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O porquinho deixado na farmácia | Rubens Marchioni

O porquinho deixado na farmácia | Rubens Marchioni

Ainda nas primeiras semanas de vida, o porquinho Maroto foi machucado por acidente, quando a empregada da chácara, Dona Eva, famosa por ser apenas e levemente descuidada, fazia a limpeza da cozinha gourmet. Quando a tampa de ágata escorregou de sua mão e caiu sobre as costas de Maroto, ouviu-se um gemido estridente de dor. Aquele grito registrava o momento exato em que o porquinho teve paralisadas as patas traseiras.

Maroto havia se tornado uma mascote e garantia momentos de alegria para Isabela, de nove anos, a filha introvertida da proprietária da chácara – essa era a missão daquele animal, talvez o sentido de ter vindo ao mundo dos humanos, diria alguém. Ele havia sido o presente esperado e entregue pelo avô, o velho Tunico, numa rara visita de Páscoa.

Mas agora, a menina sentia o peso daquela vida com sua fragilidade exposta. Entristecia-se todas as vezes que via o ferimento de Maroto, seu animal de estimação, se arrastando pela casa. E chorava de um choro sem identidade certa por saber que aquela situação havia sido criada por nada menos que a pessoa a quem aprendeu a confiar desde o nascimento.

O porquinho deixado na farmácia | Rubens Marchioni

Sentada na varanda da casa enorme, construída com certo requinte há algumas décadas, Cristiane, uma bem-sucedida corretora da Bolsa de Valores, deixou perdido o seu olhar entre os bambuzais meio amarelados por alguns minutos.

Logo voltou à cena. Pressionada pela compaixão, tentou qualquer saída que consolasse Isabela. Lutou uma luta desproporcional para manter a calma. E prosseguiu.

– A mamãe vai levar o Maroto ao veterinário. Ele vai ser muito bem tratado, prometo – tentou ser convincente.

Isabela apenas fez que sim. E entrou. O tempo corria diante dos seus olhos.

Mas não foi o que a mãe fez. Era por volta das dez horas de uma sexta-feira qualquer de verão. Sexta-feira de chuva, de lama e de enfeites de Natal.

Naquele dia, a farmácia do bairro de classe média, vizinha de uma igreja luterana e dona de um ar-condicionado sem folga, nem silêncio, estava concentrada no atendimento de clientes em busca de remédios e cosméticos para todas as dores e bolsos.

Na calçada em frente, um ipê acomodava sabiás confusos, que já não sabiam ao certo o momento em que deveriam cantar. Aquele jorro de iluminação elétrica apagou neles a capacidade de distinguir a luz do sol daquela que nasce nos geradores de energia, controle feito por mãos e interesses humanos. O som das folhas secas sob os pés era compatível com o que se podia ler nos termômetros.

Mas a rotina do local, referência geográfica segura, foi deixada de fora dos trilhos. É que de repente, numa freada brusca, e depois correndo, Cristiane estacionou seu carro ‘Made in England’, recém-inaugurado, em frente ao estabelecimento sem vaga disponível.

Falando e fazendo coisas desconexas, depois de perder um salto do sapato num buraco, Cristiane desceu carregando uma caixa de transporte de animal. Dentro dela, desconfortável, estava Maroto, porquinho com pelos brancos muito brancos e pretos muito pretos. Ele gritava gritos que inundavam o ambiente.

Ao contrário do que foi prometido para Isabela, Cristiane apenas deixou o porquinho na farmácia, como se faz com cachorros abandonados na estrada pelos seus donos. No pescoço o animal levava um bilhete pedindo para que ele fosse cuidado e com a promessa de que sua proprietária logo voltaria para buscá-lo.

– A senhora ficou louca?! – gritou o farmacêutico, Edson, antes de ler a mensagem.

Ninguém ali entendeu o comportamento daquela mulher. De nenhum ângulo que se olhasse aquele gesto tinha algum sentido lógico. As dimensões dessa atitude não cabiam na compreensão humana. A capacidade de discernimento da jovem senhora estava mesmo comprometida.

Sem demora, o farmacêutico levou o animal até o consultório de um amigo veterinário a algumas quadras dali e pediu que ele fizesse o possível para restituir-lhe o máximo a normalidade aos movimentos traseiros – Maroto apenas se arrastava.
– Uma doida deixou esse animal na minha farmácia e sumiu. Leu o bilhete? – Edson perguntou.
– Sim, eu li. Vou ver o que posso fazer – respondeu.

Garantidos os primeiros cuidados, dois dias depois o veterinário levou o porquinho para um casal de amigos, donos de uma pequena chácara numa cidade bem perto dali. Eles logo aceitaram ficar com Maroto, o porquinho de identidade e endereço desconhecidos.
– Claro, nós vamos ficar com ele – disse a amiga. – “Maroto”: gostei do nome dele. Mas a gente quer ter certeza de que não teremos de devolvê-lo em seguida, certo? – acrescentou. Eles estavam adorando a nova tarefa.

Não demorou muito tempo até que Cristiane voltasse àquela farmácia.
– Outro dia eu passei por aqui e deixei uma caixa com um porquinho – disse, atropelando palavras e gestos. Ele está bem? – perguntou.
– Ele está bem, minha senhora, está bem. Está numa chácara, muito bem cuidado – respondeu.

Chorando, a mulher perguntou. – Como assim? O Maroto não está aqui? Foi viver em outra casa? Longe da minha?

Sim, é isso mesmo. Em outra casa. Bem cuidado – respondeu o farmacêutico.
– Quer dizer que eu não vou ter ele de volta? E o sofrimento da minha filha? – perguntou, simulando uma lágrima que não veio.
– É. Foi isso que a senhora ouviu. Os donos não vão devolver o animal – explicou. Cristiane rangeu os dentes. Em vão.

Tensa e desconfortável, próximo da hora do jantar, a mãe entrou no quarto da menina e contou-lhe toda a verdade, interrompendo-lhe a lição de casa. Mas disse que Maroto estava sendo tratado por um médico da cidade.
– Ebaaaa! Quando eu vou buscar ele, mamãe? – A reação instantânea da menina foi de uma felicidade confusa e inédita naqueles dias. Tão inédita quanto passageira. Mas ela a viveu intensamente enquanto durou.

Inconformada com a ausência do animal ferido, mas cheia de uma esperança genuína, Isabela fez questão de revê-lo o mais rápido possível, e isso, para ela, se traduzia nas palavras ‘Amanhã cedinho’.

Bem cedo, enfrentando os buracos de uma estrada de terra, foram até a casa onde, ao menos em princípio, o animal teria uma vida digna. Mas ele havia morrido. De novo, não aconteceu qualquer sincronia entre sua confiança na mãe e a realidade a sua frente.
– Você mentiu pra mim! Não acredito mais em você! – gritou a filha, correndo sem rumo.
– Filha! Vem aqui! Aonde você vai? – disse.

A mãe se apressou em comprar um cachorro para Isabela – uma graça de animal. Ainda na loja, a mulher lhe deu o mesmo nome do porquinho, Maroto.

Mas ele era apenas um cachorro.

■ Ἅbяe aspas” – Falando sobre a mentira, disse Quintiliano: “O mentiroso precisa ter boa memória.”

Rubens Marchioni é Youtuber, palestrante, produtor de conteúdo e escritor. Autor de livros como A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected] https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao

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