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Na fila de espera | José de Souza Martins

Na fila de espera | José de Souza Martins

Na fila de espera | José de Souza Martins
Victor Brecheret, “Sepultamento” (Foto: J. S. Martins, 2006)

Não tem sido consideradas as causas e consequências desta epidemia, o seu antes e o seu depois, na desorganização de uma sociedade subdesenvolvida como esta. A preocupação tem sido com os aspectos médicos da doença, o que é urgente, e com os lucros cessantes da economia, o que não o é.

Epidemia é imprevisível. Economia que subestima as carências da sociedade, não. É inútil pensar no primado do lucro quando o país se desindustrializa e a diversidade produtiva e o emprego encolhem. A exclusão social decorrente, econômica e politicamente produzida, é a condição da difusão da pobreza e, com ela, de doenças que podem ser fatais.

A epidemia não se encaixa no modelo econômico adotado no mundo sob influência do neoliberalismo. Nem no presente nem no futuro. Antes do vírus começar a matar, as carências e imprevidências desse modelo já haviam começado a preparar-lhe o caminho.

O capitalismo que conhecemos terá que passar por ampla, urgente e criativa reforma e transformação para o que provavelmente será uma nova era histórica. A teoria econômica socialmente excludente que o conforma terá que ser substituída por outra, em que, sem o reconhecimento de que a sociedade é a protagonista e destinatária de suas conquistas e resultados, o capitalismo continuará a ser jogatina irresponsável.

Todos sabemos, e a maioria não diz, que no centro de tudo o que vem ocorrendo está a morte. Morte conformada por esse modelo de economia, que se baseia no pressuposto de que uma certa proporção de mortes, em ocorrências como a pandemia, é o preço a pagar pela opção econômica.

O país que mais expressa esse modelo, os Estados Unidos da América, é o mais atingido pela peste. Mortos sendo sepultados aos montes em vala comum. O sistema econômico falsamente lucrativo afunda porque socialmente imprevidente.

Nunca estivemos coletivamente tão perto da morte nem ela tão perto de nós. É inevitável considerar que nós mesmos poderemos ser, ou os que amamos, um daqueles números da estatística sinistra dos contaminados e dos mortos, que um servidor do Ministério da Saúde lerá no boletim desta tarde.

O Brasil e o mundo são hoje uma fila de espera do dia e hora de cada um. Dos sensatos, que se protegem em silêncio no isolamento para proteger a vida dos outros. E dos néscios, confinados no egoísmo em que foram educados, o da cultura individualista do neoliberalismo coisificante.

A epidemia expõe o que é de fato esta realidade social, tanto no silêncio que fala quanto na fala que esconde. O país se divide entre os que mencionam irresponsavelmente a morte e os que não lhe pronunciam o nome, recolhidos ao silêncio litúrgico com que a reconhecem como a força que inverte e revela o sentido do mundo.

A travessia socialmente proposta pela morte abre o mundo do avesso que nos revela que avesso é o mundo de carências criado pela obsessão autoritária do ganho sem limite e do ganhador sem consciência social. É no outro lado que está a chave do segredo do lado de cá.

As causas ocultas e distantes de um ontem que nos aflige hoje são explicáveis. As condições sociais para a disseminação do vírus mortal tem em cada país sua história. Infiltrou-se entre nós trazido pelos abonados de sociabilidade internacional intensa. Mas a saliva mortífera é cuspida na cara de todas as classes. E vem espalhando o vírus na escala inteira das desigualdades sociais.

Consequência do neoliberalismo que, desde 1964, tem sido aqui a opção doutrinária que preside a política econômica do Estado mínimo e da minimização dos custos do trabalho na reprodução ampliada do capital.

O apogeu dessa alucinação antissocial, pretensamente teórica e científica, é justamente este governo e sua política de supressão de direitos sociais, de sua incapacidade para definir uma política de economia que coloque a pátria antes do PIB, voltada também para o mercado interno e a multiplicação da renda e do emprego.

Eles não dizem, mas a lógica do sistema econômico diz, esta foi uma opção fácil e barata de enriquecimento porque a taxa de desemprego no país é muito alta e a oferta de trabalho é insuficiente. Até aqui, essa economia criou uma grande massa de mão-de-obra sobrante, à procura de trabalho e disposta a aceitar a redução de salários e de direitos que a catástrofe propicia.

Por ela, mortes são irrelevantes porque mortes dos descartáveis, no limite dos sem funeral, sem ritos de passagem para o além, o que fere as tradições religiosas do povo brasileiro.

Irresponsável, o Estado bolsonarista decide não só sobre a vida, mas também sobre a morte, reduto poderoso das crenças e dos liames de família. Não há dinheiro que cure os males desse desrespeito materialista e ateu à condição humana.

Fonte: Publicado em Eu& Fim de Semana, jornal Valor Econômico, Ano 20, nº 1.010, São Paulo, Sexta-feira, 17 de abril de 2020, p. 3


José de Souza Martins é professor titular aposentado de Sociologia e professor emérito da FFLCH-USP. Mestre, doutor e livre-docente em Sociologia pela USP, foi eleito fellow de Trinity Hall e professor da cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge. Professor visitante nas Universidades da Flórida e de Lisboa, membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, professor Honoris Causa da UFV, doutor Honoris Causa da UFPB e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Ganhou três prêmios Jabuti de Ciências Humanas com as obras Subúrbio (1993), A chegada do estranho (1994) e A aparição do demônio na fábrica (2009), além dos prêmios Érico Vannucci Mendes do CNPq, pelo conjunto de sua obra (1993), e Florestan Fernandes da Sociedade Brasileira de Sociologia (2007).