Fechar
Revisionismo histórico e os riscos de um uso ideologizado

Revisionismo histórico e os riscos de um uso ideologizado

Os debates sobre fake news e negacionismo trouxeram um outro tema ao centro das discussões políticas: o revisionismo histórico. Essa é uma questão que, se bem amparada nos princípios da pesquisa histórica científica, seria fundamental para entendermos melhor o passado e para a construção do saber histórico. Porém, ela está sendo cada vez mais usada de maneira ideologizada. Pode-se até falar em um “revisionismo ideológico”.

Para entender o que é revisionismo histórico e como isso deveria ser utilizado para o bem da construção do conhecimento da História e até para o combate às torrentes de desinformação criadas atualmente, confira este trecho retirado da introdução do livro Novos combates pela História – Desafio, Ensino, escrito pelo pelos historiadores Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky:

Revisionismo histórico e os riscos de um uso ideologizado

Os compromissos do historiador

O historiador enxerga o passado com os olhos do presente. Nem poderia ser diferente. É no presente que ele vive, mora, se alimenta, trabalha, ama. O presente está ao alcance dos seus sentidos, o historiador não precisa imaginá-lo. Como qualquer outro ser humano, o historiador é fruto do seu tempo. Não é uma figura supra-histórica; ele tem historicidade. Daí ele ter que tomar certo cuidado. Se tentar transferir valores do presente para o passado, confundir os dois tempos, cometerá o pecado mortal do anacronismo. Na verdade, a História exige do professor e do pesquisador uma atitude que pode parecer contraditória, mas que é apenas paradoxal. Mais até do que uma simples atitude, a História exige deles um duplo compromisso. De um lado, com o passado, o acontecido, nosso ponto de chegada: o passado não pode ser inventado, suprimido, exagerado, ou distorcido. Por outro lado, (como não vivemos nas nuvens, mas em um presente concreto, que condiciona a forma de percebermos os fenômenos da sociedade) é importante firmarmos um compromisso com o mundo em que vivemos, que é nosso ponto de partida. Nada mais razoável, portanto, do que interrogar o passado a partir de questões que nos afetam atualmente. Temas como meio ambiente, minorias, racismo, identidade nacional e tantos outros não podem ser descartados pelo historiador como se fossem simples modismos. Pelo contrário, faz muito sentido interrogarmos o passado a respeito desses assuntos (e de tantos outros). O que não quer dizer que possamos atribuir a personagens do passado níveis de consciência social ou política que encontramos em atores sociais dos dias de hoje. Isso também seria anacrônico. Mesmo que gostemos da ideia, mesmo que ela atenda a nossos objetivos de hoje, não podemos (por exemplo) transformar revoltosos que simplesmente tentavam ser livres em revolucionários carregando ideias que consideramos corretas, atualmente. Não podemos, por mais que queiramos. Transformar o passado em presente é atribuir a pessoas de determinado período histórico comportamento incompatível com valores de sua realidade social.

 Durante um tempo, na Europa, nazistas decidiram, sem base científica, que havia raças superiores e raças inferiores. Para legitimar esse delírio “inventaram”, a despeito da realidade histórica, uma suposta raça ariana, que teria vivido e liderado muitas sociedades em diferentes épocas. Os alemães seriam descendentes desses heróis do passado… Muda-se o passado para justificar a ideia de que os arianos alemães deveriam mandar no mundo inteiro! E, pior ainda. Com isso eles se davam o direito de eliminar “raças inferiores”. Levando ao limite a ideia da superioridade racial, os nazistas concluíram que qualquer pessoa aceita pelo nazismo como ariano era superior a Einstein, pelo simples fato de o maior cientista do século ser judeu… É evidente que este é um exemplo extremo (mas real) de como um anacronismo presentista pode distorcer a História.

Por outro lado, há o risco de outro tipo de anacronismo, quase oposto ao anterior, pois olha o passado como se o presente não existisse, como se o historiador não tivesse existência concreta. Como se a história, mesmo vista a partir de diferentes perspectivas, permanecesse sempre igual. Um aluno inteligente explicou, um dia, que a história é como se fosse um elefante e nunca perderia sua natureza de elefante; contudo, dependendo do ponto de vista, do olhar, ele mostraria apenas uma tromba, de outro, um rabinho… Esse aluno explicou o que hoje é aceito de modo quase unânime entre os historiadores: o pesquisador não reconstrói o que aconteceu como se fosse um robô neutro, a-histórico, mas a partir de sua ótica, como foi dito acima com relação ao duplo compromisso do historiador. Vejamos um exemplo: historiadores franceses do século XIX, ao falar da Idade Média, poderiam discutir, entre outras coisas, o feudalismo, os combates etc. Poderiam até descrever a sociedade feudal, mostrar a relação existente entre o camponês e o senhor, lembrar-se do papel desempenhado pelos copistas nos mosteiros preservando a cultura clássica. Há excelentes livros escritos por esses historiadores. Contudo, a partir de preocupações existentes nos dias de hoje, tivemos novos temas introduzidos nos Estudos medievais, que nos conduziram a novas abordagens. Talvez um historiador contemporâneo se debruce sobre questões como (por exemplo) a condição da mulher e, de modo particular, o porquê da perseguição perpetrada pela Igreja contra supostas bruxas nessa época. O estudioso poderia verificar que havia um saber que corria paralelo àquele ensinado pelos religiosos, este um conhecimento monopolizado pela Igreja. Os religiosos diziam intermediar a relação entre os homens e Deus, em nome de quem alegavam falar. Analisando esse período, um historiador de hoje (mais ainda, uma historiadora) talvez pudesse notar que aquela mulher do povo, que sabia encontrar, no meio da vegetação, ervas, simples ervinhas, que curavam as pessoas de problemas de saúde comuns, era percebida como uma ameaça por certos setores da instituição religiosa. Daí a dizer que o saber que elas detinham provinha do Demônio, e que elas deveriam ser queimadas vivas para expiar seus pecados e expulsar o Diabo para longe, foi um passo dado pelos religiosos. A compreensão desse mecanismo aliado ao processo que mantinha todas as mulheres em papel secundário, e punia algumas que ousavam saber alguma coisa e por isso exercer algum poder, explica muito da sociedade medieval, seus valores, a segregação social etc. E, o que é interessante, fatos e questões de mil anos atrás se revelam, para um historiador, a partir de perguntas que fazemos motivados por questões atuais, como feminismo e desigualdade social. Também por isso a História é fascinante!

Isto tudo quer dizer que os acontecimentos de mil anos atrás mudaram? Ou, ainda, significa que temos o direito de “inventar” acontecimentos para que eles sejam adequados às nossas teorias? Não! Significa apenas que somos capazes de lançar olhares diferentes sobre os mesmos acontecimentos e que lançar olhares diferentes pode implicar em obter resultados diferentes.

A História pode e precisa ser continuadamente reescrita. E não só porque lançamos novos olhares, mas por termos acesso a documentos que ficaram inéditos por muito tempo, a construções que permaneceram escondidas por séculos, a mecanismos que preconceitos sociais ofuscaram por milênios. Reescrevemos a História quando damos a atores históricos que só apareciam como figurantes o protagonismo merecido. Reescrevemos a História quando dispomos de técnicas de pesquisa mais sofisticadas. Mas reescrevemos a História também quando nos damos conta de que a história está mudando. Não podemos continuar ensinando que o Atlântico é o oceano mais importante, como se as relações comerciais entre o Velho e o Novo mundo ainda explicassem toda a história. Temos que nos dar conta de que 60% da população mundial vivem na Ásia! E não estamos falando apenas de populações miseráveis: 3 das 5 maiores economias do Planeta localizam-se nesse continente (China, Japão e Índia). A História muda sim e precisamos acompanhar as mudanças em nossos cursos. As guerras greco-pérsicas, com a derrota dos asiáticos, acabaram há mais de vinte séculos… Temos que nos atualizar.

Como se vê, historiadores e professores de História têm um papel importante a desempenhar.  


O livro Novos combates pela História, organizado por Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky, é uma trincheira contra o uso da História como instrumento revisionista e falsificador e chama para uma união dos interessados em defendê-la. Para esse combate foram convocados historiadores experientes como Carlos FicoMaria Ligia PradoMarcos Napolitano e Pedro Paulo Funari, assim como jovens talentosos como Bruno LealIcles RodriguesLuanna Jales e Alex Degan. Cada um escreveu sobre assuntos de sua especialidade formando uma obra que servirá de ferramenta neste desafio que se apresenta.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.