Fechar
E o convidado fez a festa | Rubens Marchioni

E o convidado fez a festa | Rubens Marchioni

Já era quase meia noite quando Alisson, despachante aduaneiro e dono de um bigode curto e eriçado, e a esposa, Helena, estacionaram em frente ao prédio onde vivia Douglas, um advogado bem-sucedido, que gostava da experiência de pertencer a um grupo e valorizava a credibilidade, e Beatriz, sua mulher, médica cardiologista que dirigia um grande hospital. Beatriz era discreta ao revelar o medo que sentia da possibilidade de uma velhice pouco interessante e extrovertida nas demonstrações do seu apreço pela ética. Fora isso, sempre evitava entrar em casa com os sapatos usados na rua e preferia que todos agissem assim.

Aquela ocasião significava a primeira vez que Alisson e Helena os visitavam depois da mudança de endereço. Foram convidados a participar da Ceia de Natal, momento de encontro também com gente desconhecida, que, no final das contas, poderiam se tornar seus amigos. Havia tempo suficiente para o início dessa nova experiência.

Dentro do carro nacional meio cansado, e revelando uma segurança suspeita, Alisson recostou no banco, repetindo o gesto de quem toma posse de novos espaços.
– Bem, nós somos convidados, não somos? – disse para Helena.
– Sim, convidadíssimos – respondeu ela, muito confortável.
– Então o Douglas não vai se importar com o nosso atraso. A Ceia pode esperar, não pode? – Alisson acrescentou, com uma arrogância que insistia em apagar qualquer traço da infância pobre que teve.
– Sim, claro que pode. Todos podem esperar um pouco. Não custa – Helena concluiu.

Eles bem poderiam ter usado os recursos de um aplicativo para chegar lá. Mas se recusaram, devido a uma aposta feita em casa. Até conheciam o trajeto, mas isso era apenas teórico. Na prática, nenhuma prática. E não havia motivação suficiente para aprender com antecedência por onde deveriam seguir para chegar àquela festa que prometia.

Talvez, para eles, um pouco de pontualidade fosse apenas secundário. Afinal, isso, para muitas pessoas, era apenas o normal. E o casal aprovava sem reservas alguns comportamentos tidos como normais.

Antes da chegada do elevador, o celular de Alisson tocou. Nervoso, ele atendeu. Nervoso, desligou. Ficou tenso. Helena se sentiu desconfortável diante da situação do marido. Décimo quarto andar.

A noite era morna. No céu, nuvens indecisas apontavam para a possibilidade de inundações em pontos isolados. No apartamento, a atmosfera falava de Natal. O chão branco da sala refletia o brilho dos enfeites, colocados em pontos estratégicos. No corredor e nas paredes repousavam quadros vindos de diferentes regiões, um deles inspirado no livro O velho e o mar, de Ernest Hemingway. Da sacada, os olhos se enchiam com as imagens de uma festa que se espalhava pelas ruas e prédios da cidade grande e sem identidade clara.

Alguns visitantes já haviam chegado. Entre eles, uma professora universitária, Agnes, de rosto muito bem desenhado e lábios que nem precisavam daquele batom. Tinha um acentuado espírito crítico e aguçado, sobretudo quando o assunto girava em torno de temas como a ordem social. Chegou também um engenheiro, com sua esposa, profissional da área de comunicação. Todos estavam acompanhados pelos filhos – crianças e adolescentes. Alisson foi solícito e elegante ao cumprimentar um senhor cujos traços demonstravam uma enorme experiência de vida em contraste com uma vitalidade reduzida.

Outros chegaram em seguida. Cumprimentaram-se. Guardaram as bolsas num pequeno banco junto ao lavabo. As pessoas se acomodaram, enquanto conversavam – política, religião…

As bebidas chegavam a seus copos, nunca vazios. Num exercício de aquecimento, alguns mais extrovertidos andavam pela sala e defendiam teses de consistência inabalável e outras nem tanto, apesar da audiência escassa.

E o convidado fez a festa | Rubens Marchioni

– Seu comentário me fez lembrar a última decisão estapafúrdia tomada pelo presidente – disse Agnes, com acidez calculada. – Eu nunca confiei nesse sujeito. Aí tem. – emendou, sem encontrar eco. 

Alisson era um sujeito amoral e inconstante naquilo que pensava e fazia. Demonstrava isso com tranquilidade, sobretudo no ambiente profissional. Insinuando uma intimidade jamais imaginada, ajeitou o cabelo cor de açúcar mascavo e arriscou uma das suas práticas corriqueiras, dirigindo-se, quase que num sussurro, à filha de um dos convidados.

– Sabia que a festa fica mais bonita com você por perto? – disse, afastando-se ao perceber a reação contrária da jovem, rosto emoldurado por um cabelo castanho muito bem cuidado.

Imediatamente, repetindo uma postura já ensaiada, girou sobre o pé direito e voltou para arrematar o comentário. Na cozinha, um copo de cristal se transformou em pedaços.

– Foi só um comentário, um elogio. Esquece – disse, tornando as coisas ainda piores. 

Na sua necessidade insana de ter a aprovação dos outros, e movido por valores e crenças no mínimo suspeitos, Alisson estava certo de que podia conquistar o apreço de algum jovem do grupo e, respectivamente, dos seus pais, que então agiriam como que agradecidos pela sua gentileza extrema e sem qualquer interesse.

– Que belo relógio o seu! Deve ter custado uma nota. Comprou aqui mesmo? – Alisson perguntou a um dos convidados, de quem mal sabia o nome, e incomodado por ser não ser ele o dono daquele objeto que reluzia no braço do outro.

– Não, esse foi presente do meu filho. Também gostei muito – ele desconversou, caminhando em outra direção, gesto que tentava sugerir a suposta urgência de falar com alguém do outro lado da sala.  

Embora consciente dos riscos, Alisson preferia não fazer qualquer mudança no seu padrão de comportamento, adotado desde os tempos de faculdade e do primeiro emprego, num grande supermercado. Agia assim toda vez que decidia se ausentar das aulas sem motivo justo. Ou quando resolvia aceitar pequenos presentes de clientes para que fossem favorecidos na entrega de produtos.

Conseguir tais vantagens sempre vinha antes de qualquer outra coisa a ser feita como estudante e profissional. Para isso, mobilizava pessoas, criava caminhos escusos e forçava as coisas para que no final todos lhe entregassem o fruto de sua esperteza.

Por se tratar de uma prática habitual, não via maiores problemas. Aprimorava-se cada vez mais, sempre conversando com alguém que seguia a mesma cartilha. Ouvia seus exemplos e treinava o quanto podia, com as pequenas ações, sempre confirmando a certeza de que esse era o caminho a ser seguido. Olhava para cada nova situação, avaliava as possibilidades e agia imediatamente. Como seria agora, durante a Ceia de Natal?

Por conta desses traços de comportamento que trabalhavam a serviço da sua ambição descontrolada, Alisson investia tempo e energia para manter o controle das pessoas à sua volta. O espaço profissional era o seu território preferido, mas ele estendia sua prática ao trato com amigos e até familiares.

Em nova experiência, Alisson se aproximou sorrateiramente de um pequeno grupo de convidados, do qual participavam alguns conhecidos. Em alguns segundos, verificou o assunto de que tratavam entre um e outro gole de vinho. De novo, usou a velha estratégia de desviar o foco, algo como dividir para controlar. 

– Vocês viram o jogo de ontem? Viram como o juiz roubou feio? – provocou.
– É, coisas do futebol – disse alguém, retomando a conversa interrompida.

Para Alisson, controlar a situação se tornava uma estratégia cada vez mais necessária. Ele sabia que, em algum momento, essa ou aquela pessoa poderia acabar assumindo o papel de baliza para o seu comportamento inconsequente.

Seu hábito de acumular coisas, ainda que desnecessárias, e a mania crônica de armazenar alimentos ou outros itens muito além do que pode consumir ou usar, sempre em busca de conforto a qualquer preço, era conhecido.

– Minha meta principal, agora, é trocar de carro. Quero pegar um importado. Novo – Alisson disse, tentando avaliar o grupo, sentir se existia espaço para prosseguir a história. Afinal, ele não sabia ao certo se desejavam falar sobre esse tipo de assunto.
– É, mas o dinheiro está curto – acrescentou. E continuou, num monólogo.
– Não vai ter outro jeito. Vou ter de aceitar um presente de um cliente – disse, num tom meio confidencial, meio sussurrado, com um sorriso amoral.   

Disse isso no momento em que Helena lhe servia mais uma dose de uísque puro, do qual sorveu um gole generoso. Em seguida se afastou. Era preciso atender novamente a mesma ligação. Outra vez o silêncio e o nervosismo. Agora tudo indicava não se tratar apenas de uma informação, mas da apresentação de um ultimato. O casal disfarçou. Não disfarçou. A tentativa revelou que havia algo inconfessável e muito urgente. 

O constrangimento tomou conta da sala. Ainda demoraria algum tempo até que a Ceia fosse servida. Alguns fizeram de conta que não ouviram nada. Outro o olhou com ar de candidato à cumplicidade, pensando em facilitar-lhe as coisas para que conseguisse um carro novo por um valor bem mais em conta. Havia interesses em jogo. 

Os adultos, exceto uma senhora com idade avançada e um pouco doente, continuaram tomando cerveja e vinho. O consumo e os efeitos aumentaram com certa rapidez. Mas era preciso descontrair, e um pouco de álcool ajudaria muito.
– Muito bonita a sua casa, meu amigo – disse Alisson ao Douglas, num tom bajulador e desnecessário. – Tem umas coisas muito bonitas – acrescentou.

A Ceia foi servida com atraso, cada prato na hora certa. Beatriz, a anfitriã, serviu o primeiro prato quente. As conversas eram desencontradas, e havia por parte de alguns convidados o desejo de manter uma distância saudável em relação à Alisson.

As conversas misturavam temas como trabalho, política, religião, viagens, denúncias, ultimatos… Alisson quase não falava. Mas o celular o chamou novamente e ele precisou quebrar o silêncio.
– Eu já pedi pra não ligar, não pedi? – disse, irritado, tentando conter o volume da voz. E continuou.
– Tudo bem, eu sei o que eu tenho de fazer! Eu sei! Saco!!! – e desligou, enquanto o chão se distanciava dos seus pés.

Antes de terminar o primeiro prato, sussurrando, Alisson fez menção à Helena de ir embora naquele instante. Com respostas curtas e enfáticas, ela recusou a ideia do marido. Apesar de também estar desconfortável com o clima, preferiu continuar por ali.

Finda a refeição, tudo foi recolhido. O clima respirado denunciava: a festa havia mesmo terminado. Isso estava evidente no rosto e nos gestos de quem ainda permanecia. Pouco a pouco, os convidados deixaram o apartamento.

– Que Ceia, meu Deus, que Ceia! – disse Douglas à Beatriz, repetindo o velho hábito de coçar a cabeça e visivelmente decepcionado.
– Só um instantinho, só um instantinho – disse ela, dirigindo-se à sala para pegar uma estatueta, lembrança da sua avó materna de alguma festa de Natal e sobre a qual ela diria algo de recordação. Voltou algum tempo depois, desolada.
– Sabe aquela peça de ouro que herdei da minha avó? – disse, trêmula.
– Sim, lembro. O que houve? – Douglas perguntou.
– O que houve? Esquece… Alguém levou. E foi agora… – prosseguiu.
– Sei. E quem teria feito isso? Só convidamos amigos… – disse ele.
– Acho que não sei. Mas também acho que sei, só não tenho provas – respondeu ela.

Suspeitas não adiantariam. Alisson já estava longe. Era preciso atender à ligação insistente.


Rubens Marchioni é Youtuber, palestrante, produtor de conteúdo e escritor. Autor de livros como Escrita criativa. Da ideia ao texto. [email protected] https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.