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Ainda pensamos de maneira linear, asséptica | Rubens Marchioni

Ainda pensamos de maneira linear, asséptica | Rubens Marchioni

Na maioria das vezes, a gente tende a pensar algumas coisas de maneira linear, asséptica.

Se eu tivesse me tornado padre, hoje seria arcebispo de Campinas e forte candidato à sucessão do Papa Francisco. Mas será que tudo concorreria para que eu acendesse ao arcebispado, ao cardinalato, talvez?

Ainda pensamos de maneira linear, asséptica | Rubens Marchioni

Se você tivesse continuado no Exército, logo depois do alistamento militar, hoje seria general, com todas aquelas estrelas e honrarias de praxe. Mas será que tudo se encaminharia para que você, fatalmente, atingisse o generalato? Um lugar, quem sabe, no alto-comando das Forças Armadas?

Se você tivesse permanecido naquele emprego – aquele, lembra? – hoje seria um dos diretores da empresa, podendo mesmo se tornar o futuro presidente. Mas será que essa trajetória marcada pelo sucesso na obtenção de novos espaços seria mesmo uma realidade?

Se isso e aquilo fosse mudado na Educação, teríamos professores felizes e produtivos, ensinando para alunos devidamente motivados, alguns superando o mestre. E quanto àqueles alunos que não estão interessados em estudar, produzir intelectualmente, embora lhes interesse um diploma pelas facilidades que essa conquista pode trazer?

Moacyr e Sandra são professores, voluntários, numa casa que acolhe meninas em situação de risco. Pergunte a eles sobre o interesse dessas jovens que, segundo dizem, pretendem ingressar num curso superior. Peça para lhes contar sobre o desempenho demonstrado a cada aula ou na realização de lições de casa, essenciais para o aprendizado.

Esse exemplo não é tudo. Porque podemos pensar também nos jovens de classe média, às vezes média alta, que estudou nos melhores colégios e agora frequentam as universidades mais cobiçadas do país. Eles são o máximo em termos de envolvimento com os recursos que lhe são oferecidos pela família e pela escola? Nem sempre.

Prosseguindo. Com um bom programa de recuperação de crianças que vivem nas ruas, elas estariam nas suas casas, sendo alimentadas e cuidadas em todos os sentidos pelos seus pais e responsáveis. O que dizer daquelas crianças que vivem na Praça da Sé, em São Paulo, e se recusam a voltar pra casa, porque sabem que vão apanhar dos padrastos, bêbados, enquanto a mãe nada pode fazer, tomada pelos efeitos das drogas? E ainda têm os adultos, moradores de rua, que se recusam a aceitar a acolhida de um albergue, por exemplo.

Se tivéssemos um bom programa voltado para as questões sociais, deixaríamos de ter prostitutas criando zonas de meretrício nas grandes cidades e naquelas nem tão grande. Elas sempre querem deixar essa vida

O problema é que, em tudo, entra a natureza humana – aquela, lembra? E aí, a nossa visão linear, asséptica e extremamente feliz, se revela apenas uma utopia, algo que até pode ser alcançado, num futuro que ninguém sabe ao certo quando vai ser.

É claro que, ao mesmo tempo em que a sociedade soluciona um tipo de problema, outros também devem ser eliminados, para que não contaminem os resultados já obtidos. Mas essa é outra questão. Porque, mesmo assim, a natureza humana vai impedir, em algum momento, que essa forma linear e asséptica de enxergar a história e seus desdobramentos aconteça na sua totalidade. Descrença? Não. Apenas o cuidado de trazer os olhos para um aspecto da realidade às vezes negligenciado.

PrimeiЯa versão
■ Na hora de fritar, a mãe corta o rabo e a cabeça do peixe. E só depois o coloca na frigideira. Intrigado, o menino vê a cena e pergunta: “Mãe, por que a senhora corta o rabo e a cabeça do peixe?” A mãe responde: “Sua avó me ensinou que esse é o jeito certo”. O menino pergunta a mesma coisa à avó. “Sua bisavó me ensinou…”. Mas ele continua investigando. Até descobrir o verdadeiro motivo daquela prática: a única frigideira disponível na casa da bisavó era pequena e a saída era cortar o rabo e a cabeça do peixe. Conclusão: se agora temos um frigideira maior, porque continuar com as mesmas práticas?


Rubens Marchioni é palestrante, produtor de conteúdo e escritor. Autor dos livros Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected]