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Denúncia, sem anúncio, mata | Rubens Marchioni

Denúncia, sem anúncio, mata | Rubens Marchioni

Eram os anos 1980. Auge da globalização. As profecias, assustadoras, não paravam de chegar. Quem tiver 23 anos de idade, sem ter vivido a experiência de ser gerente de uma multinacional, está fora. Vinte e três anos?! É velho! Quem não for iniciado nos mais altos mistérios da tecnologia da informação, como Bill Gates e Steve Jobs, também não terá um destino diferente. E a mesma regra, clara, se aplica aos que não forem fluentes no idioma inglês como um nativo dos Estados Unidos. Ou seja, de um jeito ou de outro, todos estarão condenados a arder no mármore do Inferno. Sem direito a habeas corpus.

Eu vivi de perto essa situação. Estava no centro do furacão. À época, conquistei alguns espaços na mídia, onde publiquei uma série de artigos. Seguindo a mesma tendência e modismo do momento, várias vezes adverti patrões e empregados sobre os riscos de não se adequarem às novas exigências do novo mundo. Eu sabia das coisas. Eles não.

Mas será que tudo mudou de maneira tão radical e para melhor? Eliminar profissionais com mais de 25 anos foi uma decisão inteligente ou apenas jogou no lixo uma experiência que seria muito útil? O fogo que ameaçava a todos causou mesmo o efeito devastador que foi anunciado?Agora vivemos a Era Pós-pandemia. Os artigos, as reflexões, as advertências sobre o perfil exigido para o novo profissional e o novo ser humano começam a aparecer. É como se, de fato, uma mudança mais avassaladora batesse à nossa porta.

Mas confesso que sou um pouco descrente de tudo isso. Porque não estou bem certo de que o ser humano vai mudar só porque houve uma pandemia – outras crises, talvez mais devastadoras, já aconteceram, e não foram capazes de provocar a transformação anunciada. Basta ver que, em plena crise, com a vida correndo sério risco, muitas pessoas, a começar pelo presidente da República, relativizam o seu valor.

Há quem afirme que atingiremos um padrão de vida espiritual muito mais elevado. Não creio nisso. Afinal, como já escrevi, vamos manter o desejo humano de poder. A sociedade de mercado continuará ditando as regras do jogo. E os mais fortes dominarão os melhores espaços. Vai ser apenas uma questão de tempo. No máximo, os hospitais vão ter um número maior de respiradores etc., já que eles não poderão ser devolvidos aos fabricantes. Outras estruturas poderão se afogar no mato, como as construções feitas para eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas.

Desta vez, não quero novamente ser profeta, como fiz nos anos 1980. Não me sinto chamado para falar em nome de algum deus, seja ele quem for. Inclusive, porque isso poderia implicar contribuir com uma ideologia empresarial que não favorece, necessariamente, o ser humano.   

Sei que isso não tem a ver com a prática de valores. O que me dá todos os motivos para fugir desse comportamento, um selo que não desejo ver colado ao meu nome, ao meu currículo. Não seria correto conduzir as pessoas a um estado de quase desespero que apenas pesa e nada tem de eficaz. Porque denúncia sem o correspondente anúncio mata. Se não posso aliviar, não devo pesar. Eu não sei tudo.

Aqui vamos pedir ajuda à arte e à cultura. Elas são convidadas, agora, a assumir o seu papel de aliviar tamanha tensão. O marketing, a mídia, também eles podem contribuir, e muito, para ao menos desenhar novos cenários sem ilusões e sem terrorismo. E, o quanto possível, proteger as pessoas, que não podem se colocar à disposição de toda onda de profecias que brotam e se espalham, pois ela pode matar. Não é o caso de fazermos profecia. É melhor seguir os passos de Michel de Foucault, quando afirmou “Eu não sou um profeta. O meu trabalho é criar janelas onde havia apenas paredes.”

A propósito disso, seria muito sensato não invadirmos o terreno do sagrado. Nem nos colocando como seres vocacionados por um ser superior para a delicada missão de conduzir a humanidade, nem invadindo o terreno individual das pessoas que se dispõem a ouvir afirmações que contribuem pouco ou quase nada com o bem-estar de uma sociedade vivendo, hoje, no limite da sua resistência emocional. 

Um novo cenário está se desenhando, isso não pode ser negado. Mas ele pode ficar mais leve, desde que não nos arvoremos a definir previamente tudo o que vai e o que não vai acontecer, porque a gente sabe pouco a respeito de tudo o que nos espera. É preciso manter a serenidade, portanto, para não perdermos o bom senso e comprometer toda a caminhada.  

O novo ser humano, para a Era Pós-pandemia, será do jeito que formos capazes de construir quando entendermos um pouco mais todo esse movimento. A partir da nossa casa. A partir de cada um de nós. O resto é consequência. 


Rubens Marchioni é palestrante, produtor de conteúdo, blogueiro e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Pela Contexto é autor de Escrita criativa: da ideia ao texto. https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao / e-mail: [email protected]