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O futuro do presente | Rubens Marchioni

O futuro do presente | Rubens Marchioni

Roberto ocupava um alto posto na hierarquia do Corpo de Bombeiros. Naquele dia, tomava um cafezinho em frente ao batalhão, enquanto lia trechos de uma revista especializada. Sua mão tremia quando pegou o celular e ligou para o advogado. Pediu-lhe que contestasse na Justiça a cobrança indevida de uma taxa de serviços, valor nas alturas. “Essa história vai pegar fogo a qualquer momento, minha sirene pessoal já está pronta!” – disse, repetindo a metáfora costumeira em seu meio.  

Dr. Paulo estava parado em frente a um circo quando recebeu o chamado. Admirava um elefante. A imagem do animal era forte o bastante para devolvê-lo, em poucos minutos, à sua infância, deixada há mais de quarenta anos e 450 quilômetros de distância. Ficara guardada na pequena cidade, onde as jabuticabas eram retiradas do pé e embaladas pelo estômago ávido da seiva fresca daquela fruta divertida e com gostinho de carícia divina.

Bem rápido, o advogado trouxe a cabeça para o momento presente. Entrou no carro inaugurado há poucos dias. Ali, discutiram as escassas possibilidades de se obter ganho de causa.

– Você é advogado, meu caro! Descubra ou invente um jeito, esse é seu trabalho! – disse Roberto.

Desligou. Automaticamente, ajeitou o cabelo salpicado com fios da cor de prata velha e checou as horas, como fizera há dez minutos, apesar da pouquíssima urgência pedida pelo tempo. Foi embora.

Na tarde quente, foi para a academia. “Senhor, o senhor está ocupando duas vagas” – disse uma mulher dando seta para o estacionamento. O suor molhava a camiseta vermelha que cobria seus ombros largos com braços longos e mãos fortes. Entrou e ia começar o aquecimento.
– Agnes, é você?! Não acredito! – disse.
– Sim, sou eu. Roberto?! Não é possível!

Agnes era uma mulher com uma voz de passarinho em dia ensolarado. Relaxava depois de viver o clima tenso à frente de uma cirurgia de alto risco. No passado, abriu um enorme buraco, nada cirúrgico, na vida de Roberto. O acidente geográfico estava soterrado artificialmente, ao menos para encobrir o pavor da solidão. Na verdade, continuava aberto como a boca de um monstro.

– Tem horas em que a força interior ameaça desmoronar – disse Roberto, quase balbuciando.

Agnes foi mais discreta, mas quase se deixou levar pelo clima, ela e seu corpo esquelético. Teria ido mais longe se o coração não tivesse sido freado por um feixe de racionalidade, trançado como varetas de aço. No final do encontro, um diálogo rápido marcou o novo capítulo dessa história.  

– Jantamos logo mais? – Roberto sugeriu.
– Sim, jantamos logo mais. No lugar de sempre, pode ser? – Agnes o relembrou.

O encontro prometia. Faltava apenas descobrir o quê.

Quando se encontraram, a noite estava banhada por uma chuva fraca e insistente. O restaurante mantinha a mesma iluminação preguiçosa, com discretas luzes de Natal e pratos que exalavam o aroma de um dia de festa. Pediram ossobuco alla milanese, uma carne assada lentamente em vinho branco e legumes, servida com um molho picante de alho. Para acompanhar, tomaram vinho antigo. De sobremesa, Roberto escolheu tiramissu, enquanto Agnes preferiu banofe, que saboreou olhando para o celular e atendendo clientes como desde o início. No final, um café com chantilly para os dois.  

O futuro do presente | Rubens Marchioni

– Lembra-se daquela boate? Aquela que ficou apenas na promessa? Que tal dançarmos um pouco? – disse Roberto.
– Fechado. Boate. Afinal, agora a gente pode, não é mesmo? – Agnes assentiu. 

A frente do prédio estava inalterada. Levemente vaidoso, logo na entrada Roberto fez uma nova checagem da aparência geral com a ajuda do enorme espelho afixado na parede abaixo do aparador. Ao lado do rosto estreito, coberto por uma pele negra, os brincos de Agnes se tornaram ainda mais brilhantes. Seus olhos da cor de ardósia, emoldurados por sobrancelhas bem feitas, ficaram ainda mais bonitos.

– Você continua dançando muito bem – disse Roberto, retomando a conversa da noite e a conversa do passado, pensando desenhar a conversa do futuro. Falaram muito, não disseram quase nada, pobres palavras que pouco serviam para aquele momento. Havia mágoa. Havia esperança. Havia um desejo forte de começar tudo de novo ou deixar essa ideia maluca de percorrer o mesmo caminho acidentado.

Sem que dessem conta, aquela noite lhes disse adeus. O novo dia falou um pouco sobre a sua chegada recente. Um raio de sol a mais, um pouco de lua a menos, a metáfora perfeita de um encontro que chegava com prazo de validade vencido. Aquela história estava imprópria para consumo. Despediram-se.   

Bem cedo, Dr. Paulo chamou Roberto, que ainda estava sonolento, café esfriando num canto da cozinha descuidada. O advogado havia pensado numa solução para resolver a cobrança indevida. Precisavam marcar um encontro para acelerar o encaminhamento dentro da rotina jurídica.

Brevemente, Roberto agradeceu Dr. Paulo por acelerar aquela história que, segundo sua ansiedade e imediatismo crônicos, se estendia por longas 48 horas. Prometeu retornar a ligação em que haveria de sugerir dia e horário. Prometeu.

Minutos depois, o interfone do seu apartamento chamou. Agnes pediu urgência ao porteiro. Mas Roberto não teve pressa. Apenas desceu. Do sétimo andar até o térreo e, com passos lentos, percorreu dez quilômetros de escada. Eles foram vencidos com a lentidão necessária para reelaborar pensamentos e emoções de ontem e de hoje. Elevadores nada entendem dessas coisas.

Limitada ao portão, a conversa entre eles foi rápida como um intervalo em partida de futebol. Apenas combinaram que talvez voltassem a se reencontrar. Talvez. Agnes deu passos determinados até seu carro e já estava distante dali.  

Apesar do medo antigo de inundação, Roberto mergulhou num regime emocional severo. Parou de alimentar-se de esperança. Cada vez mais reservado, pediu, quase impôs o afastamento dos amigos por tempo ilimitado. Falou apenas o essencial com os dois filhos. Mas deixou à disposição uma fatia de resiliência, substância indispensável em momentos de crise.

No claustro improvisado, Roberto leu revistas e jornais. Tentou ler Clarice Lispector. Leu manuais de instrução. Mas não leu nada. Também se empenhou para ler os sinais que a vida escrevia nos intervalos entre capítulos e páginas. Mas, por vezes, a vista cansada impediu a correta interpretação desse vocabulário hermético na maioria dos seus termos.   

Relembrou muitas vezes o encontro recente. Relembrou o jantar. Relembrou a noite e a dança que juntos desenharam, traços imperfeitos de uma coreografia enferrujada.

A música parou. O palco ficou vazio, sem luz e sem melodia. Ao longe, no entanto, Roberto ouviu uma nota musical, e ela continha algo de Beethoven. [SOBEM CRÉDITOS].


Rubens Marchioni é Youtuber, palestrante, produtor de conteúdo e escritor. Autor de livros como A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected] https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao

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