Competências fundamentais
PENSAR A ESCRITA
Escrever divisa-se com o impossível. Como retratar o que se passa em minha cabeça? É possível transmitir conhecimentos de forma inequívoca? Na vertigem das redes e mudanças promovidas por inteligências artificiais (IAs), consigo estabelecer uma prática humana? Meu texto vai ficar bom? São muitas as dúvidas de quem se decide por essa atividade tão antiga quanto bonita, capaz de passar saberes por gerações, refletir sobre comportamentos, provocar mudanças, falar aos corações das gentes.
Em nove capítulos, procurei apresentar, da ideia inicial ao rascunho, da primeira versão à edição, da pesquisa à publicação, diferentes estratégias para escrevermos com mais tranquilidade. Sem subestimar escritores experientes e sendo didática com iniciantes, retrato o processo de escrever não ficção do início ao final. O material é acompanhado de 35 exercícios, a maioria para serem respondidos em menos de 15 minutos no seu caderno. Separei ainda exemplos inspiradores de diferentes autorias.
Espero que este volume possa ser um bom companheiro em seus projetos e diminua nossas inseguranças sobre a própria capacidade de expressão. Não hesite em folhear para consultar passagens, a ir e a voltar. Pensar a escrita é valorizarmos nossas próprias ideias.
É ler sem pressa, no seu tempo.
COMO UTILIZAR ESTE LIVRO
Escrever é dialogar com quem não conhecemos. Assim, ao idealizar este livro, procurei tecer algumas ideias sobre os desejos de quem está do outro lado da página e espero, ao menos, atender a alguns. Por exemplo, é razoável imaginar que você possa querer expandir seus conhecimentos sobre o ato de escrever. Também imagino que queira ir além, se desafiar a produzir um original longo ou um pouco mais complexo — pode ser um trabalho de conclusão de curso, um artigo acadêmico, uma tese, uma autobiografia, um livro de divulgação científica, uma reportagem, uma série de newsletters. Ou ainda, não possui algo tão específico em mente e pegou este volume somente para arejar a cabeça. Em todas essas hipóteses, espero que a leitura seja útil.
Nas próximas páginas, você irá encontrar um movimento de início, meio e fim. Partiremos das competências essenciais para escrever e falaremos de organização de rotina. Depois, entraremos na escrita propriamente dita, abordando elaboração de rascunhos, produção textual e edição. Pararemos ainda para falar da etapa de pesquisa. Alguns aspectos sobre publicação fecharão nosso percurso. Dessa forma, indicaria que o guia fosse lido na sequência atual. Mas se você for uma dessas pessoas inquietas e quiser pular algumas partes, escolhendo ler direto algum assunto que mais te interesse e depois voltar, conforme seu prazer, tudo bem.
Minha premissa é entender a escrita como uma prática. Dessa maneira, durante todo o livro, serão propostos pequenos exercícios em boxes denominados “Práticas de escrita”. Recomendaria que você efetivamente fizesse as atividades (se gostar de pular capítulos, pode fazer os exercícios na ordem que desejar). Convido a essa prática, pois lançar mão ao papel, à caneta e ao teclado é fundamental — correr riscos e colocar as dúvidas para fora. É treinar e não se importar em cometer erros bobos, pois teremos tempo de reler e de retrabalhar o texto. Escolhi o caminho do fazer, é desse caldo de experimentações que surgem as belas ideias. Assim, não bastaria somente ler os enunciados das “Práticas de escrita”: o ideal é que esses exercícios curtos sejam realizados por extenso. Afinal, só conseguimos escrever se escrevemos.

Também recomendo com veemência uma segunda ação: adotar um diário de escrita.
O que é um diário de escrita? Pode ser um caderno charmoso, uma caderneta barata, um bloco de notas no celular, uma página fixa no Windows Word, um longo chat consigo no WhatsApp, não importa o suporte. Será um lugar no qual você pode sempre anotar o que está escrevendo, o que está pesquisando, aspectos práticos. Rabiscar ideias sobre seus sentimentos, dúvidas, acertos, recomendações. Um registro da própria jornada, um diário de campo, um caderno de processo. A Débora Diniz, acadêmica e professora universitária brasileira, em seu livro Carta de uma orientadora, reeditado várias vezes, diz o seguinte sobre essa ferramenta: “Eu não lerei sua caderneta, por isso não há por que sentir vergonha” (2013: 48). Como a Diniz, também prometo não ler. Será algo secreto, privado, um lugar seguro.
As vantagens de adotar um diário de escrita são inúmeras. A primeira, ter um local para elaboração dos motivos e do planejamento de seus textos. A segunda, reunir as descobertas e informações sobre a etapa de pesquisa. A terceira, registrar seus dias de prática, o que deu certo, o que precisa de ajustes. A quarta, separar a camada emocional do próprio trabalho. É bastante comum, quando escrevemos um original longo, que mudemos conforme o humor dos dias. Em alguns, a digitação é mais calma. Em outros, algo pode interferir no tom. Para que a redação tenha uma cobertura uniforme (veremos isso quando abordarmos processos de edição), um diário de escrita nos ajuda bastante, pois podemos registrar ali, antes de começarmos a escrever, o que passa por nossa cabeça e não misturarmos tanto com o texto final. Por fim, diários de escrita são bonitos de serem lidos depois, apontando como amadurecemos junto com um trabalho. Uma memória de nosso percurso.
Dessa forma, aconselharia que você realizasse todas as práticas em seu diário de escrita. As respostas não precisam ficar bonitas nem elegantes. Basta que os exercícios e as reflexões estejam feitos. Conforme já assegurei, será tudo bem secreto, nunca espiarei nada, prometo.
Em seu diário, aproveite essa sensação de segurança para exercer a honestidade.
LER, PESQUISAR, ESCREVER E EDITAR
Escrever é algo complexo. Uma atividade intelectual e também prática. Lida com aspectos de nossa memória e nossas descobertas recentes. No terreno da não ficção, precisamos dominar algumas competências básicas. Provavelmente você já equilibra, de alguma maneira, essas habilidades no seu cotidiano, pois são atividades profundamente relacionadas com a produção textual, sendo até difícil compreender em que fronteira cada uma delas começa. Para entendermos melhor esses processos, vamos separar isso tudo em quatro principais competências: ler, pesquisar, escrever, editar.
Agora, vamos passar por todas elas para que você possa avaliar a própria trajetória e entender em quais pontos poderia melhorar e quais já executa muito bem.
A leitura
Bem, estamos nos comunicando por meio de um livro, assim, essa competência parece estar em seus conformes. A leitura exige também um certo exercício corporal e mental. Assim, se você acha que está lendo pouco e gostaria de ampliar a atividade, recomendaria começar com obras mais curtas e, de preferência, agradáveis. Um horário habitual para ler ajuda, por exemplo, depois do café da manhã ou antes de dormir.
Vale pensar em quais obras dialogam com seu trabalho e com seus interesses. Ou ainda sair em visita. As livrarias são excelentes e óbvias fontes de leitura, em especial as pequenas, onde há livreiros que dominam o catálogo e podem fazer boas indicações. Da mesma forma, bibliotecas. Se em seu local não há livrarias ou bibliotecas (ou você está em um país no qual não se fala português), a internet é um manancial imenso. Conversar com pessoas, participar de clubes de leitura ou grupos de pesquisa também são formas de entrar em contato com novas obras ou encarar volumes mais desafiadores. No caso de pesquisa acadêmica, descobrir quais são os periódicos e as revistas científicas mais importantes de sua área é ótimo também. Recomendaria não fazer uma lista muito extensa de livros e artigos a serem lidos, pois isso pode trazer um pouco de ansiedade ou sentimentos de frustração, a depender de seu perfil.
Ao lermos como escritores, entretanto, há um pulo do gato: a leitura precisa ser ativa. Observar as maneiras pelas quais o texto é construído. Ao ler, comece a praticar sua percepção não só compreendendo o sentido geral, mas verificando aspectos de redação: verifique as decisões sobre a linguagem da obra (se constrói conceitos específicos, se usa de jargão, se é destinada a público com menor escolaridade etc.); como o estilo e o tom ajudam a formatar a mensagem (mais neutra, opinativa ou informal); procure compreender a sequência de argumentos (quais fatos, exemplos e opiniões), entre outras percepções.
Tome notas, faça uma leitura consciente, procurando reter detalhes e separar informações úteis num futuro próximo. Quanto mais importante for a referência para seu original, melhor deve ser a qualidade de suas anotações. Lembre que anotar já é uma forma embrionária de texto. Seu diário de escrita pode e deve se converter num diário de leitura (há quem separe cada um também, fica a seu critério).
O relevante é não perder as notas. Notas de leitura são um pequeno tesouro.

Pesquisa
A pesquisa é o coração da não ficção. É a busca por dados, fatos e argumentos para sustentar nossas ideias e expandir nosso repertório — a atividade que inclui a leitura de referências; o esclarecimento de dúvidas em fontes específicas, como enciclopédias, dicionários e bancos de artigos científicos; a entrevista e conversa com outras pessoas; a ida a determinados espaços; a procura por materiais audiovisual e didático sobre determinado tema e por aí vai. Cada texto possui um percurso próprio de pesquisa. Essa atividade fundamental nos ajuda a escrever com mais confiança, passar credibilidade e expressar precisão.
Nunca subestime o tempo de pesquisa. Muitas vezes, precisaremos escrever com nossas investigações ainda incompletas, pois é necessário partir de algum lugar. Assim, procure realizar a pesquisa em paralelo ao escrever. É muito comum também terminarmos uma primeira versão de um texto e precisarmos fazer mais buscas, por exemplo, para ajustar detalhes. Não se preocupe, isso é absolutamente normal. A etapa de pesquisa corre de forma concomitante: inicia-se quando o trabalho é ainda rascunho e só termina quando fechado.
Quanto melhor as suas fontes, melhor suas conclusões. Dessa maneira, busque informações em bons bancos de dados (cada área tem o seu; o Google Acadêmico pode ser um bom quebra-galho em muitos casos); procure consultar autorias relevantes, com um trabalho consolidado. Como a pesquisa é uma atividade extensa, teremos o capítulo “A pesquisa, a etapa concomitante” para conversar sobre o assunto.
Escrever e editar
Para fins didáticos, vamos separar as competências de “escrever” e de “editar”. A primeira seria redigir a primeira versão de um texto, quando escrevemos de forma a aumentar a quantidade de palavras, ampliando a massa textual. A segunda seria reler e reescrever passagens, aparando arestas, retrabalhando argumentos, ampliando sentidos e aprofundando a complexidade das ideias.
O motivo de separarmos essas duas atividades é relevante, pois o senso comum compreende a edição como simplesmente “corrigir os erros de português” (algo fundamental, claro), mas se trata de uma ação muito mais complexa. Editar o próprio trabalho está ligado a revisitar os motivos de existência do texto, a ajustar o tom ao público leitor, a conferir o encadeamento de argumentos, enfim, uma etapa essencial para a qualidade do trabalho, quando fazemos a revisão da estrutura geral de uma obra. Em alguns casos, a parte final dessa etapa é realizada com o auxílio de profissionais externos, como revisores, preparadores e revisores técnicos (conforme veremos no capítulo “O processo de edição: quando a mágica acontece”), mas geralmente precisamos editar e fechar sozinhos um original antes de enviá-lo a essas pessoas.
Outro motivo da separação em duas etapas é que, durante nossos anos escolares, quando produzimos redações na disciplina de Língua Portuguesa, somente precisávamos entregar uma primeira versão, a melhor possível. Assim, na cultura geral, se confunde “produzir um texto” com “escrever uma primeira versão”. Vamos entender que, em um nível mais avançado de escrita, a ideia de revisitar e retrabalhar nossos escritos é essencial. Separar o ato de “escrever” (uma primeira versão) de “editar” nos ajuda dar visibilidade a etapas distintas da produção textual — cada uma das etapas ganhará um capítulo mais adiante.
Entre “escrever” e “editar”, é recomendável garantir um período de descanso do texto, ou seja, deixar de trabalhar no texto por algumas horas ou dias, a depender do tamanho do material e de sua complexidade. Isso garante observarmos o escrito com ideias e olhos novos, muitas vezes, com ânimo renovado. Se afastar por tempo demasiado não é recomendável, senão se corre o risco de perder a linha de raciocínio, alguns dias são suficientes para essa pausa.
Ana Rüsche ministra cursos de escrita criativa há 15 anos, em ateliês ou em instituições, a exemplo do Centro de Pesquisa e Formação (CPF), do Sesc, e do Curso Livre de Preparação de Escritores (Clipe), da Casa das Rosas, em São Paulo. Possui pós-doutorado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e é professora substituta na Universidade de Brasília (UnB), com formação em Direito e em Letras pela USP. Foi finalista do prêmio Jabuti e possui diversas publicações entre não ficção, ficção e poesia.

