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Mostrar ao linguista o que ele faz

Mostrar ao linguista o que ele faz

Este livro surgiu como um projeto coletivo de três linguistas que se encontraram para propor um material de fácil acesso a todos os que iniciam os estudos em linguística – alunos de Letras e Linguística, em especial. A ideia, em seu começo, foi reunir termos e definições fundamentais para que o aluno pudesse operar no campo dos estudos linguísticos. Daí vem seu título – Conceitos básicos de linguística, homônimo ao da disciplina ministrada nos cursos de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Desde a sua concepção original até a sua execução final – cujo produto apresentamos ao leitor brasileiro –, o projeto alterou-se significativamente. E essa alteração, inicialmente, deveu-se a um motivo: a compreensão do que significa a expressão “conceitos básicos” quando aplicada à linguística.

Trata-se de “básico” em que sentido? Certamente, se poderia pensar que os conceitos aqui abordados são essenciais, fundamentais, logo, “basilares” para o amplo campo da linguística. Sim, sem dúvida esse é um ponto de vista possível. Mas há outro: os conceitos apresentados são também epistemologicamente básicos, ou seja, são essenciais ao estudo crítico de princípios, hipóteses e resultados de grandes sistemas teóricos que constituem esse campo. Um estudo dessa natureza é, acreditamos, essencial à formação do jovem linguista; diríamos mesmo que é essencial à problematização acerca do fazer do linguista.

Ora, o interesse pelo fazer do linguista é já antigo na área. Ferdinand de Saussure, em uma famosa carta datada de 4 de janeiro de 1894, enviada a Antoine Meillet, ao confessar seu desagrado relativamente a quase tudo o que se fazia nesse tempo em matéria de linguística, declara:

Estou muito desgostoso com tudo isso e com a dificuldade que há, em geral, em escrever sequer dez linhas tendo o senso comum em matéria de fatos de linguagem. Preocupado, há muito tempo, sobretudo com a classificação lógica desses fatos, com a classificação dos pontos de vista a partir dos quais nós os tratamos, vejo, cada vez mais, a imensidade do trabalho que seria necessário para mostrar ao linguista o que ele faz – reduzindo cada operação à sua categoria prevista – e, ao mesmo tempo, a grande insignificância de tudo o que se pode fazer finalmente em linguística. (Saussure, 1964: 95 [grifos nossos])

A carta a Meillet não deixa dúvidas: Saussure está preocupado em proporcionar ao linguista a tomada de consciência de sua própria atividade, de seu fazer. No contexto do fim do século xix e início do xx, a angústia de Saussure parece ser, então, a de delimitar o que faz de um linguista um linguista. É em decorrência dessa preocupação que ele estabelece um objeto – a língua – para a Linguística. Mas, antes de qualquer coisa, o que a carta evidencia é o desejo de Saussure em dizer o que faz um linguista (Flores, 2013: 71).

Também nós queremos dizer algo sobre esse fazer aos nossos linguistas em formação, o que nos aproxima de Saussure em sua aspiração mais genuína. E o jeito que encontramos de assim proceder, de fazer ecoar as palavras do fundador da linguística na contemporaneidade, foi elaborar este Conceitos básicos de linguística: sistemas conceituais, uma obra que reúne termos e definições de grandes teorias linguísticas que marcaram o século xx e o estabelecimento da Linguística como a ciência que conhecemos.

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Autores:
Elisa Battisti é licenciada em Letras pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutora em Linguística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Tem pós-doutorado em Fonologia pela Vrije Universiteit Amsterdam e Meertens Instituut, Holanda. É professora associada do Departamento de Linguística, Filologia e Teoria Literária do Instituto de Letras da UFRGS. Nessa instituição, ministra disciplinas de linguística na graduação e atua na linha de Fonologia & Morfologia e na linha de Sociolinguística do programa de pós-graduação em Letras. Desenvolve pesquisa principalmente sobre fonologia do português brasileiro e variação linguística como prática social. É pesquisadora do CNPq. Coautora dos livros Fonologia, Fonologias, História do Português Brasileiro Vol. III e Conceitos básicos de linguística.

Gabriel de Ávila Othero é professor do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Também é editor da Revista Virtual de Estudos da Linguagem (ReVEL) (juntamente com Cassiano Haag e Cândida Leite), coordenador da Coleção de Linguística da editora Vozes (juntamente com Sergio Menuzzi) e editor da editora da Abralin (juntamente com Valdir Flores). É um dos idealizadores do Observatório Sintático do Português Brasileiro. Pela Contexto, publicou os livros Teoria X-barra: descrição do português e aplicação computacional (2006) e, em coautoria com Eduardo Kenedy, Chomsky: a reinvenção da linguística (2019), Para conhecer sintaxe (2018) e Sintaxe, sintaxes: uma introdução (2015) e Conceitos básicos de linguística (2021).

Valdir do Nascimento Flores é professor titular de Língua Portuguesa e Linguística da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).  Realizou estudos de pós-doutorado na Université de Paris XII e na Université de Paris X. Foi professor visitante no Institut des textes et manuscrits modernes (ITEM – CNRS/ENS) na França, onde ministrou cursos sobre a recepção das ideias de Saussure e Benveniste no Brasil. É editor da editora da Abralin (juntamente com Gabriel de Ávila Othero). Os temas de suas pesquisas circunscrevem-se a dois campos: aspectos epistemológicos da linguística geral (Ferdinand de Saussure; Roman Jakobson, Émile Benveniste, entre outros) e linguística da enunciação (Émile Benveniste, Henri Meschonnic, Antoine Culioli, entre outros). É pesquisador do CNPq. Pela Contexto é organizador dos livros Dicionário de Linguística da Enunciação e Saussure, autor dos livros Enunciação e Discurso e Semântica, Semânticas: uma introdução, e coautor de Introdução à Linguística da Enunciação, Enunciação e Gramática e Conceitos básicos de linguística.