Fechar
a prática da escrita autora Ana Rüsche

Entender a escrita como uma prática (que começa antes das primeiras palavras no papel)

O livro A prática da escrita: como transformar ideias em texto nasceu de mais de quinze anos em sala de aula dedicados à escrita criativa. Em quase todo o semestre, surgiam variações da seguinte pergunta: “por que escrever é tão difícil, mesmo que eu já sei o que quero dizer?”. Uma de minhas respostas é “talvez nos falte prática”. Assim, juntei muitas anotações e materiais didáticos avulsos sobre esse exercício para diminuirmos a resistência, termos mais técnicas e implementarmos processos ao colocar mãos no teclado, na caneta, no papel.

É um retrato de um curso de escrita, das primeiras ideias até o fechamento de um texto completo. Passa por todo o processo, detalhando cada uma de suas fases, do rascunho à edição. O livro completa-se com 35 exercícios curtos.

Ao escrever o livro, procurei endereçar questões para quem já escreve há anos e procura aprimorar seu processo e também para quem está diante de um projeto mais ambicioso pela primeira vez. Quis ainda responder a duas dificuldades comuns: travar no início e/ou não conseguir terminar. Uma das propostas do livro é incentivar a escrita com tranquilidade, para que cada pessoa possa trabalhar em seu tempo, sem pressa, considerando que não existe uma rotina ideal e receitas genéricas prontas.

A obra funciona bem para quem precisa de um companheiro durante a produção de uma tese, um artigo, uma dissertação, assim como de outros gêneros da não ficção como autobiografia, divulgação científica, reportagem, newsletters. Também pode dar ideias a quem gostaria de estabelecer uma rotina para escrever ficção. Ou mesmo para quem somente possui curiosidade.

livro a prática da escrita comprar

O cerne dos capítulos é compreender a escrita como uma atividade prática. Se não aprendemos a tricotar só observando ou a dirigir um carro espiando do banco de passageiro, com a escrita se passa o mesmo. Exponho duas falácias arraigadas: a de que bastaria ler para escrever bem e a de que bastaria idealizar o texto para tudo dar certo. Apesar da leitura ser fundamental, assim como a organização das ideias, escrever é um ato complexo e precisa de seu componente prático para ocorrer.

Dessa forma, passo pela questão de estabelecer uma rotina até mostrar práticas diferentes de rascunho para colocar em pé uma versão inicial do texto. Depois, partimos para as etapas de edição e fechamento, incluindo os desafios emocionais dessas fases, relevantes, mas menos discutidas. Há um capítulo dedicado à linguagem, com orientações sobre ordem da frase, repetições, vírgulas e escolha de vocabulário e outros tópicos que geram dúvidas.

Uma das ferramentas que convido leitores e leitoras a implementarem é o “diário de escrita”, que pode ser um caderno ou um bloco de notas eletrônico, no qual registramos nossas ideias, resolvemos os exercícios e acompanhamos o próprio processo de escrita do início ao fim. Outro diferencial do livro foi procurar incluir usos de softwares voltados à escrita e comentar usos de IAs, com orientações sobre o que fazer ou não fazer.

Dentro do universo dos livros voltados à escrita, procurei trazer pessoas inspiradoras para estarem conosco, a partir de entrevistas e citações a cada etapa do processo. Por exemplo, selecionei dados sobre a rotina de escrita de Thomas Mann, formas de tomada de notas por Débora Diniz e Philip Eil, um depoimento sobre a etapa de pesquisa de Ana Maria Gonçalves, o uso de referências de Alice Walker, o papel da rede de apoio na produção de Octavia Butler, a redação de inícios de textos feitos por Eliane Brum e Italo Calvino, assim como lições pontuais sobre o ofício de escrever por Stephen King e William Zinsser, entre outras vozes.

Espero que A prática da escrita seja um companheiro para quem possui uma ideia na cabeça e um teclado na mão. Seja na sala de aula ou na leitura autodidata, que implementar o gesto de escrever no cotidiano consiga transformar, com tranquilidade, suas ideias em texto.


Ana Rüsche ministra cursos de escrita criativa há 15 anos, em ateliês ou em instituições, a exemplo do Centro de Pesquisa e Formação (CPF), do Sesc, e do Curso Livre de Preparação de Escritores (Clipe), da Casa das Rosas, em São Paulo. Possui pós-doutorado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e é professora substituta na Universidade de Brasília (UnB), com formação em Direito e em Letras pela USP. Foi finalista do prêmio Jabuti e possui diversas publicações entre não ficção, ficção e poesia.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.