Publicar uma introdução à linguística de Noam Chomsky é empresa arriscada, sobretudo quando se considera a vastidão de sua obra. Os números, de fato, impressionam (para uma visão aproximativa, consultar o site chomsky.info). Ainda que seja possível reconhecer alguns grandes momentos do percurso de Chomsky, qualquer síntese de sua contribuição à linguística está exposta às armadilhas típicas dos textos introdutórios: acentuar em excesso um ponto, tratar outro de modo apenas superficial, silenciar muitos temas e ignorar interesses igualmente relevantes. Em suma, produzir uma introdução que seja, ao mesmo tempo, teoricamente rigorosa, eticamente íntegra e livre de preferências pessoais demandaria de quem a escreve, ao menos no caso em tela, virtudes quase sobre-humanas.
Pois bem, apesar desse cenário adverso, este Guia conceitual da linguística de Chomsky busca fazer uma introdução à linguística de Chomsky adotando, para tanto, um formato ainda pouco explorado na linguística brasileira: baseamo-nos no Guia conceitual da linguística de Benveniste (Toldo; Flores, 2025) e, a exemplo deste último, procuramos apresentar ao leitor brasileiro uma terminologia mínima, acompanhada da reflexão teórico-conceitual subjacente à linguística daquele que é um dos maiores expoentes da pesquisa em linguagem dos séculos XX e XXI. As dificuldades com as quais tivemos de lidar não foram poucas: a longevidade da teoria gerativa, as diferentes fases de seu desenvolvimento, a profusão de conceitos e as interfaces disciplinares que ela permitiu, entre outros aspectos.
O fato é que Chomsky é autor de um programa de investigação em linguística que não se deixa domesticar; e é necessário ter consciência disso para aceitar os limites que precisamos admitir quando nos propomos a estabelecer uma leitura do conjunto de seu quadro teórico, com vistas ao leitor brasileiro. Ora, como “guiar” o leitor sem mutilar demasiadamente a reflexão que buscamos elucidar? Essa preocupação, aliada à natureza do material que queríamos trazer a público, norteou todas as nossas decisões.
Assim, em princípio, estabelecemos uma lista de termos bastante ampla (mais de 150 termos), como forma de dimensionar a rede conceitual que dá sustentação ao programa gerativista. Obviamente, não seria viável trazer a público uma obra com tais proporções; tivemos, então, de selecionar, considerando que gostaríamos de manter a estrutura geral de cada capítulo, já presente no Guia de Benveniste, com três seções norteadoras: (1) O que é X?; (2) Guia para compreensão de X; (3) Capítulos relacionados.
Mas como efetuar a seleção dos principais termos e conceitos?

Ora, decidimos manter no Guia aqueles termos e noções cujo estatuto teórico-metodológico abarcasse outros termos e definições. Dito de outro modo, receberam capítulos específicos todos os termos que funcionam como primitivos teóricos, isto é, que articulam outros termos e noções. Assim, por exemplo, “faculdade da linguagem” carrega consigo “língua-I”, “língua-E”, “competência”, “desempenho”, “mentalismo”, “modularidade”, “inatismo”, “Gramática Universal”, “Dispositivo de Aquisição da Linguagem”, “órgão da linguagem”, entre outros. Alguns desses termos, inclusive, recebem tratamento em outros capítulos ou são abordados em capítulo específico, por serem também nucleares.
Dessa maneira, quisemos deixar claro ao leitor que existe uma rede conceitual que sustenta o programa gerativista, e isso é condição sine qua non para compreendê-lo. Como forma de auxiliar o entendimento dessa arquitetura teórica, anexamos um índice remissivo ao livro, que localiza termos e noções que não necessariamente receberam capítulo específico no interior do Guia.
Estamos convencidos de que nosso objetivo primeiro foi alcançado: produzimos um material introdutório, de fácil consulta, que sistematiza um roteiro que “guia” o leitor no entendimento da linguística de Chomsky, incluindo referência à fortuna crítica do campo. Isso somente se tornou possível porque nos valemos da contribuição de um conjunto de colegas especialistas que, juntos, constroem um material que, cremos, não é corriqueiro no cenário da linguística brasileira. A todos os que atenderam com tanta atenção ao nosso convite, o nosso muito obrigado!
Por fim, gostaríamos de arriscar um paralelo que justifica o ponto de vista sobre a linguística que os organizadores deste Guia têm buscado imprimir no trabalho teórico e institucional que vêm fazendo: Noam Chomsky está para a linguística em posição muito semelhante à de Ferdinand de Saussure. Apesar das diferenças epistemológicas que os separam, um ponto os une: ambos são fundadores de um saber incontornável sobre a linguagem humana; não à toa falamos em linguística pré- e pós-saussuriana, assim como falamos em linguística pré- e pós-chomskiana.
O reconhecimento da transversalidade de seus sistemas de pensamento também une os organizadores deste Guia conceitual. Exemplo disso é que, há algum tempo, trouxemos a público, pela Contexto, o livro Saussure e a escola de Genebra, no qual trabalhamos para apresentar ao linguista brasileiro uma perspectiva de entendimento da linguística saussuriana por meio da noção de “escola”; agora, trazemos este Guia conceitual da linguística de Chomsky. Como o leitor pode ver, nossa prática testemunha a convicção de que o diálogo é o melhor caminho quando se quer seguir em frente sem deixar de olhar para trás.
Caro leitor, faça bom proveito deste trabalho de síntese; esperamos que ele
abra portas.
Valdir do Nascimento Flores
Gabriel de Ávila Othero

Gabriel de Ávila Othero é professor associado de Linguística, nos níveis de graduação e pós-graduação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua nas áreas de sintaxe (e sua interface com semântica, morfologia, estrutura informacional e prosódia), gramática do português brasileiro e história da linguística. Site https://sites.google.com/view/gabrielothero. É autor do livro Teoria X-barra, coautor de Conceitos básicos de linguística: sistemas conceituais, Conceitos básicos de linguística: noções gerais e Para conhecer sintaxe, além de coorganizador de Sintaxe, sintaxes: uma introdução, Chomsky: a reinvenção da linguística e Saussure e a Escola de Genebra, A Linguística hoje: Múltiplos domínios e A Linguística hoje: Historicidade e Generalidade.
Valdir do Nascimento Flores é professor titular de língua portuguesa, nos níveis de graduação e pós-graduação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nos últimos anos, suas pesquisas têm buscado desenvolver uma perspectiva antropológica de abordagem da enunciação. É pesquisador do CNPq. Pela Contexto participou dos livros Dicionário de linguística da enunciação, Enunciação e discurso, Semântica, semânticas: uma introdução, Introdução à linguística da enunciação, Enunciação e gramática, Conceitos básicos de linguística: sistemas conceituais, Conceitos básicos de linguística: noções gerais, A linguística geral de Ferdinand de Saussure, Saussure, Saussure e a Escola de Genebra, A Linguística hoje: Múltiplos domínios e A Linguística hoje: Historicidade e Generalidade, Guia conceitual da Linguística de Benveniste e Conceitos básicos de linguística: níveis de análise. Crédito da foto: Tanam A. Hennicka

