Em 2015, quando era diretora-geral da CBN, criei, ao lado da também jornalista Mara Luquet e do médico gerontólogo Alexandre Kalache, o programa 50 mais CBN. As mudanças no perfil demográfico brasileiro já eram patentes, mostrando que o país envelhecia em ritmo acelerado. Além disso, eu estava na casa dos 50 – um momento de vida que acenava para a necessidade de reflexão sobre a passagem do tempo.
Desde então, digo que sou uma aprendiz de velhice. Há dez anos mantenho a coluna Longevidade: modo de usar no portal de notícias g1 – e, nesse período, acabei rompendo a marca dos 60, me tornando uma idosa. Ao longo dessa década, pude observar que o exército de longevos vem crescendo e se empoderando, com influenciadores maduros brilhando (e militando) nas redes sociais.
Claro que o etarismo, ou idadismo, continua mostrando suas garras afiadas, mas há mais gente disposta a denunciá-lo. No entanto, ainda há um território “minado” nas discussões sobre o envelhecimento. A expectativa de vida do brasileiro aumentou – é de 76,6 anos, atualmente –, mas abordar o sexo após os 60 continua sendo um tabu.
Entretanto, a intimidade física não é um privilégio da juventude, e sim um componente fundamental da experiência humana. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a saúde sexual é indispensável para o bem-estar geral de indivíduos, casais e famílias e para o desenvolvimento social e econômico de comunidades e países.
Por isso, decidi que esse meu quarto livro ligado ao tema da longevidade teria que ser sobre o sexo. E no formato de um guia, com linguagem clara e objetiva: são 60 verbetes, de A a Z, que não precisam ser lidos linearmente. Não tive a pretensão de explorar o multifacetado universo da sexualidade, que abrange não somente os aspectos biofisiológicos, mas também os emocionais e socioculturais. Quis abordar o prazer dos 60+ sem minimizar ou esconder os perrengues, mas fazendo o possível para enriquecê-lo.

Como em meus livros anteriores, contei com a ajuda inestimável de homens e mulheres que, generosamente, compartilharam suas experiências. As idades variam entre os 60 e os 80 anos, e seus nomes foram alterados para que, protegidos pelo anonimato, se sentissem à vontade para revelar questões íntimas. A todos, pedi que dissessem que assuntos consideravam obrigatórios e o que gostariam de saber (ou de ter sido avisados) sobre as mudanças que ocorrem na vida sexual durante a maturidade.
Afinal, somos mais de 34 milhões, o equivalente a 16,6% da população brasileira – e a maioria de nós que ultrapassou esse marco tem algumas décadas de prática. Na base da tentativa e erro, testamos, provamos, ganhamos repertório e, com o tempo, passamos a conhecer melhor nosso corpo e nossos desejos.
A ironia é que a experiência e sabedoria acumuladas esbarram em dois fatores que impõem limitações e se entrelaçam. O primeiro é o declínio físico, que se apresenta de diferentes formas na velhice – há quem chegue aos 70 lépido e fagueiro, outros têm que lidar com doenças crônicas até incapacitantes.
O segundo é o preconceito e suas manifestações, que ferem, isolam e excluem os idosos. Vamos internalizando um sentimento de que não temos os mesmos direitos que os mais jovens e que devemos sair de cena. A rejeição do próprio corpo está na longa lista de efeitos colaterais.
Portanto, proponho que o guia seja para quem continua a fazer sexo e quer saber como pode ter e dar mais prazer. Para quem não anda tão ativo, mas gostaria de voltar ao jogo. E para todos os curiosos e curiosas, que querem, com ou sem parceiros e parceiras, desfrutar de novas sensações.
Para quem ainda não está convencido, é bom lembrar que sexo não se restringe a um ato prazeroso. A lista de benefícios associada à atividade sexual é extensa: libera dopamina, neurotransmissor que desempenha funções cruciais no cérebro, como a regulação do humor, motivação e recompensa; é uma forma de exercício, porque eleva a frequência cardíaca – com benefícios para o coração – e promove gasto calórico; fortalece o assoalho pélvico, ajudando a prevenir a incontinência urinária; reforça o sistema imunológico; melhora o sono.
Quais são as disfunções sexuais mais frequentes? Há limite para as fantasias sexuais? Como introduzir brinquedos eróticos na relação? Essas são algumas das perguntas que me foram enviadas e que representam a ponta do iceberg da sexualidade humana. O que fiz foi iniciar uma conversa. Nesse guia, os verbetes são apenas um ponto de partida, a largada para a experimentação. Não passam de uma moldura, de um singelo enquadramento. A ideia é que cada leitor ou leitora transborde seus limites e se desapegue de padrões de desempenho do passado. E que o deleite se estenda indefinidamente, porque o sexo deveria morrer conosco, e não antes de nós.

Mariza Tavares é jornalista formada pela Universidade Federal Fluminense. Fez mestrado em comunicação na UFRJ e MBA em gestão de negócios no Ibmec. Desde 2016, mantém o blog “Longevidade: modo de usar”, no portal g1, e também participa do conselho editorial da Agência Lupa, especializada em fact-checking. Foi diretora-executiva da Rádio CBN entre 2002 e 2016, onde criou o programa “50 Mais CBN”, do qual participava com o médico Alexandre Kalache e a jornalista Mara Luquet, e, antes disso, editora-executiva do jornal O Globo e repórter da revista Veja. É autora de seis livros infantis e de duas coletâneas de poemas. Publicou também pela Editora Contexto Longevidade no cotidiano e Menopausa.

