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teoria da história introdução

Teoria da História

UMA SEPARAÇÃO INDEVIDA

A Teoria da História vive em muitos lugares. Por um lado, todos os cursos superiores de História têm uma disciplina assim chamada. Contudo, se procurarmos bem, vamos encontrar conteúdos de Teoria, explícitos ou não, em “Metodologia”, “Introdução aos Estudos Históricos” e até em “Filosofia da História”. A rigor, nenhum estudante escapa de seus longos tentáculos. Por outro lado, convém registrar que historiadores são, em geral, cientistas muito pouco teóricos. Há, sem dúvida, aqueles que elaboram teoricamente seus temas ou que estudam de modo específico tópicos teóricos, mas a imensa maioria discretamente evita ou abertamente rejeita a teoria, limitando seus esforços de pesquisa ao plano descritivo.

A defesa da simples descrição da história é parte de um estigma social mais amplo, que separa teoria e prática para, quase sempre, afirmar a superioridade desta em relação àquela. Segundo tal estigma, como “a teoria na prática é outra”, uma teoria seria algo abstrato demais para ter utilidade. Nos estudos históricos, a prática, em busca de verdades supostamente concretas, poderia muito bem passar sem qualquer teoria.

Os autores deste livro defendem que o estudo da Teoria da História é mais do que uma mera imposição curricular de cursos superiores, mas uma atitude imprescindível à boa prática historiográfica. Defendem, ainda, que a separação entre teoria e prática é uma falácia. Como bem assinalou o historiador Temístocles Cezar (1965-), a insistência no primado da prática entre os historiadores não deixa de ser uma postura intelectual, logo também teórica. E se não há como fugir da teoria, recomenda-se que seu estudo seja assumido como necessário, sem rodeios.

Frequentemente considerada pelos estudantes uma matéria árdua e desafiadora, a Teoria da História pode ser também uma fonte de encantamento. Como ocorre com qualquer disciplina científica, a História tem suas especializações. Estuda-se uma determinada época de um determinado lugar, enfatizando-se alguma dimensão da realidade (a política, a sociedade, a economia, a cultura, o pensamento, o patrimônio material, amemória), alguns fenômenos ou acontecimentos. Mas o estudo da Teoria da História não se restringe a tais delimitações, pois ele precisa dar conta de um conjunto amplo de realidades. Não existe uma teoria específica que explique, digamos, a Guerra do Peloponeso, a conversão ao cristianismo do antigo reino etíope de Axum, a resistência indígena à colonização portuguesa da América, as origens do cinema no Brasil, a ascensão da China como potência global ou o movimento #MeToo. Um tema qualquer só pode ser comprendido de maneira devida se sua observação não se limitar estritamente a ele, e se ele for aproximado a outros temas. Essa generalização da observação é um procedimento teórico de implicações analíticas, que faz com que a Teoria da História valorize o gosto pelo estudo da históriaem geral, construindo cenários mais amplos – logo, mais verdadeiros – da existência humana. Isso não é encantador?

Praticantes conscientes e declarados da Teoria da História, os autores deste livro escreveram-no pensando na sala de aula, em especial, nos historiadores do futuro: aqueles estudantes que por algum motivo obscuro insistem em procurar os cursos superiores de História e fazer do encantamento com a existência e com as dinâmicas da humanidade o seu ofício. Foi escrito pensando também em outros praticantes desse ofício que não necessariamente o estudaram em universidades, mas que de alguma forma trabalham sob a inspiração de Clio, a velha e ainda ativa musa grega. Em uma linguagem didática, mas rigorosa, este livro oferece uma introdução a uma abordagem teórica do conhecimento histórico, bem como um incentivo à sua prática.

Há muitas maneiras de se estudar Teoria da História, nenhuma necessariamente melhor que a outra. Alguns professores dividem suas aulas em escolas históricas, outros preferem enfatizar autores e obras específicos, outros ainda destacam teorias das ciências humanas e seus diálogos com o campo historiográfico. De nossa parte, nos alinhamos àqueles que elegem como eixo grandes questões que, de alguma forma, dizem respeito a qualquer estudo histórico. Neste livro, escolhemos – e enfatizamos tratar-se de escolhas – quatro dessas questões, cada uma correspondente a um capítulo: 1) diferentes concepções de tempo entre os historiadores; 2) o problema das escalas de observação e análise; 3) as relações entre conhecimento histórico, narrativa e linguagem; e 4) o tradicional e atualíssimo problema da verdade histórica.

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O QUE É TEORIA DA HISTÓRIA

Mas afinal, o que é Teoria da História?

Uma teoria pode ser considerada um conjunto de ideias, regras, leis ou princípios mais ou menos coerentes entre si e que formam uma unidade. E uma vez utilizado como parâmetro de análise, esse conjunto é capaz de conferir inteligibilidade a alguma parte da realidade. Dizemos alguma parte porque não existe – e provavelmente nunca existirá – uma única teoria de tudo. Nem mesmo as ciências da natureza possuem uma teoria unificada, embora seus cientistas sigam procurando uma possível junção entre os postulados relativistas e os quânticos. No campo dos fenômenos sociais, uma teoria única foi buscada por pensadores como Auguste Comte (1798-1857), Karl Marx (1818-1883) e Émile Durkheim (1858-1917), além de outros que, em especial no século xx, tentaram extrair das ciências da natureza leis e critérios que explicassem, igualmente, as sociedades. Mas, hoje em dia, tais pretensões parecem cada vez mais distantes.

Embora a prática historiográfica seja antiquíssima, a disciplina histórica propriamente dita surgiu somente no século xix. Os personagens, os acontecimentos, os processos e as dimensões da realidade a que ela se dedica são sempre os relacionados aos seres humanos em coletividade. Nisso, a História se aproxima de disciplinas como a Sociologia, a Antropologia, a Economia, a Ciência Política, a Psicologia, a Linguística e a Geografia Humana. Podemos, então, distinguir uma teoria da História em meio às teorias dessas outras disciplinas? De nossa parte, a pergunta não enseja nenhuma pretensão de isolamento da História em relação a elas. Apenas recoloca o questionamento sobre se a História tem algo a dizer às demais ciências do homem e, em caso afirmativo, em que consistiria sua identidade teórica.

Nossa resposta é afirmativa. Embora se aproxime de teorias de outras disciplinas e se confunda com elas, o que é muito positivo, a Teoria da História é, por excelência, uma teoria do tempo, das características, das pluralidades, das hierarquias e dos significados do tempo sobre os fenômenos sociais. Porprincípio, o historiador não é melhor analista do que seus colegas de outras disciplinas; apenas está mais vocacionado do que eles a explicar como e por que os fenômenos sociais estão sempre em mutação, e o que isso implica.

A Teoria da História, entendida como uma teoria social do tempo, não é uma única teoria propriamente dita, mas um campo heterogêneo e interdisciplinar que reúne várias teorias menores (“menores” não no sentido de cada fenômeno ter sua própria teoria, mas no de níveis propositadamente limitados de abstração e generalização). E essas teorias não precisam ser, necessariamente, conjuntos fechados: basta que sejam ideias que proponham problemas de investigação e formas de superá-los, reflitam sobre questões importantes e contribuam para que o ofício do historiador seja sempre consciente, crítico e responsável. É por isso que neste livro valorizamos a obra e o pensamento de muitos autores que, a despeito de serem frequentemente considerados pouco teóricos, ofereceram enormes contribuições à Teoria da História. Também valorizamos outros que chegaram a ser duramente criticados por suas ideias gerais, mas que seguem nos ensinando algo.

Qual é, então, o critério de classificação dessas teorias menores e o que nos permite agrupá-las no campo da Teoria da História? Alguém poderia afirmar que é a capacidade de essas teorias tratarem do passado. Sem dúvida, o passado é o domínio por excelência do historiador. Porém, o presente também nos importa! Se a Teoria da História é uma reunião de teorias sociais acerca do tempo, as sínteses resultantes dos contatos entre tais teorias implicam uma forma de pensar, isto é, pensar historicamente, que nada mais é do que colocar em primeiro plano o tempo como fundamento da realidade humana. Nesses termos, alguém negará que não só o passado, mas também o presente devem ser pensados historicamente?

Agrupamento de formulações acerca do tempo e de suas implicações para a compreensão da realidade social e matriz de formas de se pensar historicamente, a Teoria da História se constitui em uma permanente e dinâmica autorreflexão do historiador em torno de seu objeto, mas também de seu ofício. Afinal, não existe estudo da história que não seja, de alguma forma, condicionado pela posição relativa do historiador em relação a seu objeto – o que implica uma relação com o tempo. O passado que aconteceu está sempre, em parte, submetido ao presente que o observa. E é assim que devemos considerar a Teoria da História como fonte de teorização acerca de objetos históricos, mas igualmente de autocrítica do historiador a respeito de si mesmo e de seu ofício, uma vez que também eles são, sempre e em alguma medida, objetos históricos. Isso faz com que até mesmo a negação da dimensão teórica do conhecimento histórico ou a crítica a seu estatuto científico possam ser vistas como formas de teorizar a História. Como todas as demais ciências humanas e à diferença das ciências da natureza, a História é uma ciência autorreflexiva.

Com particularidades. Em meados do século xx, os filósofos Carl Hempel (1905-1997) e William Dray (1921-2009) debateram acerca de quão teórico era ou deveria ser o trabalho de um historiador. Em seguida, Ernest Nagel (1901-1985) incluiu a História entre as chamadas ciências ideográficas, isto é, fundamentalmente descritivas e ocupadas com singularidades. Diferenciou-a das ciências nomotéticas, quese dedicam ao estabelecimento de leis gerais e de processos repetíveis. Não que as ciências naturais estejam completamente alijadas de aspectos ideográficos, ou que as ciências humanas não sejam algo nomotéticas: tal distinção indicaria apenas uma tendência, não uma realidade perfeita.

Dentre as ciências humanas, porém, a História sempre pareceu ser uma das menos teóricas. O antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) afirmou que a História, por não possuir um objeto específico que a diferenciasse das demais humanidades, nem sequer possuiria uma teoria própria. E o historiador Paul Veyne (1930-2022) ponderou que, se a História queria dar conta de tudo relativo às sociedades, isso implicaria sua própria inexistência como disciplina. Outros autores chegariam até a considerar a História como nada mais que um gênero de Literatura.

Compreendemos as posições envolvidas nesses debates e nelas identificamos certos argumentos perfeitamente plausíveis, alguns dos quais abordaremos ao longo deste livro. Mas, como orientação geral, preferimos aquelas posições que entendem que a História, justamente por estar de posse segura da variável temporal em uma zona de fronteira com outras ciên­cias humanas, apresenta plenas capacidades de oscilar positivamente entre feições ideográficas e nomotéticas, reafirmando assim sua originalidade. Ou, ainda, as posições que veem nas muitas implicações da pluralidade de tempos da História a chave para sua compreensão como acontecimento e como narrativa, portanto, como saber sobre algo e saber sobre si mesma.

Ao compartilhar com as demais ciências humanas seu caráter autorreflexivo, mas apresentando-lhes o tempo como poder constituinte e transformador da realidade humana, a História foi instaurando seu estatuto teórico. Um estatuto imperfeito, transitório, contestado e eclético, mas fundamentado – no tempo.

TEORIZAR A REALIDADE E MODELAR A TEORIA

Imaginemos uma situação hipotética: um belo dia, em um longínquo futuro, pousa na Terra uma espaçonave tripulada por alienígenas que se deparam com um planeta destruído e sem vida. Por toda parte, erguem-se montanhas de lixo e incontáveis objetos retangulares que, no passado, eram chamados de “telefones celulares”. Inteligentes, curiosos e manejando um programa de tradução de idiomas intergaláticos, esses alienígenas conseguem informações sobre tais objetos: formas e tamanhos, materiais de fabricação, peças, controles, programas e aplicativos. Também se deparam com informações sobre sua utilização pelos desaparecidos humanos: como gravadores, câmeras fotográficas e de vídeo, processadores de texto, gerenciadores de contas bancárias, de agendas profissionais e de compromissos familiares; para comunicação digital; como ferramentas de informação, trabalho, comércio e entretenimento. Acessam dados sobre marcas, modelos, preços, datas de fabricação, índices de vendas e de consumo legal e ilegal (em um lugar chamado Brasil, roubavam-se muitos deles) e, finalmente, arquivos de imagens, sons e escritos.

Diante de tanta informação, mas vindos de um mundo tão diferente do nosso, o que esses alienígenas conseguiriam aprender sobre nossa história? Muito pouco. Exaustivas descrições dos telefones celulares não seriam capazes, sozinhas, de explicar o que tinham sido nossas formas de individualismo, de enraizamento e desenraizamento, de hierarquização social, de representação imagética; nem a aceleração de nossa vida cotidiana, o consumismo, nossos gostos musicais, a exploração do trabalho etc.

Mas por que a simples descrição dos celulares, por mais exaustiva e detalhada que fosse, não permitiria, nesse hipotético futuro, o entendimento do que tinha sido nosso mundo? Porque a tal descrição teria faltado abstração, bem como generalização e articulação. Em uma palavra, faltaria a ela uma teoria. E se os alienígenas quisessem entender como todos os aspectos levantados se relacionavam com outros ainda mais antigos e anteriores aos próprios celulares – como as revoluções industriais, o imperialismo, o colonialismo, o desenvolvimento do capitalismo, a modernidade e a globalização –, eles precisariam recorrer a uma teoria da História.

A Teoria da História, com suas muitas teorias menores relativas ao tempo, funciona como uma espécie de “ponte” que permite que simples descrições de uma determinada realidade levem a interpretações dela. É só no plano de abstrações, generalizações e articulações que alguém pensaria que realizar uma transferência bancária por Pix tem algo a ver com o surgimento de uma esfera financeira nas cidades italianas do século xiv, ou com a crise do petróleo em 1973. Ou em associar os usos de um aplicativo como o Waze com a criminalidade urbana no século xxi. Por meio de uma teoria da História, nossos visitantes alienígenas poderiam começar a escrever, a partir de um simples telefone celular, a História da nossa humanidade.

Foi mais ou menos desse modo que Max Weber (1864-1920) se perguntou acerca das relações entre o surgimento da crença protestante e o desenvolvimento econômico na Europa dos séculos xvi e xvii. Também foi assim que Caio Prado Júnior (1907-1990) pensou quando viu algo da história colonial do Brasil em uma simples viagem de barco pelo rio São Francisco na década de 1920. Já Mona Ozouf (1931-) observou nas festas populares da época da Revolução Francesa não uma renovada manifestação de um espaço de liberdade tradicional, mas uma forma de manipulação e coerção política típica dos novos tempos. A História oferece incontáveis exemplos de análises teoricamente informadas que seguiriam na mesma direção.

A necessidade de teorização da realidade empiricamente descrita, porém, não significa que a teoria deva se sobrepor à prática. Tal possibilidade significaria uma reedição da falaciosa separação entre essas duas coisas que acabamos de criticar. Como conjunto de princípios abstratos e de atitudes críticas e autocríticas a alimentarem e balizarem o trabalho do historiador, uma teoria deve sempre ser modelada pelas evidências da pesquisa empírica, pelos dados concretos de uma determinada realidade; e uma vez iluminados por uma teoria, tais dados deixarão de ser informações vazias. Como bem assinalou, dentre outros, Edward P. Thompson (1924-1993), o estudo da história impõe um diálogo recíproco e permanente entre teoria e empiria.

Quem dá a primeira palavra nesse diálogo? Não há uma regra. O ponto de partida do estudo da história pode ser uma reflexão teórica que chame a atenção para certas realidades a serem descritas, teorizadas e analisadas, indo do abstrato ao concreto (procedimento chamado de “dedutivo”); pode ser igualmente uma observação da realidade que indique possibilidades de interpretação por meio de uma teorização, indo do concreto ao abstrato (procedimento “indutivo”). O que importa é que teoria e empiria estabeleçam um ciclo permanente de interdependência recíproca, um casamento duradouro e feliz, cujos frutos serão a base permanente do trabalho do historiador.


João Paulo Pimenta é doutor em História. Professor do Departamento de História da USP desde 2004, foi professor visitante em universidades do México, Espanha, Equador, Chile e Uruguai. Especialista em História do Brasil e da América espanhola dos séculos XVIII e XIX, Teoria da História e História do Tempo. É autor de dezenas de trabalhos acadêmicos e de divulgação histórica e de dez livros editados em seis países. Pela Contexto é coautor da obra Dicionário de datas da história do Brasil e autor de Independência do Brasil e Formação da nação brasileira.

Fábio Franzini é doutor em História Social pela USP e professor associado da Unifesp. É membro fundador da Sociedade Brasileira de Teoria e História da Historiografia e da Red Iberoamericana de História de la Historiografía e membro da International Network for Theory of History. É especialista em Teoria da História, História da Historiografia Brasileira, História Intelectual e das Ideias e História do Livro, da Edição e da Leitura.

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