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O tempo, o tempo linguístico e o tempo verbal

O tempo, o tempo linguístico e o tempo verbal

O tempo, o tempo linguístico e o tempo verbal

Há muito o tempo vem sendo estudado e ainda há muito a se investigar acerca do tempo. Independentemente da abordagem e da perspectiva teórica adotada, o tempo continua desafiando a ciência e os estudiosos que o tomam como objeto de investigação. Klein (2009a), referindo- se a algumas das formas pelas quais os filósofos analisaram o tempo, diz que, apesar de diferentes, elas podem não ser mutuamente exclusivas. E acrescenta que, como não há clareza no que diz respeito ao objeto de suas reflexões, não se pode afirmar que os filósofos tenham tido como alvo a mesma entidade ou não. Voltando-se para a pesquisa científica, o autor assinala que, contrariando-se a expectativa de se encontrar definição palpável de tempo, há na física pelo menos “três abordagens para essa quimera” (Klein, 2009a: 9).

Nesta obra, vamos retomar as reflexões de filósofos e físicos sobre o tempo. Mas a nós interessa, particularmente, o tempo sob o viés linguístico e, portanto, será sob essa perspectiva que a abordagem do tempo merecerá mais atenção. Na esteira de Klein (2009a), julgamos que, embora o tempo seja objeto de estudo da Filosofia, da Física e da Linguística, não há como afirmar inconteste que as três vertentes estejam estudando exatamente a mesma entidade. É bem provável que não.

Objeto de nosso interesse, o tempo linguístico, indubitavelmente, instiga os estudiosos que se esmeram em entender e explicar o seu caráter eminentemente fluido. O ir e vir do tempo e no tempo que, por enquanto, somente as máquinas do tempo em filmes de ficção científica tornam viável há muito foi concretizado linguisticamente. Nas próximas páginas, vamos voltar e avançar no tempo com o intuito de entender o próprio tempo e, em especial, o tempo linguístico. Vamos buscar, conforme destaca o título desta obra, desvelar as propriedades e relações entre o tempo, o tempo linguístico e o tempo verbal.

Para tanto, no primeiro capítulo, recorrendo a filósofos, físicos e linguistas, vamos em busca de respostas para a pergunta de Santo Agostinho: O que é o tempo? Daí em diante, nos capítulos seguintes, apenas os estudiosos da linguagem terão voz, porque vamos falar do tempo linguístico e de toda complexidade que o envolve. Sendo assim, vamos iniciar uma trajetória rumo ao âmago do tempo linguístico, ou seja, ao tempo verbal. Falaremos de forma mais ampla sobre o tempo linguístico no segundo capítulo para, no terceiro, abordar a expressão linguística do tempo. Continuando em nosso percurso, no quarto capítulo, vamos tratar do tempo verbal, começando por suas relações com o aspecto e o modo verbais. Depois, vamos falar dos segredos do tempo verbal presente e do seu uso para se referir tanto ao passado quanto ao futuro, e também do tempo verbal passado e de suas camadas, e ainda do tempo verbal futuro e de sua inerente instabilidade.

Vamos, enfim, realizar uma viagem no tempo sobre o tempo, esperando alcançar um entendimento mais aprofundado desse nosso fascinante e desafiador objeto de estudo!


Jussara Abraçado é professora titular de Linguística da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Minas Gerais, doutora em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É pesquisadora do CNPq e membro do Grupo de Investigação “Linguagem, cognição e sociedade”, cadastrado na Fundação para Ciência e Tecnologia (FCT) de Portugal. Desenvolve estudos na área de Linguística, com ênfase na interface teórica entre a Sociolinguística e a Linguística Cognitiva, atuando principalmente nos seguintes temas: tempo e modalidade, construções de voz, ordem de palavras e (inter)subjetividade. Pela Contexto, é autora do livro O tempo, o tempo linguístico e o tempo verbal, organizou o livro Mapeamento sociolinguístico do português brasileiro e coautora do Sociolinguística, Sociolinguísticas: uma introdução.