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O que é e para que serve a Semiótica? | Semiótica e Totalitarismo

O que é e para que serve a Semiótica? | Semiótica e Totalitarismo

Semiótica. Eis uma palavra que ainda desperta em muita gente um olhar de estranheza, quase sempre acompanhado de uma inevitável pergunta:

− O que é Semiótica? Para início de conversa, podemos dizer que Semiótica ou Semiologia (do grego semeîon, “signo”, “sinal”) tem como objetivo explicar a criação e o funcionamento dos vários sistemas de signos, sinais e símbolos utilizados por todo e qualquer grupo de indivíduos para a expressão e a comunicação de ideias, sentimentos, emoções, desejos e necessidades.

Até aí, tudo bem. Acontece que um intrigado leitor poderia indagar:

− Signos, sinais, símbolos, comunicação… tudo isso parece muito bonito… mas, afinal, para que serve a Semiótica? Qual a utilidade dessa “ciência” no mundo atual?

Bem, caro leitor, é oportuno observar, antes de tudo, que a Semiótica é fundamental para nossa sobrevivência física, psíquica e social. Veja, por exemplo, o que aconteceu comigo.

Um dia, numa tarde tranquila e ensolarada, viajava eu por uma estrada no interior do Brasil, quando, após uma curva, fui surpreendido por um aviso que me deixou confuso, sem saber o que fazer:

− Redutor?! Mas que diabo de redutor será esse? perguntei a mim mesmo.

A resposta obtive logo depois, com um violento solavanco do carro, que quase capotou ao passar rápido pelo redutor, isto é, um desses muitos obstáculos com que deparamos nas ruas e estradas e cuja função é justamente obrigar o motorista a reduzir a velocidade.

Ao parar no acostamento da estrada para refazer-me do susto, fui abordado por um homem, talvez morador da região, que, com um sotaque levemente estrangeiro, foi logo perguntando:

− Oi, doutor, tudo bem? ieu posso adjudar? Algum problema? Está machucado? Sentindo alguma dor? O doutor está muito pálido… me desculpe… mas o senhor está com uma cara! Parece que viu assombração! Venha se acalmar um pouco aqui na minha venda, ieu faço queston, pentru ca o senhor está muito estressado. O doutor pode beber uma água fresquinha da mina, toma um café turco, daqueles bem reforçados, descansa um pouco, vai, desestressa que, depois, pode continuar sossegado a sua viagem. Ah! E não precisa se preocupar com o carro: o Xerife toma conta dele. Venha, doutor, poftim, minha venda é pobre, mas é limpa e acolhedora: ela está bem ali esperando o senhor.

Confesso que fiquei com medo de aceitar o convite. Sentiame completamente perdido naquela estrada deserta. Tudo me parecia muito estranho e cheio de mistérios. Como é que esse “redutor” foi aparecer logo ali depois da curva? A gente sabe de tantos casos… não seria um golpe para assaltar-me? E, para
tornar mais assustador esse cenário, eis que, de repente, surge assim do nada um desconhecido que, numa fala arrastada e marcada por um irritante cacoete – ieu, ieu, ieu – ou palavras incompreensíveis – pentru, poftim, oferecia-me coisas meio desconexas que, naquele momento, não faziam muito sentido
para mim: água da mina, café turco, venda, Xerife… Era um sujeito esquisito, descabelado, olhos revirados como de um zumbi… não sei por que me lembrei da figura tenebrosa do Jack Nicholson, em O Iluminado, aquele inesquecível filme de terror de Stanley Kubrick.

O que é e para que serve a Semiótica?
Divulgação

Minha expressão de perplexidade não escapou ao interlocutor, que, piscando e revirando os olhos ininterruptamente, voltou a insistir no convite:

− Mas que cara é essa? Não precisa ter medo, doutor! Ieu garanto: ninguém vai fazer mal para o senhor, a gente não é bicho. Acalme-se… olha bem pra mi. Ieu tenho lá cara de bandido? Olha ali a freguesia na minha venda, todos batendo papo, bebendo, cantando, jogando bilhar, baralho… O doutor acha que se fosse para fazer alguma ruindade, a gente ficaria assim numa boa? Vai por mi, doutor. Ieu sei que o senhor levou um baita susto. Pois cand a gente fica estressado, o melhor remédio é um café turco bem forte. Presta atenção, doutor: não tem nada a ver com cafezinho brasileiro! Ieu estou falando do café turco, de verdade, mesmo! O senhor vai ver. Tomou uma caneca e o doutor ficou novinho em folha. Faça o favor, poftim, vamos lá para nossa vendinha, pode vim sem susto. Ah, desculpe, eu errei, doutor… não é pode vim, o certo é pode vir; vim é a primeira pessoa do pretérito perfeito do verbo vir! Me explicaram mil vezes isso nas aulas de português.

Continue lendo o primeiro capítulo do livro Semiótica e totalitarismo, do Izidoro Blikstein  – clique aqui


Izidoro Blikstein possui graduação e especialização em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (USP), mestrado em Linguística Comparativa pela Université Lumière Lyon 2, doutorado e livre-docência em Letras pela USP, e é professor titular em Linguística e Semiótica pela mesma instituição. É consultor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e professor adjunto da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas SP. Tem experiência na área de Comunicação, atuando com Semiótica e Intertextualidade. Pela Editora Contexto, publicou Falar em público e convencer, Técnicas de comunicação escrita, Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade e Semiótica e totalitarismo.