Fechar
Não estava fácil | Rubens Marchioni

Não estava fácil | Rubens Marchioni

Antes de sair para celebrar a tradicional missa dos enfermos, o padre recebeu uma ligação. Era um membro do conselho paroquial. A notícia não era das melhores. Um pedido urgente lhes havia sido negado. Na última hora, aquela instituição se recusara a bancar um projeto comunitário.

Sem dinheiro, a igreja não teria como abastecer com alimentos e roupas o antigo centro social, um espaço exíguo que mal acomodava o número de necessitados, sempre crescente, aglomerados em busca de garantir a sobrevivência biológica. O governo? Ah, o governo…! O que esperar do governo?!

Uma pergunta continuava sem resposta: como abastecer e cadastrar tanta gente desempregada e vivendo sem garantias de dispor do pão nosso de cada dia até mesmo para os pequeninos? Poderiam contar com novo milagre da multiplicação? Ele precisava pensar com calma.

Terminada a celebração, o padre logo deixou a igreja e seguiu para casa paroquial. Uma longa agenda o aguardava, a palavra “Urgente” piscando feito sirene em caso de desespero. Quando ia abrir a porta, foi abordado por dois homens, roupa e aparência de mendigo que vive escondido embaixo de um viaduto na cidade grande. Pediram um prato de comida.

Não estava fácil | Rubens Marchioni

Os dois receberam um lanche das mãos do padre. Em seguida, pediram dinheiro para pagar o ônibus e comprar leite para a filha pequena pelo amor de Deus. O padre entregou alguma coisa do pouco que trazia no bolso. Os pedintes recusaram. Com a mão abaixo da cintura, informaram-lhe que aquele valor era insuficiente. Fixaram ali mesmo uma soma impensável num espaço tão curto de tempo. Era preciso intimidá-lo sem demora. Amedrontar, confundir e dominar.

– Me leva até o quarto, playboy – disse um deles, o mais furioso da dupla.

Entraram e não deixaram pedra sobre pedra, nada em lugar nenhum. Roubaram um relógio, relíquia de família. Roubaram hóstias. Roubaram um cálice de ouro. Roubaram um missal, escrito em latim. De quebra e com muita discrição, deixaram-lhe um singelo presente.

Os dois saíram depressa e entraram num carro de luxo estacionado a trinta metros dali e aceleraram. Mas havia um poste no caminho – “o que é que um poste está fazendo aqui numa hora dessas?!” O resgate chegou depressa.

Pouco depois, a polícia chegou à casa paroquial, levada por uma denúncia anônima que falava em práticas pouco cristãs e nada recomendáveis a um ministro religioso. Vasculhou o quarto em sua desordem. Saíram. O padre foi prestar depoimento.

No meio da agitação, ele não teve tempo de se aconselhar com ninguém. Falou muito rapidamente com Deus, mas também não teve tempo suficiente para interpretar e entender melhor a resposta divina, que ele já sabia das páginas dos livros e da prática pastoral. 

Ainda no caminho para a delegacia tentou pedir ajuda ao bispo, que estava fora, num congresso programado para terminar no dia seguinte, no final da tarde. O vigário não tinha nada a esconder, embora algo estivesse escondido com certo descuido calculado em sua casa.

Seu advogado chegou. Explicou. Não explicou. Então o padre explicou a explicação dada pelo advogado confuso. O advogado corrigiu o padre – “que Deus me perdoe o sacrilégio” – pensou. Fato é que na cabeça do delegado a conta não fechava. Queria saber a origem e como justificava a presença daquele pó em que a falta de grife era compensada pelo valor estimado beirando as nuvens.

O padre voltou para casa, mas teria de se apresentar para novos depoimentos. Dispensou as pessoas aglomeradas; não teria como atendê-las naquele dia.

Algumas ficaram sem lanche e sem dinheiro para comprar o leite para a filha pequena. A vida teria de esperar ao menos até que um patrocinador se dispusesse a dividir um pouco dos seus bens em favor do outro. Isso, antes que um camelo conseguisse passar pelo buraco de uma agulha.

E José Saramago contaria essa história melhor do que eu, mas ele foi embora antes do combinado.


Rubens Marchioni é Youtuber, palestrante, produtor de conteúdo e escritor. Autor de livros como A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected] https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.