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Por que é importante estudar a Revolução Francesa hoje?

Por que é importante estudar a Revolução Francesa hoje?

Em 1978, no tom polêmico e provocativo que lhe era característico, o historiador François Furet (1927-1997) decretou: “a Revolução Francesa terminou”. Como não poderia deixar de ser, seu veredicto, que foi título de um de seus célebres artigos, estava bem enraizado em seu próprio tempo: no crepúsculo da Guerra Fria, tratava-se de dizer, entre outras coisas, que a dinâmica de nossas sociedades não seria mais pautada pelas revoluções – elas não seriam mais “a locomotiva da história”, para recorrer à fórmula de Marx. Como as classes médias conservadoras descritas na obra de Alexis de Tocqueville, parecíamos estar condenados a viver de pequenos prazeres e pequenas ambições, tendo os horizontes tão estreitos quanto os corredores de nossos apartamentos.

Por que é importante estudar a Revolução Francesa hoje?

No entanto, a obra de Furet – como é o destino de todo autor clássico – nos ensina a pensar contra ela própria. Em outro de seus textos, A esquerda e a revolução em meados do século XIX, quando discorria sobre os debates entre os historiadores a respeito da Revolução, afirmou: “seu desenvolvimento é comparável ao desenvolvimento da própria Revolução: atravessada de contradições e de batalhas espetaculares, como se o caráter teatral do evento tivesse sido legado a seus historiadores”. Com efeito, muitos historiadores, acreditando estarem eles próprios no clímax do progresso do conhecimento humano, pensaram ter o direito de impor uma imagem definitiva da Revolução Francesa; porém, cada época, em busca de responder às suas próprias perguntas, tem jogado suas próprias luzes e sombras no processo revolucionário.

À época de Furet, a escrita da história da Revolução Francesa, para o bem e para o mal, foi ponto de apoio para uma indispensável reflexão sobre uma humanidade que digeria a derrota de suas próprias utopias, ao mesmo tempo em que convivia com a tentativa de imposição de um modelo único de sociedade sob o lema Tina – there is no alternative (não há alternativa), da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013). Não à toa, a ministra conservadora era hostil à Revolução Francesa: consta que em 1989, durante a celebração do bicentenário da queda da Bastilha, ela declarou que os direitos humanos foram uma invenção inglesa e deu ao presidente da França François Mitterrand (1916-1996) uma cópia de Um Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens, texto que pintava a Revolução Francesa dando destaque às suas tonalidades violentas.

Hoje, os historiadores e historiadoras não apenas apresentam pontos de vistas diferentes a respeito das teses de Furet, mas, a partir de questionamentos renovados, apresentam outros olhares sobre a Revolução. O reconhecido historiador Jean-Clément Martin publicou, em 2020, o livro A Revolução não terminou, título que se propõe como reposta (um tanto tardia) ao texto de Furet. Martin justificou a importância de seu livro recorrendo à sinistra decapitação do professor Samuel Paty, ocorrida na França em outubro de 2020. No mundo de hoje, argumenta o historiador, democracia e liberdade não podem ser “palavras vazias”, meros gritos de ordem mobilizados perversamente à época das eleições. Para ele, o estudo da história da Revolução Francesa faz parte de um grande trabalho pedagógico para a reflexão, mais urgente que nunca, sobre a violência política e os direitos humanos.

De fato, a Revolução Francesa é incontornável se quisermos discutir a história da cidadania (“transformar súditos em cidadãos” era um dos motes da Revolução), de nossos códigos civis, nossos museus (entre 1791 e 1794, foi criado o Grande Museu Central das Artes, o Louvre e o Conservatório de Artes e Ofícios), nossas ideias sobre os direitos ou a noção política de direita e de esquerda, tão presente em nossos debates políticos. Hoje, historiadores e historiadoras têm também estudado aspectos antes negligenciados da Revolução Francesa, como o interessantíssimo debate sobre o direito dos animais ou as concepções sobre a natureza que aparecem no processo revolucionário.

Na França, as incertezas quanto à Guerra da Vendeia (cujas paixões são com frequência comparadas ao debate sobre a Lost Cause nos Estados Unidos) ou quanto ao papel dos jacobinos e de Robespierre (que, ao contrário do que se diz, jamais foi ditador da França) no “terror” até hoje provocam acalorados debates, que extrapolam o mundo acadêmico. Martin, por exemplo, acredita que a construção de um “Terror” como programa de Estado liderado pelos jacobinos foi mais fruto da propaganda conservadora do que uma realidade de 1739-1794.

Para nós, que vivemos em um país que com tanta facilidade normaliza a violência da ordem e criminaliza a violência da contestação, o debate sobre a violência revolucionária, um dos aspectos mais fundamentais da Revolução, é mais que apropriado. Afinal, não são poucos que enxergam a Revolução Francesa a partir do binômio terror-guilhotina, como se ela trouxesse a tempestade a uma Europa antes pacífica e harmoniosa; tal leitura esquece, por exemplo, os massacres da monarquia britânica contra os irlandeses, em 1794, ou as atrocidades da monarquia russa contra os poloneses, em 1798, ambas deixando atrás de si um rastro de cadáveres superior à guilhotina.

É preciso ressaltar, ainda, que a França não era meramente um reino, mas um Império. No Oceano Índico, a França detinha a Ilha da França (atual Ilhas Maurício), Ilha Bourbon (atual Reunião) e um entreposto em Madagascar. Outros entrepostos estavam presentes no Senegal, Saint-Louis e Gorée, além da Louisiana. Sem dúvidas, o centro do Império estava na região das Antilhas: Guadalupe, Martinica, Sainte-Lucie, Tobago e São Domingos (Haiti), além de, na América do Sul, a Guiana. E não há como referir-se ao Império francês sem pensar na escravidão: estima-se cerca de 700 mil pessoas escravizadas nos territórios do ultramar. Não por acaso, importantes pensadores como Jean Jaurès e Aimé Césaire viam a questão colonial como o próprio cerne da Revolução Francesa, dado que ela revelaria com clareza suas contradições e limites, não obstante a pretensa universalidade alegada pelos revolucionários.

Em diversos momentos, a atuação dos revolucionários em relação à escravidão foi, no mínimo, ambígua. A Sociedade dos Amigos dos Negros, do girondino Brissot, embora defendesse a supressão do tráfico, enxergava a abolição da escravidão como um processo gradual e que não contaria com protagonismo da população das colônias. Jean Paul-Marat, que se autoproclamava abolicionista, defendera em seu Amigo do Povo a indenização dos senhores brancos, medida que ele não havia defendido para o fim dos privilégios da nobreza. Robespierre, embora se proclamasse um abolicionista convicto, em nome da “estabilidade da França” silenciou vários em debates parlamentares sobre o assunto, como mostrou o historiador Yves Benot. Hoje, historiadores como Jeremy Popkin sustentam que foram as ações das populações das colônias (notadamente o Haiti) que colocaram a escravidão no centro dos debates revolucionários na França, de modo que a abolição da escravidão, que de fato acontece em 1794, não pode ser vista como mera decorrência da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Nesse sentido, poderíamos lembrar ainda dos projetos imperialistas que emergiram nos anos finais da Revolução na pena de Talleyrand – que já via a África como um possível substituto para o Haiti independente – e na baioneta de Napoleão Bonaparte, que comanda a invasão contra o Egito em 1798.

Semelhante ambiguidade podemos encontrar na relação entre a Revolução Francesa e as mulheres. Não há dúvidas que a Revolução Francesa significou, para muitas delas, uma expansão de suas possibilidades: o país contou com mais de sessenta clubes de revolucionárias, viu o protagonismo de mulheres como Claire Lacombe e Pauline Leon, bem como a aprovação de leis que escandalizaram o mundo, como o direito ao divórcio. Porém, os mesmos eventos que pareciam desnevoar o caminho das mulheres depois pareceram cerrar seus horizontes: o fechamento do clube das republicanas por parte da esquerda jacobina representou, para muitas historiadoras, uma situação de verdadeira oposição entre as mulheres e a Revolução, algo que se agravou após a ascensão de Napoleão Bonaparte e seu Código Civil. Entre miragens e horizontes, a Revolução Francesa foi anfíbia em seus legados, diversa em suas possibilidades e plural em seus protagonismos.

Dito isso, o propósito do livro Revolução Francesa, da coleção Temas Fundamentais, projeto irmão da coleção História na Universidade, é duplo: em primeiro lugar, oferecer uma narrativa dos eventos e uma síntese dos principais debates historiográficos envolvendo o tema, visando ser um livro útil para professores e estudantes; em segundo lugar, oferecer uma determinada leitura do processo revolucionário que não busque unificá-lo dentro de uma alcunha específica, mas que apresente essas ambiguidades que, enfim, são parte das ambivalências de nossa própria modernidade.


Daniel Gomes de Carvalho possui doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). É professor adjunto da Universidade de Brasília (UnB), onde ministra disciplinas na área de História Contemporânea. É também professor do Programa de Pós-Graduação em História da mesma universidade (PPGHIS), na linha de Ideias, Historiografia e Teoria. Também participa de projetos de divulgação em História, como o podcast História Pirata e o canal do YouTube Se liga.

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