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O COVID-19 não é ideológico. Ele mata. E a morte não tem ideologia | Rubens Marchioni

AS PESSOAS JÁ não caminham pelas ruas, agora desertas. Seus passos foram calados por um vírus. Invisível, ele é grande o bastante para nos derrubar. Estressado, pode nos tirar de cena em caráter definitivo. O silêncio é ensurdecedor, porque significa uma voz de prisão. Cumpra-se. Vírus locuta, causa finita. Quem tiver ouvidos para ouvir…

Igualmente deserta está a agenda do profissional, do estudante sem escola, do torcedor sem estádio, do fiel sem liturgia. Pudera, não pensamos o mundo para uma vida como essa. Planejo ir a um lugar qualquer, comprar alguma coisa corriqueira, nada além do simplesmente banal. E, num solavanco, me dou conta de que esse lugar tem suas portas bem fechadas. E mesmo que estivessem abertas, eu certamente não encontraria aquele item, esgotado antes da minha chegada.

Fomos interditados, e isso não tem prazo de validade. Ficar em casa é a regra. Por enquanto, um conselho. Daqui a pouco, uma ordem, comportamento controlado por força da polícia. Para que a loja não seja um pequeno aglomerado de funcionários ela foi fechada. Para que eu não sinta a tentação de fazer uma visitinha, idem. Se eu não entender a gravidade do cenário, um mecanismo automático se encarregará de me colocar no meu devido lugar. Melhor não reagir. Pelo bem do coletivo, sacrifica-se o individual. É justo e tem respaldo da Justiça. É o que temos para o momento.

Enquanto isso, o governo estuda saídas “inteligentes” para faturar em cima da crise. Nos Estados Unidos, Donald Trump dá entrevista coletiva todos os dias para falar sobre o coronavírus – ele quer ser reeleito. No Brasil, Jair Bolsonaro, o Tonto de plantão classifica a doença como uma “gripezinha de nada” e repete seu ídolo americano em termos de propósitos para o futuro. Tudo na base do “custe o que custar”, ou “doa a quem doer”. Ele quer permanecer em Brasília. No entanto, usar uma crise catastrófica, responsável pela morte de milhares de pessoas, como trampolim para se perpetuar no poder, isso é diabólico. Para ele, não existem limites. Então me pergunto de que texto bíblico esse homem se abastece. Em oito anos de seminário, aluno de especialistas renomados nas áreas de Teologia e Sagrada Escritura, nunca ouvi ou li qualquer coisa que desse respaldo para esse tipo de comportamento. Depois disso, o que se pode esperar desse que, parece, é um Hitler à brasileira, que teremos de engolir?

Até que brotem de novo a possibilidade e a disposição de tomar as ruas e gritar contra esse irresponsável, a gente bate panela em casa. A recomendação do Ministério da Saúde, muito bem comandado por Luiz Henrique Mandetta, é sensata e contribui com o bem-estar da nação. Merece ser acatada, difundida. É o que estamos fazendo.

Esse é o caminho para a vitória coletiva contra o vírus. Não há outro. Nem comprimido, nem vacina. Se não for assim, perderemos essa guerra. Para quem ainda não se deu conta, não se trata de férias, nem de feriado prolongado. É quarentena. E não existe quarentena com jeitinho brasileiro. Nem adianta ignorá-lo, pensando que o COVID-19 é ideológico. Não é. Ele mata. E a morte não tem ideologia. 

Enquanto isso, autoridades com senso de serviço e missão, o segmento da saúde, especialistas, gente ligada ao mundo das ciências, todos continuam a sua batalha. O desafio é conseguir muito mais leitos. Inventar espaços. Alocar recursos. Investir em pesquisa. Todos olham para o mesmo desafio e buscam respostas que nascem dos seus conhecimentos, habilidades e atitude. Isso inclui observar o que, na China, deu certo, e seguir o mesmo caminho. Deixar de pensar que o seu país é problema seu, e entender que o nosso planeta é problema nosso. O vírus é um mal globalizado, não tem bandeira, nem precisa de passaporte. O que conta, agora, é proteger as pessoas, o entorno. Eis o valor maior a ser preservado. Sobre o resto, a gente conversa depois.

Os investimentos financeiros e humanos serão altos. Afinal de contas, nosso débito há muito está acumulado. O acerto, agora, inclui pesadas taxas de juros e correção monetária. Não repensamos e não reconstruímos a sociedade, a vida, séculos atrás. Agora estamos sendo surpreendidos da maneira mais terrível que se pode imaginar. O custo, portanto, será muito alto, que ninguém se espante. A fatura bate à nossa porta. Melhor atender.

Segundo Mandetta, em abril, o sistema de saúde entrará em colapso. De muito pouco vai servir o plano que tanto pesa no orçamento pessoal e familiar, porque o hospital estará ocupado demais para nos atender. Depois, se tudo der certo, em setembro vamos nos lembrar, de novo, como era a vida. Mas a teremos de volta de maneira integral? Como estará o mundo no final da crise? Como estaremos, cabeça e coração? Para o bem ou para o mal, estou certo de que nada será como antes.

Hoje, contamos com o serviço prestado pela mídia, informando, como que em cima do lance, o número crescente de infectados e de mortes. Depois vamos precisar saber que as primeiras respostas, os primeiros raios de sol acabam de surgir – na adolescência ouvi uma frase que dizia “Nós, jornalistas, anunciaremos o início de um novo mundo.” Claro, estaremos sufocados, ansiosos por alguma claridade, a notícia de que o dilúvio acabou e podemos retomar a vida em terra firme. Essa é a nossa utopia. Porque queremos de volta os espaços e a vida que o vírus insiste em levar embora. O mundo será nosso, se soubermos cuidar desse patrimônio.


RUBENS MARCHIONI é palestrante, publicitário, jornalista e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Autor de Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected]  — https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao