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autista na escola

O autista na escola: guia para o planejamento educacional individualizado (PEI)

A escritora de literatura infantil Ruth Rocha escreveu uma crônica que todo educador deveria ler e que se chama “Quando a escola é de vidro”. A crônica inicia com uma criança contando sobre a escola que frequenta, onde cada estudante precisa ficar dentro de um pote de vidro. De acordo com esse narrador, os potes não condizem com o tamanho das crianças, mas, sim, com a série em que estão. Se o estudante não passasse de ano, teria que usar o pote do ano anterior. Era preciso caber neles, e ninguém se preocupava se as crianças não coubessem. Era assim e pronto. Até que, um dia, chega na escola um menino, e não havia pote de vidro para ele. Resolveram deixá-lo
sem o vidro. E esse menino desenhava melhor, era mais engraçado, dava as melhores respostas. Os outros alunos resolveram, então, que não iriam mais entrar nos potes, o que gerou uma grande resistência dos professores, que insistiam que os alunos tinham que continuar fazendo como antes. A confusão foi tanta que os vidros foram quebrados. O diretor, na impossibilidade de comprar tantos vidros novos, disse que a escola passaria a se chamar Escola Experimental, que eles testariam ficar sem os vidros e que, depois, poderiam experimentar outras coisas. Uma professora até tentou explicar que Escola Experimental não era bem isso, mas já estava decidido: não haveria mais vidros ali.

Essa crônica funciona como uma metáfora da escola que ainda insiste em fazer tudo igual para todos, sem considerar as peculiaridades de cada um. Os alunos com autismo são aqueles que quebram os vidros e obrigam instituições a repensarem suas práticas.

Ao aceitar o desafio de escrever um livro sobre o transtorno do espectro autista (TEA) para educadores, eu me perguntei o que gostaria que os professores da educação básica, para os quais leciono na universidade, soubessem sobre o tema. Revisitei minhas aulas e busquei outras referências. Considerei que existem muitos livros sobre autismo e educação, mas que ainda existe uma lacuna importante sobre o “como fazer”. Ao mesmo tempo, a intenção não foi criar outros vidros ou receitas prontas, mas entender que os professores sentem falta de um norte. Esse norte, no caso dos alunos com deficiência, é o PEI – Plano Educacional Individualizado. É por ele e através dele que é possível construir processos de ensino que respeitem as singularidades (ou peculiaridades) dos alunos.

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Nessa perspectiva, o grande desafio do professor em relação ao PEI é saber dosar entre o desafio e a frustração do estudante, ou seja, é necessário desafiar o aluno para que ele aprenda, mas ele não deve ser desafiado além da conta, a ponto de se sentir frustrado. Ajustes são necessários. No contexto estadunidense, são utilizados dois termos – adaptação e modificação – para se referir às formas de criar acessibilidade curricular no PEI. No contexto brasileiro, o termo ajuste parece mais adequado, pois remete a um processo de customização que visa entender que o aluno é único, sendo, por isso, necessário adequar os processos. Com o termo adaptação, o material é o centro, já em relação ao termo ajuste, o aluno é o centro.

Além disso, ajuste deixa claro que não é possível comprar PEIs ou modelos de PEIs prontos para os alunos. Cada estudante terá seu PEI, realizado para ele, a partir dos ajustes que ele necessita. Para isso, o professor precisa compreender o processo do PEI, incorporar atitudes positivas em relação aos estudantes e desenvolver uma comunidade forte na sala de aula, onde os estudantes possam se apoiar. O PEI não é mais uma burocracia na escola ou mais um documento sem sentido. Por meio dele, o professor organiza e orienta suas ações, traduzindo sua prática em ações concretas no ambiente escolar.

A preocupação com a prática na sala de aula está presente em cada um dos capítulos. No primeiro, discute-se o TEA como uma condição que deve ser entendida, ao mesmo tempo, como uma deficiência e uma diferença. O capítulo destaca ainda a importância de ouvir os autistas e seus familiares sobre as vivências de cada um.

No segundo capítulo, a ênfase é sobre a aprendizagem dos autistas. Algumas das principais teorias são apresentadas elucidando a forma como processam as informações. Essas peculiaridades, presentes em maior ou menor intensidade nos autistas, precisam ser consideradas no ambiente escolar.

leia um trecho o autista na escola

E é exatamente a relação entre o autista e a escola o tema do terceiro capítulo. O professor especialista do Atendimento Educacional Especializado, o profissional de apoio e o professor regente são fundamentais em todo o processo de inclusão e, para isso, precisam trabalhar colaborativamente. O capítulo discute, ainda, algumas abordagens que precisam ser exploradas nas escolas, pois instrumentalizam os professores: o Desenho Universal para Aprendizagem (DUA), o Sistema de Suporte Multicamadas (SSM) e o ensino diferenciado.

O quarto capítulo é dedicado ao PEI, suas origens e a necessidade de considerar o contexto brasileiro para que ele seja construído da melhor forma.

O quinto, o sexto e o sétimo capítulos apresentam as características dos autistas em cada uma das etapas de ensino: a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio, respectivamente. Cada uma das etapas apresenta exigências que precisam ser consideradas para que a acessibilidade curricular e a inclusão ocorram de fato.

O oitavo capítulo discute bullying e capacitismo, convocando os professores a cuidar da sala de aula e das relações que se estabelecem na escola. Que o livro possa ajudar os professores a quebrarem os vidros em que eles mesmos, muitas vezes, se colocam. Boa leitura!


Adriana Borges é professora de Políticas de Educação Especial Inclusiva e do Programa Pós-graduação em Educação na Faculdade de Educação da UFMG. Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestrado em Psicologia pela PUC Minas e doutorado em Educação pela UFMG. É líder do Laboratório de Políticas e Práticas em Educação Especial e Inclusão (LaPPEEI) e membro do comitê gestor do INCT Gestrado.

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