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Utopias Latino Americanas | Lançamento

Utopias Latino Americanas | Lançamento

Tempos e narrativas transpõem e dão significado à operação historiográfica. A escrita sobre um tema emerge organizando as margens, visto que todo texto esconde – querendo revelar – os rastros do que nos despertou a atenção, a labuta por sentido e orientação no tempo, os nossos firmes afetos e desejos pelo urdimento de laços. Enfim, a escrita é a procura por um outro. Até mesmo quando o encontro marcado mais importante é com o outro que vive em nós, não há escapatória: materializamo-lo antes, fora de nós, estabelecendo relações que marcam, sobremaneira, a cultura circundante. Aproximamo-nos e socializamo-nos porque o outro nos encanta e nos assombra, complexa e irreversivelmente.

De uma ânsia profunda em compreender, emerge a escrita e, quando ela afeta um desconhecido, nos sentimos em casa. Esperançosas, as palavras se plasmam no papel convidando leitores decifradores, aqueles que se conectam ao processo de elaboração dos ruídos do mundo, ressonandoos. O mundo, lugar para o qual pretendemos devolver algum equilíbrio e racionalidade, fica mais compreensível – ou menos caótico – quando nos damos conta de que os outros, em outros tempos, tiveram dúvidas, inventaram buscas, imaginaram pessoas e cenários alternativos. O que realizaram os sujeitos de ontem e como o realizaram? Na inflexão do evento histórico, de que forma o sonho (revelado e segredado), a imaginação (concretizada e abandonada), a palavra (dita e morta), o desejo (vivenciado e sublimado), as viagens (feitas e desfeitas), a natureza (conhecida e indomada) e a beleza (vista e escondida) funcionaram como estopins para a subjetivação da experiência? Quando tratamos de utopia, seja qual for o lugar e o cenário, essa me parece a pergunta fundamental. Quando tratamos de utopias latino-americanas, soma-se à pergunta fundamental a constatação – incômoda, porém fértil – de que a própria América, assim indistintamente nomeada por outrem, foi, igualmente, a utopia de outrem. Antes de nascer como traçado cartográfico, o continente nutriu a imaginação aventureira.

Portanto, se considerarmos os tempos e as narrativas que nos envolvem, ambos atravessados pela fantasmagoria do ontem e pelo sequestro ameaçador do futuro, concluiremos que vaguear pelas utopias que perpassam este lugar, a América, é ato histórico urgente e acurado. Exatamente porque vivenciamos tempos distópicos, voltamo-nos ao exame das utopias. A historicidade nos encontra neste cruzamento. Antes de tomarmos a utopia como cenário irrealizável ou como um vir a ser, um horizonte possível, a nos manter caminhando em linha reta e sem bifurcações, trata-se de nela enxergar o ato histórico constituinte. Nesse sentido, não interessa recensear os argumentos que validaram ou criticaram a própria existência da utopia, na vazão dos projetos utópicos. Esse seria um passo atrás. O passo adiante está em reconhecer que a utopia, carregada de historicidade, ampara a realização de subjetividades múltiplas, que, coletivamente, encontram cenários para se inscreverem. Sei que nesse passo adiante estou acompanhada pela organizadora desta obra e pelos autores que com ela contribuíram, como se constata pelo exame do sumário.

Eu poderia pensar diferente sobre a apreensão e a trajetória da utopia, mas a América é incontornável, logo, demarca minha experiência no tempo. Isso significa que, em terra de reinvenções, transplantes e multiplicidades, não me parece possível desprezar os projetos utópicos ou identificá-los, ideologicamente, com o selo da irrealização. Vezes sem conta neste Extremo Ocidente, passado o calor dos acontecimentos e desenrolado os eventos até certo clímax, não é incomum nos depararmos com sentenças que, categoricamente, anunciam: “tal empreitada malogrou porque esteve amparada por utopias; essas, irrealizáveis, condenavam o projeto em sua origem”. A esse tipo de sentença imputo o selo ideológico, a começar pela referência capciosa à existência de uma origem, discursivamente naturalizada. Afinal, com que justeza podiam os revolucionários cubanos prever os dilaceramentos do homem novo ou a Unidade Popular adivinhar as chamas do La Moneda? A cobrança que se direciona aos projetos – caracterizados utópicos porque “o realismo lhes falta” – não seria própria da faina do tempo? Até mesmo o fracasso dos projetos utópicos tem uma história, que não é a da sua irrealização, mas a de suas mudanças de rota. A utopia – a forma como a concebemos e a buscamos – é, em si, paradoxalmente, histórica. Por exemplo: ressentido com os fins inesperados do projeto que norteava sua ação no mundo, Simón Bolívar teria proclamado uma “América ingovernável”, devoradora dos anseios de homens ousados que não fariam mais do que “arar no mar”.2 No entanto, nada foi mais utopicamente realizável do que as independências. É esse um dos mecanismos que nos provoca a revisitar, de tempos em tempos, o projeto bolivariano. A historiografia que o captura e os contextos que o acolhem não têm como registrar uma narrativa substancial, sem que a utopia componha a trama.

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