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Português sem censura: o que os palavrões revelam sobre nossa língua e sociedade

Um livro sobre palavrões, escrito por dois professores universitários, pode soar como uma coisa suspeita; afinal, por que alguém dedicaria tempo de sua carreira para analisar essas palavras malditas, sujas e feias?

Os palavrões estão ao nosso redor, gostemos ou não, e talvez seja uma boa ideia entendê-los, até porque eles são muito mais interessantes, e até mais úteis, do que pode parecer num primeiro olhar. Para além das conversas corriqueiras, eles povoam as letras de música, os diálogos dos filmes, os canais do YouTube e até os discursos políticos ou religiosos mais exaltados. É inegável: os palavrões estão por aí, esparramados por todas as classes sociais e não apenas na boca de quem é considerado “pouco instruído” ou “mal-educado”. Mas o que eles têm de tão especial? Seria possível eliminá-los de uma língua?

Provavelmente, há palavrões em todas as línguas conhecidas e não seria nada natural haver uma língua sem o equivalente a eles. A razão de sua onipresença reside na enorme quantidade de funções que desempenham: eles podem nos deixar mais resistentes à dor, liberar emoções em catarses explosivas, intensificar sentimentos, criar laços de intimidade ou desempenhar funções gramaticais bem específicas. Mas, se são tão úteis, por que são tão condenados? Na verdade, as duas coisas andam juntas: usar termos condenáveis, que tocam em assuntos considerados tabu, é o que cria os efeitos específicos na interação. O que é tabu muda com o tempo – hoje, falar de religião é um tabu “leve”, enquanto sexo e excreções corporais são tabus pesados no Brasil. Sempre haverá temas proibidos, e é essa dinâmica que explica por que os similares ao palavrão persistem em todas as sociedades.

Português sem censura palavrões na língua portuguesa

Em Português sem censura, olhamos em detalhe para o português brasileiro contemporâneo para analisar o funcionamento linguístico dos palavrões mais comuns dessa língua, sempre sob uma perspectiva científica. Embora sejam geralmente considerados “feios”, eles apresentam um funcionamento gramatical complexo e fascinante. O livro é acessível, mas o tópico não é nada tranquilo, pois mexe com polêmicas e preconceitos revelados pelas ofensas e injúrias que usamos diariamente. Os palavrões e as injúrias de que tratamos na obra revelam, para além de um funcionamento gramatical bastante sofisticado, muitos dos valores e preconceitos da sociedade brasileira atual.

Ao longo de nove capítulos, exploramos como o palavrão revela os valores de uma sociedade e aspectos da gramática que passam longe dos manuais tradicionais. Analisamos construções como “essa bosta de TV desligou”, o uso de “puta” como um intensificador em “um puta bolo gostoso” e também as expressões “pra caralho” e “foda”. Dedicamos um espaço necessário ao estudo das injúrias – palavras que atacam a origem, orientação sexual ou o corpo das pessoas. Diferente do palavrão comum, as injúrias são instrumentos de opressão e passíveis de condenação criminal, exigindo um estudo que não ignore seu impacto social.

A jornada termina discutindo a tradução e o desafio de adaptar o impacto de um palavrão de uma cultura para outra em filmes e jogos, e até o funcionamento dessas expressões em Libras, mostrando que a necessidade de “falar feio” para expressar o que é visceral independe do canal comunicativo. O objetivo final é desmistificar o tema e mostrar o quão fascinante é estudar as línguas humanas. Esse livro, fruto de anos de parceria de pesquisa, faz jus a uma tradição crescente na Linguística, na Filosofia e na Psicologia, tornando acessível a todos o entendimento sobre os palavrões e suas várias funções. Entender os palavrões na nossa fala é, no fim das contas, uma maneira de entendermos melhor a nós mesmos e à sociedade em que vivemos.


Renato Miguel Basso é professor da Universidade Federal de São Carlos. Pesquisa a descrição de fenômenos linguísticos usando as ferramentas da semântica e pragmática formais, com ênfase em semântica do verbo e dos indexicais. Interessa-se também pela linguística histórica e epistemologia da linguística. Pela Contexto é organizador do livro Semântica, Semânticas: uma introdução e coautor dos livros O português da gente, Gramática do português culto falado no Brasil vol. III e IV, A Linguística hoje: historicidade e generalidade e Conceitos básicos de linguística: níveis de análise.

Luisandro Mendes de Souza é professor adjunto no Departamento de Letras e Linguística (DELLIN) da Universidade Federal do Paraná. Licenciado em Letras (Português/Inglês) pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória (atual campus Universidade Estadual do Paraná), é mestre e doutor pela Universidade Federal de Santa Catarina, com doutorado sanduíche na Universidade de Chicago. Suas áreas de interesse são a Semântica e a Pragmática Formal e suas interfaces. Pela Contexto é autor no livro História do português brasileiro  volume VIII e do livro Para conhecer Pragmática.

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