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Lord, parla for me. Amém | Rubens Marchioni

Em alguns ambientes, a falta do domínio do idioma local significa um problema, sim, mas não impede a possibilidade de tomar um café, ainda que a comunicação aconteça de um jeito confuso.

Lord, parla for me. Amém | Rubens Marchioni-Deus

Para quem acredita no Pentecostes, evento ocorrido após a ressurreição de Cristo, a experiência precisa ser repetida com frequência: cada um fala seu próprio idioma e, no entanto, os dois se entendem. Às vezes é indispensável que Deus fale por mim. Ele sabe, como ninguém, misturar idiomas como o português, o italiano e até mesmo o inglês britânico.

Não sejamos injustos: o Nero Café, em Northampton, Inglaterra, está longe de ser uma cafeteria como todas as outras.

Certa vez, o mestre W. Bertini abriu o texto de um spot com a frase “Contra fatos não há argumentos”. Nostalgia à parte, um fato garante o diferencial do Nero: é aqui o lugar onde saboreio novamente o Loacker – Cremkakao, wafer recheado com um delicioso creme de chocolate, maravilha que experimentei primeiro na Garfagnana, Itália.

Hoje, quando entrei, fiz uma prece: “Senhor, repita aqui o milagre de Pentecostes. Eu falo inglês com o balconista e o Senhor faz com que ele não se irrite e até me atenda, conforme as minhas parcas necessidades. Amém”. Corta.

Durante os oito anos em que estive no seminário, ouvi gente afirmar que não entendia o repentino silêncio de Deus. Principalmente depois de ter dado provas da sua competência, ao encher de palavras o espaço equivalente a 72 livros da Bíblia, versão católica.

Puro engano. Do alto, em linguagem atualizada, veio a resposta. “Na boa, fala com o brother do caixa e pede o chocolate. Ele vai atender e até ajudar a separar as moedas.” E prosseguiu: “No que depender de mim, você não vai pagar o mico de meia hora atrás, quando se sujeitou a comer um salgado e tomar um enorme cappuccino, ao mesmo tempo, só porque não acertou na hora de informar que a ordem desses fatores altera, e muito, o paladar. Admirei seu estilo quase britânico. Mas confesso que meu estômago ficou levemente confuso com tudo aquilo”.

Deus, a Palavra por excelência, sempre diz mais alguma coisa quando se trata de socorrer um filho em apuros. E finalizou: “Depois, quando for escrever a crônica da semana, mencione o Nero. Alguns vão dizer que é jabá; outros, que é matéria paga; merchandising. Liga não. Até já disseram que o crucifixo é apenas um logotipo. Eu sei que foi uma troca de gentilezas entre vocês, cliente e fornecedor, e contra esse fato, nem eu tenho argumentos”. 

Pedi a saideira. “Uno espresso, please. Grazie”. Como até agora não recebi voz de prisão por duplo homicídio, flagrantes e muito bem qualificados, sinto-me à vontade para retornar na próxima semana. Desde que Deus aceite novamente a condição de cúmplice. Sozinho, never.


Rubens Marchioni é Youtuber, palestrante, produtor de conteúdo e escritor. Autor dos livros Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected]. https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao