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Esperança: anotações para um texto | Rubens Marchioni

Esperança: anotações para um texto | Rubens Marchioni

Elaborei o que seria um conjunto de anotações independentes, para escrever um artigo. Mas optei por manter apenas a lista, como quem revela os bastidores de um trabalho. É possível perceber que, no final das contas, não estamos tão mal assim.

  • A mídia diária retrata o quadro sombrio, local e mundial, desenhado pela Covid-19, e nos conscientiza sobre a sua gravidade ainda não revelada totalmente. Ligo a TV e vejo dois telejornais. Um e outro são enriquecidos por bancadas formadas por jornalistas, alguns especializados em economia, além de cientistas sociais, filósofos, historiadores, médicos etc. Tema central: Covid-19. Hoje, o vírus divide espaço com outro, também perigoso, com epicentro no Planalto. Brasília é, agora, um laboratório com autonomia para produzir e alimentar uma crise por semana. Está difícil dormir em paz, não se deixar contaminar.
  • A economia e as finanças, pessoa física e jurídica, são seriamente afetadas. E não se tem a dimensão do tamanho e da repercussão do rombo. O dinheiro não resolve – ainda que se disponha de convênios médicos top de linha. Empregos são perdidos, e a ideia de empregabilidade é incapaz de solucionar minimamente a crise. A Educação está mortalmente comprometida. Não apenas por conta da pandemia, mas também por conta do Ministério da Educação, capitaneado por um senhor sem condições mínimas para o exercício do cargo. A sociedade olha para este cenário sem entender em que barco a gente se encontra e o destino que nos espera. A experiência é de medo e incerteza.
  • A ideia de experimentar as coisas boas da vida, ainda que pequenas, foi substituída pelo medo e pelo tédio de uma sequência de dias rotineiros e cinzentos. Isso, apesar de todo o sol que existe lá fora. Abrimos as janelas, sim, mas vemos que tudo o mais está fechado. Lazer? Não nos restou muito mais do que a TV, com algumas pessoas ou grupos generosos oferecendo lives que procuram amenizar o tédio de só olhar para as paredes. [Na internet, recentemente, eu também fiz uma, sobre Escrita Criativa]. Nossa qualidade de vida ficou comprometida, inclusive porque perdemos o contato com as pessoas.
  • A liberdade de ir e vir foi para o espaço. Isso, claro, em função de uma causa nobre. O objetivo é evitar que tudo se converta em um enorme presídio. A propósito: durante os oito anos em que vivi no seminário, cheguei a fazer planos para me tornar monge, e então viveria numa clausura. Agora, olho para a minha casa como se aqui fosse o mosteiro onde passo a maior parte do meu tempo. O abade, que atende pelo nome de Dom Covid, é um clérigo muito rigoroso, não aceita que eu saia. Quem sabe pensando assim as coisas ficam menos difíceis. Cada um usa os recursos de que dispõe. O que conta é não enlouquecer.
  • A morte, nesses dias, está por toda parte. Prova disso é que um simples resfriado nos assusta. É que ele bem pode ser o sinal de alerta de um mal maior rondando as portas da nossa vida. Pudera, é muito grande o número de corpos sepultados sem critérios mínimos de dignidade, depois de permanecerem, solitários e sem liturgia, em containers frigoríficos. As famílias enlutadas engolem a seco um choro e uma dor que já não podem dividir. Eu me blindei contra ela e contra toda informação que, também jornalista, trago para dentro da minha casa. Isso me dá alguma vantagem. Mas estou preocupado. Eu deveria mesmo estar convivendo tão fluentemente com essa tragédia? Seja como for, serve-me de consolo a lembrança da filósofa política alemã Hannah Arendt, advertindo para o fato de que “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”. Acho que é isso o que estou fazendo agora: elaborando a minha narrativa.
  • A tecnologia parece oferecer poucas respostas para a grande questão de como viver nesses dias tumultuados. Delivery, online etc., tudo isso ainda é novo, nem sempre está dentro de nossas casas, supermercados e outros segmentos do varejo. Não vivemos plenamente a era da internet das coisas, com todas as suas vantagens. E nos falta habilidade para lidar com algumas ferramentas disponíveis. Isso vale até mesmo para a classe média. 
  • Como era a vida no passado? Como é a vida hoje? A do passado, isso a gente sabe. A de hoje, mais ou menos. A do futuro, só incerteza. E é lá que estaremos alguns de nós, nossos filhos e netos. Por outro lado, o crescimento da tragédia não para – o pior está por vir, alertam as autoridades. Precisa de mais e pior? O futuro é incerto para todos e em todos os sentidos. Neste cenário, as pessoas se apegam mais a Deus ou se rebelam contra ele? Quais seriam os planos do Criador para nós? Fato é que nossos recursos emocionais e nossos valores estão sendo testados até os seus limites, porque agora eles contam mais do que qualquer coisa. Já não se trata de querer ou não. A necessidade é um imperativo nada democrático. O clima é de guerra, contra um inimigo invisível. Parte dos soldados, em seus uniformes brancos, tomba na trincheira, enquanto outros perdem visivelmente suas últimas energias. Onde vamos chegar?
  • Temos conhecimento das mortes causadas pela Covid em todo o mundo. Mas nos falta habilidades para lidar com todas as informações ao mesmo tempo. Com frequência, esqueço algum detalhe, seja na hora de sair de casa ou quando volto. Não fui treinado para um mundo caótico como este. O meu era bem mais simples, natural. A gente saía, e pronto. Voltava, e pronto. Até dispomos de alguma habilidade para lidar emocionalmente com o cenário em todo o seu aspecto trágico. E desenvolvemos certa atitude de abstração e distanciamento do problema, como forma natural de autoproteção. Para o bem e para o mal, é a blindagem possível. Os números são assustadores. Mas, ainda são assustadores? Uma morte, apenas, já é demais. Milhares de mortes ainda nos tocam de verdade? Ou tudo, agora, não passa de mais uma estatística? Blindamos a nossa sensibilidade?
  • Enquanto do lado de fora o vírus mata, o poder, em Brasília, se mata. E ameaça fazer com que tudo isso nos atinja mortalmente. Juntas, escolas, igrejas e outras instituições fecharam as suas portas como forma de evitar o alastramento do vírus e da morte iminente. Mas existem grupos que desejam ver tudo escancarado, sem se importarem se viveremos dentro de um enorme cemitério a céu aberto, corpos humanos sendo devorados por urubus. Estou exagerando? Creio que não.
  • Como se não bastasse tudo isso, um presidente da República desinformado e incapaz de reconhecer critérios científicos, de sentir compaixão, afirma que a Covid é apenas uma gripezinha, ideológica, inventada pela esquerda para derrubá-lo. Uma gripezinha que, até agora, só no Brasil já consumiu milhares de vidas. Para ele, a saída está na pergunta evasiva “E daí?”, ou para a chacota sem graça e fora de hora “Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Mas a nossa vocação para a Vida é sempre mais resistente do que todos os vírus. Mais do que todo o poder enlouquecido dos palácios. Mais do que toda a morte. Mais do que toda desesperança. E ela vai encontrar respostas. Porque a Vida continua sendo mais forte. Violentamente mais forte e soberana. Amém.


Rubens Marchioni é palestrante, produtor de conteúdo, blogueiro e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Pela Contexto é autor de Escrita criativa: da ideia ao texto. https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao / e-mail: [email protected]