nossos celulares.

Olho as minhas filhas nos olhos. Noiya tem 16 anos. Yahel apenas 13. Tento tranquilizá-las, dizendo que tudo ficará bem. Elas não gritam. Elas não choram. Elas sequer falam. Estão paralisadas ​​de terror.

Jamais esquecerei aquele olhar de terror em seus olhos.

***

Sei que todos dizem que começou às 6h29.

Não me lembro das 6h29.

Lembro-me do celular da minha esposa tocando descontroladamente e nos acordando a todos na manhã de shabat. É o feriado judaico de Simchat Torá. Dia 7 de Outubro de 2023.

Lianne instalou um aplicativo que emite um som muito alto e estridente sempre que há um alerta de míssil em nossa área. Nunca gostei dele. Assusta todo mundo em casa. Mas Lianne insistiu. E hoje, é isso que nos acorda. Lianne salta da cama para acordar Noiya, que dorme no andar de cima, e eu acordo Yahel, em seu dormitório no térreo, como o nosso. Lianne consola Noiya, eu acalmo Yahel. Há foguetes disparados de Gaza, explicamos. Elas sabem o que fazer. Corremos para o quarto de Yahel, que também serve como nosso quarto seguro: eu, Lianne, Noiya, Yahel e a cadela. Ninguém entra em pânico. Não é a primeira vez que vivenciamos essa situação. Já ​​passamos por isso muitas vezes. Nossa casa no kibutz Beeri fica a menos de 5 km de Gaza. Mesmo quando os foguetes não atingem o interior do kibutz, sempre vemos as interceptações aéreas do Domo de Ferro.

Estamos acostumados com os estrondos das explosões.

Dentro do quarto seguro, ligamos a TV e percebemos: algo muito mais grave está acontecendo desta vez. As sirenes de alerta de foguetes não se limitam ao oeste do Negev, às cidades e aos vilarejos ao longo da fronteira com a Faixa de Gaza – é muito mais extenso que isso. Porém, ainda assim, não há motivo para entrar em pânico. Assim que as sirenes param, saio silenciosamente do quarto seguro para preparar um chá para Lianne e as meninas. Exatamente como se espera de alguém que cresceu na Inglaterra, Lianne ensinou nossas filhas a adorarem chá. Elas não conseguem começar a manhã sem uma xícara de chá inglês. É tradição. Volto para o mesmo quarto com um bule de chá e nós o bebemos, enquanto ouvimos as sirenes lá fora (elas recomeçaram) e assistimos ao noticiário na TV.

E então – vemos. A televisão mostra imagens de homens armados e mascarados em uma caminhonete Toyota branca, dirigindo pela cidade de Sderot, que fica a menos de 16 km daqui. Fico boquiaberto. Algo sem precedentes está acontecendo.

Nossa equipe de emergência local começa a nos atualizar pelo WhatsApp. No início, adverte que existe a possibilidade de que terroristas se infiltraram no kibutz. Então, torna-se um fato: há terroristas no kibutz.

Nesse momento, começam a surgir as primeiras imagens de um ataque perto do kibutz Reim, a poucos quilômetros de distância. Há relatos de que uma festa durante a noite, o Festival Nova, rapidamente se transformou em um banho de sangue quando terroristas fizeram uma chacina em campo aberto. Vemos cenas de completo caos enquanto jovens aterrorizados, cobertos de sangue, correm por campos de trigo. Tento tranquilizar Lianne e as meninas. “Mesmo que terroristas tenham se infiltrado no kibutz”, digo a elas, “não podem ser mais do que dois ou três”.

Chegam mais relatos, e minha previsão começa a parecer absurda. Não é só Reim, ou Sderot, ou Beeri. Há também homens armados em Ofakim, a caminho de Netivot, e em todos os kibutzim da região. Nós e as meninas participamos de vários grupos do WhatsApp, e as informações chegam aos montes. A equipe de emergência nos adverte pelo WhatsApp: ela se deparou com terroristas. Há vítimas.

Se há vítimas, a situação não é boa.

As mensagens chegam sem parar. Ping. Ping. Ping. Estamos grudados em nossos celulares, e cada atualização pinta um quadro mais sombrio e arrepiante. As mensagens em nossos grupos de bate-papo – do kibutz, dos pais locais, do grupo de jovens, dos amigos – são simplesmente impensáveis. “Eles atiraram na minha mãe!”, escreve uma das colegas de classe de Yahel, uma menina de 13 anos que mora a poucos metros de distância.

A verdade vem à tona: dezenas de terroristas se infiltraram no kibutz. Eles estão indo de porta em porta, invadindo casas, arrombando quartos seguros. Até roubando carros. O Exército israelense não está em lugar nenhum.

Se eles estão roubando carros, isso significa que podem sequestrar pessoas e levá-las para Gaza.

Gaza está bem aqui, do outro lado da cerca.

Onde está o Exército para nos proteger?!

Enquanto Lianne manda mensagens para sua família na Inglaterra, nos comunicamos por meio de olhares silenciosos. Ela levanta o celular para me mostrar as mensagens que está lendo. Os terroristas acabaram de invadir a casa daquele sujeito. Eles forçaram a entrada na casa daquela mulher. Moramos em um kibutz, uma pequena aldeia comunitária. Todo mundo conhece todo mundo. Sei onde fica cada casa, quantas pessoas moram lá, quem são elas.

Saio sorrateiramente do quarto seguro, tranco a porta da frente e fecho tudo o que posso: persianas, portas, janelas. Ouvimos baques e, então, um rangido. Os terroristas estão tentando invadir pelas persianas. Fecho a porta do quarto e seguro a maçaneta. Como em quase todos os quartos seguros residenciais em Israel, não é possível trancar a porta por dentro. Esses quartos são projetados para proteger de ataques de foguetes, não de invasores. De qualquer forma, os terroristas não conseguem invadir nossa casa e seguem para a casa ao lado. Solto a porta do quarto seguro apenas quando tenho certeza de que eles se foram. Esperamos que seja só isso, que tenham nos ignorado. Pelas mensagens que seguem, descobrimos que os terroristas estão lançando coquetéis Molotov nas casas dos nossos vizinhos, incendiando-as, enquanto famílias aterrorizadas ficam entrincheiradas no interior. Decidimos que, se os terroristas voltarem, não resistiremos nem lutaremos. Esperamos que isso proteja as meninas e os impeça de atirar.

São 10h45. A essa hora, em uma manhã normal de shabat, estaríamos reunidos para uma refeição em família. Numa semana podemos comer jachnun; em outras, Lianne prepara shakshuka. Mas este não é um desses sábados normais. Estamos presos no quarto seguro há mais de quatro horas.

Crash. A janela da escada se estilhaça. Com vista para os campos circundantes, é a única janela da casa sem persianas. Ouço um dos terroristas entrando por ela antes de ir até a porta da frente e abri-la para os outros. Eles invadem a residência e chegam muito rapidamente ao quarto seguro.

A porta se abre. Eles nos arrastam para fora. A sala de estar ainda está cheia de balões dos aniversários de Noiya e Yahel. Elas nasceram em outubro, então comemoramos duas vezes esta semana. Os cinco terroristas que invadiram o quarto seguro não estão sozinhos. Há outros cinco, além de um comandante que dá as ordens. Esses são agentes habilidosos e cautelosos, que sabem o que estão fazendo. Dois dos terroristas me agarram com força. Sei que planejam me sequestrar, não tenho dúvidas. “Passaporte britânico! Passaporte britânico!” Lianne começa a falar em inglês, tentando sinalizar que ela e as meninas são cidadãs britânicas, e os documentos para prová-lo estão no andar de cima. Já conversamos sobre isso. Temos certeza de que os terroristas não ousariam se meter com os súditos de Sua Majestade. Minha esposa e minhas duas filhas devem estar seguras.

Um dos terroristas me faz um sinal para buscar os passaportes. Começo a subir as escadas. O vidro quebrado da janela brilha à luz do sol. O comandante me vê e ordena que seus homens me tragam de volta. Eles me mantêm na sala de estar, mandam as meninas ficarem na cozinha e ordenam que Lianne, que ainda está de short e regata, se vista.

Lianne vai para o nosso dormitório. Estou bem perto da porta, agarrado pelos terroristas. Observo-a, parada perto do armário, sem saber o que vestir ou o que fazer em seguida. “Lianne, não entre em pânico”, digo-lhe. Ela me encara. Seus olhos dizem tudo: o que diabos você quer dizer com não entre em pânico?

Acho que elas ficarão bem, Lianne e as meninas. Quer dizer, eles só disseram para Lianne se vestir. E, de qualquer forma, elas têm passaportes britânicos. Convenhamos, se os terroristas quisessem nos matar, já teriam nos crivado de balas no quarto seguro, terminariam o serviço em cinco segundos e iriam para a próxima casa.

Os terroristas começam a me arrastar para fora. Estou descalço. Não consigo mais ver as meninas, porque elas estão na cozinha atrás de mim e os terroristas estão segurando minha cabeça inclinada para a frente.

“Eu vou voltar!”, grito, enquanto os terroristas me arrastam para fora.

Não consigo ouvi-las. Não sei se elas me ouviram.

Eles estão me arrastando para fora pela porta da frente. Os terroristas me prenderam entre eles, minha cabeça forçada para baixo. Quando consigo erguer a cabeça e dar uma olhada rápida, vejo meu belo kibutz reduzido a uma carnificina. As casas dos nossos vizinhos estão queimando. A casa da família Or está em chamas. Assim como a dos Lev. E a dos Zohar. Esses são nossos amigos… Yonat Or e Or Lev eram da minha turma na escola.

Toda a área está repleta de terroristas armados. Eles riem, pavoneiam-se, inclusive andam nas bicicletas dos nossos vizinhos. Um dos terroristas que me segura percebe que olhei para cima, se descontrola e me golpeia, fazendo com que meus óculos de leitura, que estavam apoiados na minha cabeça, voem. Os homens armados me arrastam em direção à cerca perimetral do kibutz, a poucos metros da nossa casa. Moramos em uma área relativamente nova do kibutz, chamada Kerem. Fica na parte noroeste da comunidade – no lado que dá para a Faixa de Gaza.

Atravessamos a cerca. Os terroristas me arrastam para o norte. Enquanto caminhamos, outros terroristas que passam se revezam me dando socos. Um deles me chuta nas costelas. Os homens que me seguram tentam impedir que outros se aproximem. Eles me querem vivo, penso comigo mesmo. Em um dado momento, pegam uma bandana para vendar meus olhos. Só consigo enxergar através dela com muita dificuldade.

Estou sendo sequestrado. Entendo que isso é uma catástrofe. Entendo o que isso significa. Não me importo que estejam me espancando. Nem sequer sinto. Porque, nesses momentos, enquanto sou conduzido pela cerca do kibutz, sob o sol escaldante, envolto pelo cheiro de ruínas fumegantes, com uma bandana cobrindo meus olhos, arrastado por terroristas que seguram com força minhas duas mãos, totalmente consciente de que estou sendo sequestrado para Gaza, mas sabendo pelo menos que Lianne e as meninas ficaram para trás, me concentro em uma única missão: sobreviver para voltar para casa.

Não existe mais o Eli de sempre. De agora em diante, sou Eli, o sobrevivente.

A cerca na extremidade noroeste do kibutz está completamente escancarada. Postado ao seu lado, um homem, que parece um controlador de uma frota de táxis, direciona o trânsito. Diferentemente dos demais, não tem o rosto coberto. Ele tem uma função. Não é um mero terrorista; é um administrador. Há ordem aqui, um plano. Uma lógica nesta loucura assassina.

Entendo o que está acontecendo. Os terroristas estão carregando reféns em veículos roubados do kibutz e os levando para a Faixa de Gaza. Chegamos a uma espécie de ponto de encontro. Dois terroristas me empurram para dentro de um carro. Eu o reconheço; é do kibutz. Eles me prendem no chão do banco de trás e seguimos viagem. Não sabem que eu entendo árabe. Acompanho cada palavra. Ouço. Eles estão eufóricos. Atônitos com o que está acontecendo. Radiantes por terem superado as expectativas. Estupefatos por terem conquistado Beeri com tanta facilidade. “Hada milian, hada milian!”, dizem uns aos outros. Esses judeus são milionários!

Jogam um cobertor sobre mim, no chão do carro. Estou fervendo. Estou suando. O carro nos conduz por longas estradas sinuosas. Percebo que os terroristas estão ficando estressados. Eles têm certeza de que seremos atingidos por um ataque aéreo a qualquer segundo. Eu também tenho certeza disso. Após um curto trajeto, param e arrastam outro refém para dentro do automóvel – um trabalhador tailandês de um kibutz vizinho. Eles o jogam em cima de mim.

O carro acelera para o oeste. Não consigo ver nada, mas ouço um rangido lento de ferro. Atravessamos um portão, talvez um posto de controle. Os terroristas param por um segundo e falam com alguém do lado de fora. O veículo segue viagem e sei que acabou.

Eles estão nos levando para dentro.

Para Gaza.


Eli Sharabi é um ex-refém que sobreviveu a 491 dias no cativeiro do Hamas após seu sequestro do kibutz Beeri em 7 de Outubro de 2023. Após sua libertação, Sharabi trabalhou incansavelmente pelos reféns remanescentes, encontrando-se com líderes mundiais, discursando nas Nações Unidas e compartilhando sua história com o público ao redor do mundo. Este livro de memórias é o primeiro relato publicado por um refém israelense libertado e tornou-se um best-seller instantâneo em Israel. Foi traduzido para diversas línguas, tendo entrado na lista dos livros mais vendidos do The New York Times, nos Estados Unidos, e do The Sunday Times, no Reino Unido. Nascido em Tel Aviv, filho de pais de origem iemenita e marroquina, Sharabi mudou-se para Beeri na adolescência e mais tarde se casou com Lianne, com quem teve duas filhas, Noiya e Yahel, de 16 e 13 anos à época dos fatos. Lianne, Noiya e Yahel foram assassinadas em casa no dia 7 de Outubro. Yossi, um dos irmãos de Sharabi, foi sequestrado e, depois, morto em cativeiro em Gaza. Morador de longa data de Beeri, Sharabi atuou como diretor financeiro e gerente de negócios do kibutz. Foi também diretor financeiro da Beeri Printing e de outras empresas privadas em Israel.

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