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Um estranho na escola | Rubens Marchioni

Um estranho na escola | Rubens Marchioni

Na pequena cidade com nada além de nove mil habitantes, presença marcante de pequenos agricultores e peões que trabalhavam sob o frio, a chuva e o calor extremo, ganhando hoje para comer alguma coisa amanhã, Julio era aluno do programa de ensino nacional que recebia o nome de Curso Primário.

Frequentava uma escola cujo projeto arquitetônico de dois andares tinha a imponência encontrada somente na residência do prefeito, um rico fazendeiro, e na igreja, construída com tantos requintes para ser a casa de Deus, mas sem consulta ao morador, nascido numa pequena manjedoura.

No entanto, o garoto não pertencia àquele mundo. Era estranho àquela realidade, cenário de um ator que não fora vocacionado para atuar como protagonista. Ele jamais se escalaria para aquele papel. Livremente, jamais pisaria naquele palco. Então deixava a desejar. Frustrava pais e professores. Frustrava-se.

Malvestido e mal alimentado, Julio circulava sem demonstrar qualquer interesse ou aptidão por esportes. Na hora do intervalo, enquanto pequenos atletas, colegas de classe, depois do lanche regado por uma generosa garrafa de suco feito em casa, se esforçavam para conseguir bons resultados no contato com a bola, Julio preferia o recolhimento. Mantinha o corpo sentado perto do campo, sob o olhar atento do inspetor de alunos, e deixava seus pensamentos saírem para dar uma volta, não se sabe ao certo com que destino. O que trazia de suas andanças durante esse tempo? Ninguém sabe. 

Um estranho na escola | Rubens Marchioni

Seu comportamento, no entanto, não despertava nos professores qualquer estranheza. Fosse assim, teriam investigado as razões daquele desejo de isolamento e encaminhado o problema para alguma forma de solução, ainda que precária. Afinal, a escola, nessa fase, é um ambiente pensado também para favorecer a socialização dos alunos, mais do que aprender Matemática e Língua Portuguesa.

Julio nada sabia sobre Pelé e Garrincha, Copa do Mundo e outras pelejas, nacionais ou globais. Mas andara se apresentando a Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas. Leu um de seus poemas e pensou que poderia ao menos começar a carreira como súdito. Começou. Para os padrões em que se encontrava, deu certo: a obra mereceu elogios feitos pelo professor Sérgio, de Língua Portuguesa. Era a glória.

O menino era timidamente ousado. Até andou contando para algumas pessoas o que e como foi a sua grande realização no mundo das letras. Entregou uma cópia a alguém, que simplesmente sumiu com o que ele fizera com tanto empenho. Alguns dias depois, o poema de Julio apareceu no acanhado jornal da cidade vizinha. Havia sinais de pequenas alterações, mas uma, imperdoável, se destacava: o nome do autor, um pseudônimo feminino que escondia a fraude.

Quando soube do roubo, o professor, seu primeiro crítico, escreveu uma carta delicadamente furiosa pedindo explicações para o semanário que publicou o poema. Nenhuma resposta. Depois da aula, pegou o carro, percorreu os 16 quilômetros até a redação do jornal. Foi atendido. Mal atendido. O diretor garantiu não saber qualquer coisa sobre o autor da obra adulterada. Mas o professor não se deu por vencido. Foi até a polícia, onde recebeu um conselho: – Esquece isso, não vale a pena, não vai dar em nada – disse a autoridade de plantão.

Indignado, Sérgio voltou para casa, depois de aprender uma lição que tentaria levar para uma conversa na sala de aula no momento oportuno: O poder não se interessa quando não lhe interessa.

Na reunião de um grupo organizado pela igreja, da qual participava semanalmente, propôs uma reflexão sobre o tema da honestidade. O padre o advertiu, sugerindo que ele tentava misturar religião e política. Seus colegas de grupo ouviram. Disseram algumas coisas, com palavras vazias para não se comprometer, sem verbo e sem substantivo. Alguém, na sala, estava no último ano do curso de Direito, frequentado numa pequena escola a 52 quilômetros dali. Tirava ótimas notas, comentava-se. Mas aquela não seria uma causa pela qual valeria a pena lutar, acreditava, sequer aprofundar visitando os grandes mestres na arte jurídica.

Na semana seguinte, parte da cidade foi conhecer de perto um pacato empreendimento que abria as portas ao público, bem no centro, ao lado da igreja matriz. A inauguração teve discursos e aplausos, com a bênção do representante de Deus – “Uns têm, mas não podem; outros podem, mas não têm. Nós temos e podemos, bendigamos ao Senhor”.

Enquanto isso, melancolicamente a história de Julio, o poeta em início de carreira, terminou naquela pizzaria cantada em verso e prosa.


Rubens Marchioni é Youtuber, palestrante, produtor de conteúdo e escritor. Autor de livros como A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected] https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao

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