O relógio marcava meia-noite de um quente domingo de verão, na madrugada de 12 para 13 de agosto de 1961. Enquanto os berlinenses dormiam, dezenas de caminhões, carregando policiais, soldados e trabalhadores da República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha comunista, chegavam apressadamente a vários pontos da cidade para iniciar a chamada “Operação Rosa”.
Em poucas horas, as brigadas de construção do Exército da RDA já haviam esticado imensos rolos de arame farpado pelas ruas, formando um denso emaranhado de aço, reforçado com sacos de areia e obstáculos para impedir a passagem de veículos. À medida que essa barreira física improvisada ganhava vida, forças de segurança se encarregavam de desocupar edifícios próximos à fronteira, para que não pudessem ser usados como trampolins, e interrompiam o fluxo de ônibus e trens entre as duas partes da cidade. Berlinenses batizariam esse dia como o “domingo do arame farpado” (Stacheldrahtsonntag).
Apesar de todas as medidas de segurança, as fugas continuaram. Apenas nas primeiras 48 horas após o início do bloqueio, 69 pessoas conseguiram escapar em direção a Berlim Ocidental. Em 21 de agosto, o bloqueio registraria sua primeira vítima: Ida Siekmann, de 59 anos, que havia pulado da janela do terceiro andar de um prédio. Ida caiu direto na calçada, fora do alcance das camas elásticas montadas por bombeiros para amortecer os saltos de fugitivos. Mesmo diante de tantos riscos, cercas mostravam-se insuficientes para conter a sangria migratória.
O governo da RDA determinou, então, a construção de blocos maciços de concreto em pontos estratégicos da cidade, começando por seu cartão-postal, o Portão de Brandemburgo. Foram necessários anos até que esta impressionante obra de engenharia fosse concluída: dois grandes muros paralelos, com uma via interna para ser utilizada pelas forças de segurança em deslocamentos rápidos. Até mesmo o subterrâneo de Berlim seria transformado em espaço impenetrável, com esgotos bloqueados e militarizados. A barreira se estendia por dezenas de quilômetros, equipada com centenas de torres de vigilância e um robusto sistema de monitoramento por câmeras e sensores. Tentar atravessá-la equivalia, quase sempre, a assinar uma sentença de morte.
Essa ousada iniciativa da Alemanha comunista, que separou à força, da noite para o dia, as áreas ocidental e oriental de uma cidade europeia milenar, persistiria por impressionantes 28 anos, afastando famílias, amigos, vizinhos e colegas de trabalho. Segundo a terminologia oficial do regime comunista alemão, tratava-se de uma “barreira antifascista” – uma medida contra as supostas agressões do imperialismo norte-americano e de seus aliados europeus. Alegava-se que qualquer cidadão da Alemanha Oriental podia cruzar a fronteira se quisesse, bastando obter um visto. Na prática, ninguém conseguia um.
Era uma via de mão dupla em que apenas um dos sentidos estava completamente bloqueado. Berlinenses ocidentais e estrangeiros até tinham permissão para atravessar para o outro lado, mas também mediante visto e após experimentar tortuosa burocracia. De quebra, quem seguisse todos os procedimentos burocráticos estaria reconhecendo a legitimidade da Alemanha Oriental como Estado soberano – algo que dezenas de países, à época, se recusavam a fazer.
O Ocidente capitalista exploraria a barreira que os comunistas começaram a erguer na antiga capital alemã em 13 de agosto de 1961 como uma das maiores peças de propaganda antissoviética da história do século XX. A linha argumentativa era clara: o comunismo precisava aprisionar as pessoas para que elas permanecessem dentro de uma sociedade comunista. Era uma imensa prisão a céu aberto, bradavam. E atribuíram à autointitulada “barreira antifascista” uma denominação muito mais poderosa, que marcaria o imaginário coletivo por décadas.
Chamaram-na simplesmente de muro de Berlim.
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É difícil imaginar símbolo mais expressivo do confronto geopolítico em escala global entre Estados Unidos e União Soviética após o fim da Segunda Guerra Mundial do que o muro de Berlim.
Ali estava, materializada em imensas paredes maciças, torres e postos de segurança, não apenas a representação da divisão física de Berlim, mas também a metáfora da cisão da própria Alemanha, da Europa e, em última instância, do mundo. Tanto que, quando o muro caiu, em 9 de novembro de 1989, muitos entenderam que a própria bipolaridade que marcara o sistema internacional por 4 décadas também havia chegado ao fim – embora a União Soviética só tivesse deixado de existir como entidade geopolítica 2 anos mais tarde, em dezembro de 1991.
O muro de Berlim não foi o único símbolo do persistente e profundo conflito que emergiu entre Estados Unidos e União Soviética na segunda metade do século XX. Antes e depois dele, surgiram outros emblemas tão ou até mais poderosos.
A bomba atômica e o consequente equilíbrio do terror entre Washington e Moscou, cristalizado na sinistra expressão “destruição mútua assegurada”, também se destacaram como ícones marcantes dessa disputa. O mesmo vale para as alianças militares que as duas superpotências construíram ao longo de décadas de intensa rivalidade geopolítica, em especial a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e o Pacto de Varsóvia. Isso sem falar nas inúmeras guerras por procuração travadas entre Estados Unidos e União Soviética: da Coreia ao Afeganistão, do Vietnã a El Salvador – conflitos internacionais de extrema brutalidade e violência disfarçados de falsas guerras civis.

Mas será que é possível compreender a divisão do sistema internacional pós-Segunda Guerra apenas como um imenso embate geopolítico entre Washington e Moscou? Um dos argumentos centrais deste livro é que, sim, a disputa geopolítica foi um dos elementos fundamentais, mas não o único, daquilo que contemporâneos passariam a chamar de Guerra Fria.
Após a invenção da bomba atômica pelos Estados Unidos, utilizada pela primeira vez contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, uma guerra entre superpotências nucleares quase certamente significaria a extinção da civilização humana. Daí a razão de se falar em uma Guerra Fria entre Washington e Moscou: uma forma de conflito global que admitia todos os tipos de disputas para enfraquecer e, no limite, derrotar o inimigo – exceto o confronto direto.
Mas havia outro elemento-chave que caracterizaria essa chamada Guerra Fria, para além de uma disputa por poder e influência global entre Estados Unidos e União Soviética. Estava em jogo, no fundo, um confronto entre modelos alternativos de modernidade, que influenciou, direta ou indiretamente, a trajetória de quase todos os povos e sociedades do planeta na segunda metade do século XX, muitas vezes à revelia das ações de Washington e Moscou. Por modelos de modernidade entende-se aqui projetos de organização da sociedade com raízes no Iluminismo europeu do final do século XVIII, profundamente otimistas quanto à capacidade da razão humana de ordenar a vida social, buscando alcançar níveis elevados de bem-estar coletivo. Nisso, o muro de Berlim ainda permanece como a metáfora mais poderosa do embate norte-americano soviético, não apenas por simbolizar a divisão das esferas de influência entre as superpotências nucleares, mas também por representar o antagonismo entre projetos diametralmente distintos de organização social.
Os protagonistas desses modelos alternativos de modernidade eram o capitalismo liberal e o comunismo: duas abordagens ideológicas totalizantes que prometiam resolver racionalmente os grandes dilemas e mazelas da civilização humana, projetando um mundo de segurança material e bem-estar social para aqueles que as seguissem fielmente.
De um lado, defendia-se a liberdade dos agentes para empreender e trabalhar, com respeito rigoroso à propriedade privada e garantia de condições para a existência de um mercado livre de bens e serviços, com pouca interferência estatal. Do outro, sustentava-se a indispensabilidade da coletivização dos meios de produção, assegurando condições materiais mínimas a todos os membros da sociedade, e substituindo as transações livres nos mercados pela planificação estatal da produção e das trocas econômicas.
O confronto entre esses dois modelos de modernidade também refletia uma disputa de regimes políticos. Enquanto as regiões centrais do capitalismo global – como Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão – eram, em sua maioria, democracias liberais, sustentando o princípio de que a democracia oferecia as melhores condições para o florescimento do espírito humano, os países comunistas se autodenominavam democracias populares: uma forma supostamente mais genuína de democracia, na qual os trabalhadores detinham os meios de produção e podiam se fazer representar sem estarem subordinados a poderes econômicos.
Para além do discurso ideológico, ambos os modelos eram marcados por inúmeras contradições: se democracias liberais desrespeitavam direitos de grupos marginalizados em seus próprios territórios e contribuíam para desestabilizar diversos regimes democráticos ao redor do globo, democracias populares se tornaram sinônimo de regimes autoritários altamente repressivos, com poder restrito à cúpula dos partidos comunistas. No plano da ideologia, porém, capitalismo liberal e comunismo representavam, sim, alternativas profundamente antagônicas de organização política e econômica. Sem levar em conta esse choque entre modernidades alternativas, tornam-se incompreensíveis o senso de missão, a energia e a forma totalizante como a Guerra Fria foi sentida e experimentada por centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo.
Encarar o período da Guerra Fria não apenas como um conflito geopolítico entre Estados Unidos e União Soviética, mas também como um embate ideológico levanta uma questão fundamental: como enquadrar as disputas entre o capitalismo e seus críticos mais ferrenhos, especialmente os comunistas, antes de 1945?
Ideologias de esquerda de cunho radical alcançaram incontestável projeção ao longo do século XIX, denunciando a exploração da classe trabalhadora assalariada e as mazelas sociais decorrentes da propriedade privada dos meios de produção. Essa projeção, que de certo modo acompanhou a expansão global do próprio sistema capitalista, atingiu outro patamar com o advento da primeira revolução socialista bem sucedida da era moderna: a Revolução Russa de 1917, que daria origem à União Soviética (URSS).
A partir da Revolução Russa, o embate entre comunistas – defensores do modelo soviético de revolução e de modernidade – e capitalistas, representados por membros das elites políticas e econômicas de países centrais e periféricos da economia global, intensificou-se significativamente, transcendendo a própria a União Soviética, embora Moscou tenha passado a ocupar uma posição de evidente centralidade simbólica nessa polarização.
Vê-se, portanto, que os confrontos ideológicos transnacionais entre modelos alternativos de modernidade antecedem e muito ao fim da Segunda Guerra Mundial. Por que, então, grande parte dos historiadores periodiza a Guerra Fria como um fenômeno restrito à segunda metade do século XX, mais especificamente entre meados da década de 1940 e o final dos anos 1980? Não seria mais apropriado datá-la a partir do início do século, no mínimo desde 1917, com a vitória da Revolução Russa?
Embora a ideologia comunista já tivesse adquirido uma dimensão global antes de 1945, tendo fortalecido seu status como projeto de modernidade especialmente após a catástrofe do capitalismo nos anos 1930, as disputas ideológicas entre governos e elites capitalistas, de um lado, e movimentos comunistas e grupos radicais de esquerda, de outro, ainda ocorriam sem o guarda-chuva de uma superpotência capaz de projetar globalmente poder material e simbólico. Isso mudaria de forma drástica a partir de 1945, com a vitória dos Aliados sobre o Eixo na Segunda Guerra Mundial.
A partir do momento em que Washington e Moscou, como as duas superpotências dominantes em 1945, iniciaram uma intensa disputa pelos despojos dos impérios nazifascistas, a natureza das lutas entre comunistas e capitalistas ao redor do mundo sofreria uma importante transformação. Mesmo conflitos sociais de caráter doméstico, nos rincões mais distantes do planeta, que não tinham os comunistas como protagonistas, acabariam sendo ressignificados à luz do embate geopolítico entre Estados Unidos e União Soviética, enquadrando-se como manifestações locais desse confronto ideológico.
É por isso que o imediato pós-Segunda Guerra constitui o contexto-chave para compreender a emergência da Guerra Fria. A transformação da União Soviética em superpotência militar fortaleceria e mundializaria o choque entre os projetos da democracia liberal capitalista e da democracia popular comunista, tornando a segunda metade do século XX um contexto de bipolaridade geopolítica e ideológica em escala global – a era da Guerra Fria por excelência.
Isso não significa, porém, que as décadas de 1940 a 1980 possam ser simplesmente resumidas à Guerra Fria. No mesmo período, conviveram e interagiram com ela processos históricos de diferentes temporalidades, com desenvolvimentos específicos e dinâmicas próprias. Exemplos nesse sentido abundam: da luta pela independência afro-asiática à brutal intensificação da degradação ambiental planetária; da ascensão de movimentos identitários à construção do projeto internacional terceiro-mundista; da desindustrialização dos centros do capitalismo global e emergência econômica da Ásia à aceleração dos avanços tecnológicos e científicos, que revolucionariam praticamente todos os campos de atuação e interação humanas.
Reduzir essas transformações à lógica da Guerra Fria equivaleria a varrer para debaixo do tapete uma série de elementos que pouco ou nada têm a ver com o embate geopolítico e ideológico entre Estados Unidos e União Soviética. Isso inclui, por exemplo, padrões de longa duração nas relações dos seres humanos com a natureza, especialmente na história do capitalismo; o impacto das guerras mundiais na crise do imperialismo formal e na mobilização de grupos marginalizados por direitos políticos e sociais; os motores de longo prazo da desigualdade econômica entre e dentro dos países, e seus efeitos sobre identidades internacionais; a história do sentimento nacional e sua interação com a formação de Estados Nacionais; e o papel das transformações nas crises e expansões do capitalismo para mudanças técnico-científicas e padrões da geografia econômica global.
Em contrapartida, tomar cuidado para não reduzir esses processos históricos à Guerra Fria não significa também isolá-los dela. A Guerra Fria foi uma estrutura histórica de caráter totalizante, com potencial para interagir, impactar e acelerar transformações em fatos, conjunturas e até estruturas que a antecediam ou que pareciam independentes dela. Daí a importância de se pensar a Guerra Fria de forma integrada às transformações históricas da segunda metade do século XX.
Como analisar, por exemplo, a luta pela independência de povos africanos e asiáticos sem considerar a influência que Estados Unidos e União Soviética – e, com eles, os modelos de modernidade capitalista e comunista – exerceram tanto no contexto de rompimento das amarras coloniais quanto, posteriormente, na construção de Estados Nacionais dessas antigas colônias?
De que forma seria possível escantear a Guerra Fria ao refletir sobre os avanços tecnológicos do período, se o embate entre Washington e Moscou foi, antes de tudo, uma disputa sobre qual modelo de organização socioeconômica seria mais eficiente ou adequado para o desenvolvimento da humanidade? Isso se aplica desde a vitória sobre doenças, como malária e sarampo, até a batalha pela produção agrícola em países pobres, com o uso de sementes geneticamente modificadas, adubos artificiais e inseticidas. Sem falar, claro, no próprio tema da degradação ambiental, que se acelerou de forma sem precedentes a partir do pós-Segunda Guerra.
Como, enfim, compreender as lutas de grupos historicamente marginalizados – de mulheres a negros, de indígenas a pessoas LGBT+ – sem reconhecer, por um lado, como atores que falavam em nome da Guerra Fria influenciaram essas pautas e, por outro, como essas pautas ultrapassaram e expuseram os limites da divisão entre capitalismo liberal e comunismo, ao repensar e construir identidades no mundo?
No limite, é difícil encontrar um objeto, na segunda metade do século XX, que não tenha sofrido algum tipo de influência, direta ou indireta, da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Trata-se, portanto, menos de questionar se essa influência existiu ou não, e mais de avaliar a intensidade e a forma com que se manifestou.

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Este livro busca oferecer uma introdução à Guerra Fria para um público acadêmico não especializado, fundamentando-se nos debates historiográficos mais recentes sobre o tema. Iremos nos concentrar em dois recortes para explorar a estrutura ideológica e geopolítica que a Guerra Fria representou para a história da segunda metade do século XX: de um lado, examinaremos a cronologia do conflito, discutindo sua origem, mundialização, transformações ao longo do tempo e eventual desfecho no final da década de 1980; de outro, analisaremos a natureza dessa guerra que, embora não tenha se materializado como um confronto militar direto entre Estados Unidos e União Soviética, revelou-se profundamente transformadora e violenta para inúmeros povos e sociedades do planeta.
Nas páginas que se seguem, esses dois aspectos da Guerra Fria – a cronologia e a natureza do conflito – estarão entrelaçados em sete capítulos que buscarão também, sempre que possível, traçar conexões entre o embate norte-americano-soviético e outras transformações históricas de vulto do período.
Os capítulos “Origens” e “Mundialização” apresentam uma visão geral da cronologia da disputa entre Washington e Moscou, destacando sua origem na Europa do pós-Segunda Guerra Mundial, centrada no debate sobre como lidar com a Alemanha, e a forma como essa disputa se mundializou – inicialmente na Ásia, tendo a Guerra da Coreia como epicentro, e depois na África e na América Latina, acompanhada da proliferação de movimentos de independência e libertação nacional. Buscaremos mostrar o quanto a mundialização da Guerra Fria, por meio da incorporação de sociedades e povos do Terceiro Mundo nos campos de batalha entre projetos antagônicos de modernidade, foi fundamental para a longevidade do conflito entre Estados Unidos e União Soviética.
Após a apresentação de uma visão geral da cronologia da Guerra Fria, os dois capítulos seguintes se dedicam a recortes temáticos. No capítulo “Natureza”, refletimos sobre a natureza do conflito entre Estados Unidos e União Soviética, ressaltando seu duplo caráter: geopolítico e ideológico. No plano geopolítico, destacamos o predomínio de disputas indiretas entre as superpotências, frequentemente travadas por meio de guerras por procuração, totais ou parciais. Ainda assim, houve momentos em que os dois países digladiaram-se diretamente, como na Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, que por pouco não desencadeou um conflito aberto. No plano ideológico, tratamos da característica multifacetada desse embate, envolvendo modelos antagônicos de organização social, econômica e política, ambos reivindicando universalidade, assumindo um tom determinista, e legitimando-se por intermédio de uma perspectiva quase messiânica sobre o sentido da história.
No capítulo “Modernidades”, verificamos como Washington e Moscou buscaram promover seus ideais de modernização junto a povos e sociedades do Terceiro Mundo, projetando-se como o ápice de uma evolução histórica a partir da qual as sociedades pós-coloniais deveriam se espelhar para traçar seus próprios caminhos de desenvolvimento. Discutimos como a ofensiva de cooperação econômica norte-americana e soviética nas décadas de 1950 e 1960 geraria resultados decepcionantes para os países receptores, frequentemente culminando em rompimentos de alianças e em trajetórias políticas e socioeconômicas opostas àquelas que, em teoria, Estados Unidos e União Soviética buscavam fortalecer.
Após esse mergulho temático na história da Guerra Fria, os três capítulos finais do livro retomam uma perspectiva cronológica, analisando as décadas derradeiras do embate norte-americano-soviético. No capítulo “Normalização”, discutimos o auge e o declínio da distensão entre Washington e Moscou ao longo da década de 1970. Utilizamos o tema da détente para refletir não apenas sobre o risco de simplificar o embate entre Estados Unidos e União Soviética como uma narrativa linear de bipolaridade, mas também para discutir como países e sociedades, supostamente integrantes dos blocos capitalista e comunista, passaram a desenvolver processos de distensão complementares e, até certo ponto, autônomos em relação àquele conduzido pela Casa Branca e pelo Kremlin.
No capítulo “Término”, analisamos as causas e a cronologia do fim da Guerra Fria, focando o processo de crise e dissolução do bloco soviético. Enfatizamos o quanto a derrocada do conflito ideológico e geopolítico entre Estados Unidos e União Soviética constituiu um processo profundamente inesperado, ocorrido de forma brusca, unilateral e, sobretudo, relativamente pacífica.
Ao mesmo tempo, mostramos como a paz construída pelos Estados Unidos nas décadas pós-Guerra Fria, ao se assentar em um triunfalismo quase cego diante da suposta vitória do modelo democrático-liberal capitalista sobre a forma comunista de organização social, acabou produzindo consequências devastadoras não apenas para o bem-estar de populações ao redor do mundo, mas, sobretudo, para a maneira como a Rússia – principal herdeira da antiga União Soviética – passaria a enxergar o término do conflito: como uma derrota humilhante e uma paz profundamente contrária aos interesses nacionais de Moscou.
Por fim, no capítulo “Legados”, o livro se encerra, a título de conclusão, com a análise das relações entre Estados Unidos e Rússia nas décadas pós-Guerra Fria, destacando como a natureza da paz que surgiu a partir da dissolução da União Soviética e a maneira pela qual Washington passou a atuar no sistema internacional, especialmente a partir da chamada Guerra ao Terror, acabaram por acirrar as tensões entre as antigas superpotências, culminando na invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022.
Abordamos ainda, à luz das discussões sobre a natureza do conflito norte-americano-soviético desenvolvidas nos capítulos temáticos da obra, a questão de até que ponto a rivalidade geopolítica contemporânea entre China e Estados Unidos pode ser considerada uma nova forma de
Guerra Fria. Nosso argumento é o de que, embora o sistema internacional atual apresente uma configuração bipolar, falta a essa disputa entre Washington e Pequim o componente ideológico de confrontação entre alternativas de modernidade que conferiu à Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética um caráter tão profundo e impactante para povos e sociedades ao redor do mundo.
Felipe Loureiro é vice-diretor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e professor associado na área de História das Relações Internacionais na mesma instituição. Doutor em História Econômica pela USP, é líder do Laboratório de Estudos sobre a Guerra Fria (CNPq, CP/RI); pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU); e membro da diretoria da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI).

