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10 de fevereiro (1756) | Guerra dos Sete Povos das Missões

10 de fevereiro (1756) | Guerra dos Sete Povos das Missões

Guerra dos Sete Povos das Missões

Guerra dos Sete Povos das Missões é considerada uma das páginas mais dolorosas da história das Missões, pois esteve marcada pelo grande desequilíbrio existente entre as forças dos exércitos espanhol e português, aparelhados com algumas das melhores armas do período, e as hordas de nativos quase indefesos e despreparados para a luta. Dentre os vários combates travados, destaca-se a chacina de Caaibaté, em que, no dia 10 de fevereiro de 1756, tombaram mais de mil índios comandados pelo lendário capitão Nicolau Nenguiru.

A origem dessa guerra, igualmente conhecida como Guerra Guaranítica,  vincula-se ao Tratado de Madri, um dos vários acordos diplomáticos assinados entre Portugal e Espanha, ao longo do período colonial, com o objetivo de resolver as disputas territoriais em que se envolveram as duas metrópoles, nos seus domínios na América do Sul. O principal pivô da contenda entre as Coroas foi a Colônia do Sacramento, fundada em 1680, pelos portugueses junto ao rio da Prata. Desde a sua instalação, os conflitos, em toda a região, incluindo os campos da Banda Oriental e os do Rio Grande do Sul, foram constantes e estimularam a ocupação efetiva das suas terras, acompanhada do desenvolvimento da pecuária.

Assinado em 1750, o Tratado de Madri ou de Permuta, como também foi denominado, pretendeu definir limites territoriais baseados em balizas naturais para os impérios coloniais na América Meridional. Sendo assim, estabeleceu que a bacia do rio da Prata ficaria com a Espanha, enquanto que a do Amazonas seria de domínio português. De acordo com essas determinações, a Colônia do Sacramento passaria ao domínio espanhol definitivamente, ao passo que os Sete Povos das Missões, que eram povoações controladas pelos jesuítas a serviço da Coroa espanhola e situadas na margem oriental do rio Uruguai, seriam cedidos aos portugueses. Outra decisão tomada pelos signatários foi que, no prazo de um ano, os padres jesuítas espanhóis e os índios deveriam sair do território missioneiro, com todos os seus pertences móveis, deixando casas, igrejas e edifícios aos portugueses.

 Apesar de atender aos interesses metropolitanos, o Tratado teve poucas chances de ser aplicado. Ao desconsiderar os interesses da população dos territórios atingidos por suas decisões, provocou rebeldia e ódio, principalmente entre os índios Guarani, que viviam nas Missões. Instigados pelos padres jesuítas que, também, não queriam entregar o território aos lusos, os nativos resistiram, negando-se a se apresentar, quando convocados pela comissão nomeada pelas duas coroas, para a realização dos trabalhos de demarcação dos limites. Recusaram-se, também, a abandonar o território missioneiro, o qual, devido à presença de várias estâncias formadas pelos jesuítas em torno das Missões, se estendia para além dos Sete Povos. Segundo eles, não poderiam abandoná-lo, deslocando-se para o domínio espanhol, porque as terras, aí existentes, já estavam ocupadas e sendo exploradas por outros grupos e nações indígenas.

Em 1753, ante a demora dos índios em deixar os Sete Povos e aos constantes ataques destes às bases onde se assentavam as comissões demarcadoras, os altos comissários de Portugal e Espanha resolveram deslocar tropas, em conjunto, àquela área. Somente em 1756, depois de várias marchas, uniram-se os dois exércitos para atacar os Guarani e, rapidamente, derrotá-los.

A Guerra dos Sete Povos das Missões tem sido apontada, também, como sendo a razão derradeira para a expulsão da Companhia de Jesus dos domínios ibéricos na América. Desde o apoio dos padres à rebelião dos índios missioneiros, a ordem viu aumentar a desconfiança que havia, entre as autoridades metropolitanas quanto aos reais objetivos de sua ação catequizadora. Alguns anos depois, os jesuítas foram expulsos de ambos os impérios: Portugal, em 1759, e Espanha, em 1768.

Outro fator que aparece relacionado ao conflito entre europeus e indígenas consiste na dispersão dos Guarani missioneiros pelas terras sul-rio-grandenses. Ainda quando os exércitos estavam em prontidão, os portugueses buscaram atrair os nativos para seus domínios, evitando que se trasladassem para o lado espanhol. O interesse luso pela população missioneira deve ser entendido a partir da necessidade de povoar o imenso espaço que vinha sendo incorporado ao seu território, bem como dispor de mão de obra para suas estâncias e plantações.

A historiografia tradicional analisa de forma positiva a política de aliciamento desenvolvida pelos portugueses junto aos índios. No desenrolar da Guerra Guaranítica, o comandante general Gomes Freire de Andrada teria conquistado a amizade de centenas de famílias missioneiras, alterando as históricas relações de hostilidade até então existentes entre os dois grupos. Os atos de caridade, as manifestações de carinho e cordialidade foram  as táticas utilizadas para mudar a opinião das populações indígenas. Ao final dos combates, quando o exército português deixou o Povo de Santo Ângelo, um outro exército de cerca de setecentas famílias missioneiras o acompanhou, dando origem a vários povoados, tais como São Nicolau e Cachoeira do Sul.

Estudos recentes têm identificado, entretanto, que o processo de desterritorialização dos indígenas por ocasião da guerra e logo após seu término não foi fácil e nem ocorreu de forma pacífica. Apontam que, além de gerar um contingente de mão de obra, habilitado e disponível para as atividades da agricultura e da pecuária, despojou o indígena de seu ambiente social e cultural, alterando substancialmente suas condições de vida.

Os índios passaram a viver em condições precárias e a atuar como peões de estância, guias de tropeiros e agricultores. Sua experiência com o gado os qualificou como mão de obra disputada pelas estâncias de criação nos períodos em que as atividades pecuárias eram mais intensas. Muitos, entretanto, refugiaram-se nas áreas de mato, sobrevivendo da extração e do comércio da erva-mate, da lavoura de subsistência, do trabalho temporário ou, ainda, das três atividades alternadamente. Fruto das dificuldades enfrentadas, nos povoados ou nas matas, a população, que já se reduzira drasticamente por ocasião da guerra, diminuiu mais ainda.

Outro aspecto que a historiografia atual tem destacado diz respeito à contribuição que os índios missioneiros deram ao desenvolvimento da religiosidade e da cultura artística à sociedade sul-rio-grandense, após a Guerra dos Sete Povos das Missões. O conhecimento que possuíam do ritual das missas e da técnica de produção das imagens e templos foi de grande utilidade para a propagação dos rituais, dos símbolos e do cerimonial da Igreja Católica. Também contribuíram para a realização de atividades lúdicas ou religiosas, fabricando instrumentos musicais, cantando hinos e salmos que haviam aprendido com os padres jesuítas nas aldeias missioneiras.

Bibliografia

  • Langer, P. P. A aldeia Nossa Senhora dos Anjos: a resistência do guarani-missioneiro ao processo de dominação do sistema luso. Porto Alegre: est Edições, 1997.
  • Porto, A. História das Missões Orientais do Uruguai. 2. ed. Porto Alegre: Selbach, 1945, v. iv.
  • Reichel, H. J.; Gutfreind, I. As raízes históricas do Mercosul: a região Platina colonial. São Leopoldo: Unisinos, 1998.
  • Zarth, P. A. História agrária do planalto gaúcho 1850-1920. Ijuí: Unijuí, 1997.

Heloisa Reichel – Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (usp). Professora titular de História da América do Curso de História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).


Fonte: HELOISA, Heloisa Reichel. “Guerra dos Sete Povos das Missões”. In: BITTENCOURT, Circe (org.) Dicionário de datas da História do Brasil. Editora Contexto.