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Linguística para fonoaudiologia | Lançamento

Linguística para fonoaudiologia | Lançamento

Fonoaudiologia e linguística
É possível perceber que os interesses e estudos que levaram ao desenvolvimento do que hoje conhecemos por Terapia da Fala, Audiologia e Linguística foram distintos. Enquanto a Linguística tinha o interesse no conhecimento de natureza mais básica, a Audiologia esteve sempre bastante próxima das práticas e tratamentos ligados à saúde. A Terapia da Fala, por sua vez, está também bastante ligada à saúde mas, ao mesmo tempo, tem um certo histórico dentro da promoção da educação inclusiva. A Terapia da Fala e a Audiologia passaram a se enxergar como complementares resultando na representação conjunta de
associações das duas profissões, na criação do termo Fonoaudiologia e, também na luta conjunta para o reconhecimento e o desenvolvimento da área no Brasil e na América Latina.

Linguística para fonoaudiologia | Lançamento

Nesse caminho, hoje é possível ver que a Linguística e a Fonoaudiologia também podem ser enxergadas como complementares. Enquanto uma desenvolve pesquisas no intuito de melhor conhecer a natureza e os mecanismos da comunicação humana, a outra tem o interesse de aplicar esse e outros conhecimentos na atenção e promoção da saúde.

A título de exemplo, a Fonética e a Fonologia fazem parte do conhecimento essencial de um fonoaudiólogo, considerando que a Fonética lida com as características físicas dos sons da linguagem e a Fonologia lida com a função desses sons em uma língua. Por lidar com a física dos sons da linguagem, o funcionamento normal da Fonética articulatória deve ser conhecido para identificar eventuais desvios que podem ser causados por dificuldades de ordem motora, objeto da motricidade. Esses desvios podem resultar em questões de fluência ou mesmo de voz. O conhecimento da Fonologia também é importante para identificar se algumas dificuldades de produção fonética estão acompanhadas de desvios na percepção fonética, que pode ser resultado de pequenas perdas auditivas. Ademais, a Afasiologia também pode atuar aqui na identificação de lesões cerebrais que afetam o controle motor, o que pode acontecer com maior frequência em idosos, sendo também objeto da Gerontologia.

Outro tema essencial para os profissionais da Fonoaudiologia é o desenvolvimento da linguagem, estudado pela área da aquisição. A partir desses estudos é possível indicar o ritmo normal de desenvolvimento do controle motor do aparelho fonador, ou em que idades as crianças já conhecem, produzem e compreendem determinadas formas e estruturas linguísticas. Conhecer o desenvolvimento normal é fundamental para detectar quando o desenvolvimento da criança apresenta atraso e para atuar da maneira correta e em momento oportuno. Ademais, em caso de atenção a pacientes estrangeiros, é preciso ter noção de que sua língua é diferente e isso leva a sotaques. Portanto, desvios sistemáticos podem ter origem na diferença entre a língua nativa (L1) e a língua local (L2), não devendo ser confundidos com desvios de fala, o que poderia levar a um diagnóstico incorreto de transtorno fonológico ou de controle motor.

O reconhecimento da importância da interação entre as áreas vem acontecendo ao redor do mundo. Uma evidência é a incorporação de disciplinas de Linguística na grade curricular dos cursos de Fonoaudiologia (ou nos cursos de Audiologia e de Terapia da Fala e da Linguagem) nas universidades. O contrário, embora menos comum, também é verdadeiro. Na Universidade de Rutgers, nos EUA, existe o certificado de Ciências da Fala e da Audição em Linguística (Certificate in Speech and Hearing Science in Linguistics), que prepara os alunos de Linguística para extrapolarem a ciência básica da linguagem e seguirem carreira na sua aplicação para a saúde.

No Brasil, em que não há separação entre a Terapia da Fala e a Audiologia, não poderia ser diferente. Talvez o maior exemplo nacional seja o curso de graduação em Fonoaudiologia da Universidade Estadual de Campinas, que é gerenciado pelo Departamento de Desenvolvimento Humano e Reabilitação da Faculdade de Ciências Médicas, junto com o Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem. As disciplinas específicas de Linguística constituem 12% do total de créditos do curso. Com a parceria, os alunos dos cursos de Linguística e de Fono interagem ao longo de sua formação, além do reingresso facilitado para seus formandos.

Na UFRJ, o departamento de Linguística é responsável por cerca de 10% dos créditos obrigatórios do curso de Fonoaudiologia, além de vários alunos da Fonoaudiologia prosseguirem sua formação acadêmica no mestrado e no doutorado em Linguística, o que revela um bom intercâmbio entre as duas áreas.

Conheça mais sobre a obra clicando (aqui)


Organizadora da obra

Aniela Improta França concluiu o doutorado em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2002, tendo estagiado no Cognitive Neuroscience of Language Lab da Universidade de Maryland, EUA, no Instituto de Neurologia da UFRJ e no Ambulatório de AVC da Universidade Federal Fluminense (UFF). É professora Associada do Departamento de Linguística da UFRJ, Diretora Adjunta de Pós-Graduação da Faculdade de Letras (2020-2022), membro efetivo do Programa Avançado de Neurociência (PAN-UFRJ) e do Espaço Alexandria (EA-UFRJ). Desde 2006 coordena o Laboratório de Acesso Sintático – Acesin (http://www.acesin.letras.ufrj.br/). É pesquisadora do CNPq, Cientista do Nosso Estado da Faperj e membro fundador da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE). Pela Contexto é autora dos livros A linguística no século XXI: convergências e divergências no estudo da linguagem, Psicolinguística, Psicolinguísticas: uma introdução, Chomsky: a reinvenção da linguística e é autora e organizadora Linguística para fonoaudiologia: interdisciplinaridade aplicada.

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