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Jaime Pinsky escreve sobre nacionalismos e globalização

Nacionalismo ou Globalização? | Jaime Pinsky

A questão nacional, tema candente tempos atrás, voltou à tona com o conflito entre Rússia e Ucrânia, mas tem sido abordada (geralmente mal abordada, é verdade) na mídia tradicional e social, em outras ocasiões, como no desligamento da Grã Bretanha da Comunidade Europeia, durante a fragmentação da Iugoslávia (sérvios, croatas, bósnios, etc.), no enfrentamento entre China e Formosa, no debate sobre os curdos. Sem entender o problema das nações e da identidade nacional estamos perdidos, sujeitos a informações fragmentadas, desconexas. Nada como recorrer a um bom livro sobre o tema para não confundir protagonistas e fazer uma salada que confunde nações dos Balcãs com os do Báltico, árabes e muçulmanos, israelenses e judeus. Por ora, gostaria de fazer algumas reflexões sobre o nacionalismo e globalização.  

No final do século XX acreditava-se que a instituição da nação estava com os dias contados. A economia, internacionalizada havia muito tempo, ficou mais supranacional com a entrada da China. Nos anos 1990 a Rússia havia aberto mão do sonho socialista e parecia ter se tornado mais um país capitalista e democrático. As fábricas, inclusive as montadoras de automóveis, passaram a ter fornecedores em dezenas de países. A globalização avançava em todas as frentes e parecia irreversível. O mundo ficava menor. Viagens internacionais, antes um privilegio de poucos, se popularizavam. O inglês, que já era ensinado nos colégios, adquiriu o status de a língua franca por toda parte. Nas universidades importantes os pesquisadores passaram a publicar nessa língua, estabelecendo diálogo frutífero com colegas do mundo inteiro. A Europa optou por unificar-se, não sob o tacão de qualquer ideologia, como o nazismo, mas por interesse econômico e cultural, abrindo mão de certo chauvinismo tradicional. Escolher outro país para viver deixou de ser visto como atitude desesperada, ou antipatriótica. Passou a ser chique ser considerado “cidadão do mundo”. A identidade nacional e a própria instituição da nação pareciam, então,  correr risco de desaparecer.

Mas isso não aconteceu. Se, de um lado, a globalização avançava, do outro começou a se desenvolver uma antiglobalização. Motivos, entre outros: a desindustrialização e seu efeito imediato, o desemprego; a real, ou suposta, defesa dos valores culturais específicos de uma nacionalidade, sejam eles uma língua, um modo de fabricar queijo, ou de dançar o tango; a reafirmação religiosa, apresentada como fator cultural antiglobalizante, e tantos outros.

Nos limites deste escrito vale a pena lembrar que várias sociedades praticam , de forma sorrateira, a segregação das mulheres, sob o pretexto de ser elemento constituinte de identidade nacional e religiosa. Apoiadas por alegados motivos multiculturalistas, governos e religiões decidem o que é melhor para elas vestirem, se podem ou não sair de casa desacompanhadas, se devem ou não dirigir veículos, e até se merecem ser mortas se não usarem o lenço de cabeça de modo adequado (sendo que o “adequado” não é decidido por elas).

Entre desculpas esfarrapadas, mentiras descaradas, alianças políticas e econômicas vantajosas (“eu te dou o meu petróleo e você não implica com nossa estrutura política arcaica e preconceituosa”) avançou a antiglobalização, o velho sentimento nacional ou o chauvinismo. Confusos com todo esse movimento jornalistas, homens de negócio, diplomatas e até intelectuais têm dificuldade em entender o que aconteceu e está acontecendo nesse reflorescimento das nações, no ressurgimento do sentimento nacional, num discurso de liberdade que, muitas vezes é chauvinista e preconceituoso, na luta territorial que, frequentemente vai beneficiar apenas uma pequena camada de cidadãos, mas é apresentada como guerra de libertação nacional. E não é só a direita, tradicional fã do nacionalismo, que embarca nesse barco furado. Por falta de cultura histórica, ou simplesmente por pura má fé, partidos de esquerda, pseudo defensores do anticolonialismo se tornaram propagadores das “maravilhas” de qualquer minoria que afirme que sua identidade cultural é antiocidental.

Um exemplo recente: Há poucos dias uma milícia de fanáticos religiosos, reconhecidos e empoderados pelo governo iraniano, deteve uma garota em Teerã pelo fato de uma mecha de cabelo dela ter escapado do lenço que o prendia. A menina, de 17 anos, foi torturada até morrer! Em nome de uma teocracia arcaica! Foi, evidentemente, uma atitude contra todas as mulheres iranianas. Contra todas as mulheres do mundo. As iranianas, arriscando a vida, saíram à rua, protestando. Pediam liberdade.  O que aconteceu? Foram espancadas. Foram presas. A polícia atirou nelas com balas de verdade.  Centenas delas morreram. Escândalo mundial. Menos por aqui, de onde não saíram manifestos relevantes de solidariedade às mulheres iranianas e nenhuma condenação ao regime dos aiatolás. Por que será?


Jaime Pinsky é historiador e editor. Completou sua pós-graduação na USP, onde também obteve os títulos de doutor e livre-docente. Foi professor na Unesp, na própria USP e na Unicamp, onde foi efetivado como professor adjunto e professor titular. Participa de congressos, profere palestras e desenvolve cursos. Atuou nos EUA, no México, em Porto Rico, em Cuba, na França, em Israel, e nas principais instituições universitárias brasileiras, do Acre ao Rio Grande do Sul. Criou e dirigiu as revistas de Ciências Sociais, Debate & Crítica e Contexto. Escreve regularmente no Correio Braziliense e, eventualmente, em outros jornais e revistas.

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