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O Brasil vive em um estado constante de ciclone | Rubens Marchioni

O Brasil vive em um estado constante de ciclone | Rubens Marchioni

Ele surgiu como algo que bem podia ser provisório. No entanto, o que se percebe é que o fenômeno veio para ficar. Que situação estranha essa em que um ciclone exibe seus tentáculos e finca raízes fortes sobre a nossa terra! No que mais terei de acreditar? [Dia desses fui informado de que o senhor Decotelli incluiu em seu currículo que foi Ministro da Educação, sem nunca ter sido, porque não houve posse. Mais um pouco e serei vencido pela ideia de que a Terra é plana.]

O ciclone mostrou uma das faces mais agitadas, quando da demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, por Jair Bolsonaro. Em seguida, Sérgio Moro, da Justiça, juntou seus pertences e foi viver uma quarentena jurídica. Bolsonaro queria intervir na Polícia Federal, capitaneada por Moro. Era preciso garantir a sua segurança e de seus “meninos” contra ilícitos que, de outra forma, poderiam vir à tona.

No lugar de Mandetta, um ministro que entrou mudo e saiu calado, direto da frigideira. Inócuo. Depois, um general interino, Eduardo Pazzuello, que ainda permanece nesse estágio. Entende do universo da saúde tanto quanto eu, que sou publicitário. E a sociedade, muito mal atendida pelo general e por Bolsonaro, assiste ao crescimento lamentável do número de óbitos por conta da Covid-19, enquanto o Brasil se torna um pária mundial pela mesma razão.

Na pasta da Educação, outro desastre sem precedentes na história do país, talvez do mundo. Primeiro, um ministro que não sabia falar. Seu nome, Ricardo Vélez Rodríguez. Ele chegava sem qualquer experiência no ramo, sem nível técnico para ocupar a pasta e discípulo cego do seu mestre Olavo de Carvalho. 

Em seguida, foi a vez do truculento Abraham Weintraub, o pior ministro da Educação de que se tem notícia – Vélez não fala, Weintraub não escreve, é quase um analfabeto funcional, uma tristeza. Ele é doido varrido, para ser elegante como a coluna exige. O homem vivia obcecado com a ideia de declarar guerras internas, lutar contra inimigos imaginários e fazer ataques às instituições. Numa reunião ministerial, chegou a declarar, abertamente, o seu desejo de prender os ministros do STF. Teve uma saída estranha e coerente com seu caráter: fugiu do país com medo de ser preso.

Decotelli nem sentou na cadeira e já pediu demissão. Quando o vi numa entrevista, após a indicação pelo presidente, num respeitável canal de notícias, fiquei empolgado. Um ministro de Bolsonaro com mestrado, doutorado, pós-doutorado, ex-professor na Fundação Getúlio Vargas. Agora vai – eu pensei. Não foi. Seu currículo se esfarelou a olhos vistos e de um dia para outro. A universidade na Argentina logo negou que tivesse concluído o suposto mestrado. Ora, sem esse grau de titulação, como fazer doutorado e pós-doutorado? Consequência: negação Made in Germany, como só poderia ser. Na FGV, ao contrário do anunciado, apenas uma passagem rápida, ensinando num curso de extensão.

O último lance envolve o nome do atual secretário de Educação do Paraná, Renato Feder. Se não estivermos enganados em relação ao seu currículo – nunca se sabe –, Feder é formado em Administração pela FGV, com mestrado em Economia na USP. No entanto, sua única experiência em gestão educacional foi no ano e meio que esteve à frente da Secretaria de Educação do Paraná. Ele era o preferido para assumir a pasta da Educação. O problema é que houve pressão por parte dos evangélicos e dos aliados de Olavo de Carvalho, interessados em manter a filosofia de trabalho de Weintraub. Motivo alegado: excesso de aproximação com os tucanos, particularmente João Dória, governador de São Paulo, alguém que jamais compraria um carro usado de Jair Messias Bolsonaro.

Temos uma pandemia e nos falta um ministro da Saúde com competência técnica para agir – ficamos apenas com um presidente negacionista. Temos exigências graves na área da Educação e nos falta um ministro qualificado para o cargo, que segue vazio.

Covid, Bolsonaro e ciclone. “Pare o mundo que eu quero descer.”


Rubens Marchioni é palestrante, produtor de conteúdo, blogueiro e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Pela Contexto é autor de Escrita criativa: da ideia ao texto. https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao / e-mail: [email protected]