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Ciberpopulismo | Lançamento

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Uma convicção pode ser a mais perversa das prisões. Quando o que sei não pode ser questionado, escuto apenas aquilo que confirma o que acredito. O que é diferente recuso. Quando tenho toda a razão e o outro, nenhuma, não existe diálogo. Preso às minhas convicções, reduzo a possibilidade de pensar. Não há como aprender sem estar disposto a mudar de ideia, e para mudar de ideia é preciso aceitar que minha convicção pode estar errada.

Polarização é quando duas convicções opostas ocupam todos os espaços do debate político. Quando a política se transforma em mero embate entre posições que se excluem, sem pontos de encontro nem terreno comum. Quando não há adversário, mas inimigo. As alternativas, aquelas posições que não se encaixam em nenhum dos dois lados, são postergadas ou negadas. O debate se faz impossível. É como se as mensagens transitassem por canais paralelos ou fossem ditas em línguas diferentes: eu falo em aramaico, você responde em sumério. Pior: a língua é a mesma, as palavras são iguais – mas significam coisas diferentes dependendo de quem diz.

Paramos de escutar, não interessam os argumentos. Deixa de importar o que é dito, importa quem disse: se foi alguém que é da minha posição, vou defender sem questionar. Mas, se for do outro lado, nego e rebato. Trocam-se palavras de ordem e memes, há menosprezo pelo argumento. Quem não está alinhado com uma das duas posições dominantes não tem voz: o que disser será entendido como apoio ou crítica a um dos dois polos. “Se você não concorda comigo está fazendo o jogo de X”. “Você diz isso porque no fundo você é Y”. As ideias se impõem por relação de força – não a força da razão, mas a razão da força. Quem grita mais leva. As posições são sempre no branco ou preto, não existem nuances. É a morte das ideias, o fim da inteligência.

O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: nunca ninguém reclama de ter recebido pouco, disse o filósofo francês René Descartes no início de seu Discurso do método. Com as ideologias ocorre algo semelhante: nunca ninguém se queixa de ter o juízo distorcido pela própria ideologia. O viés ideológico só afeta os outros. Jamais nos questionamos: será que eu também não estou vendo a realidade? E se
o que para mim é tão óbvio for produto de uma ideologia que não me permite ver diferente? É tão claro e tão evidente que não há espaço para dúvidas – e isso é muito perigoso.

Pluralismo democrático exige confrontação e debate. Em toda sociedade há necessidades contraditórias que precisam ser resolvidas, e a democracia é o sistema de governo que permite encontrar soluções negociadas aos conflitos. Como se distribui a carga de impostos, que impacta na distribuição da renda; se é direito de uma mulher abortar ou se cabe ao Estado a proteção de um feto; se haverá um pacote de ajuda ao grupo mais prejudicado por uma crise ou se irá se apoiar um setor da economia. É necessário estabelecer prioridades entre atividades essenciais: fazer mais hospitais ou mais escolas, melhorar a infraestrutura logística para exportações, promover a ciência, apoiar o desenvolvimento tecnológico… Sociedades mais maduras têm acordos mais estáveis que aquelas onde as tensões ainda precisam de muitos ajustes. Mas o sistema de regulação da democracia é flexível e instável: as tensões nunca desaparecem e, por isso, novas soluções são sempre necessárias. O debate pode ser acalorado e se fazer visível em ruas ocupadas por manifestantes, em greves e em discussões ou até mesmo brigas entre os representantes eleitos no congresso. Essa fricção permanente, que pode parecer ruído e confusão, é a sustentação que mantém vivas as sociedades democráticas. Onde não há debate, os conflitos foram sepultados por uma força maior: a opressão de uma classe, um modelo de controle político ou ambos os fatores combinados. Por isso, democracias saudáveis são barulhentas e dinâmicas, nunca silenciosas ou estáticas.

Em democracia, o debate ocorre entre adversários, nunca entre inimigos. A diferença é sutil e importante. O inimigo não tem legitimidade, é aquele que deve ser aniquilado para que não me aniquile: a sua existência me ameaça, mas sobretudo ameaça o espaço comum e a possibilidade mesma de debater. Já entre adversários há um acordo de preservação daquilo que é compartilhado, do lugar em que o debate ocorre, e há um reconhecimento recíproco que é anterior às diferenças e que precisa ser mantido. (clique aqui e continue a leitura)


Andrés Bruzzone brasileiro nascido na Argentina, é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) com tese sobre Filosofia da Comunicação. Foi jornalista e correspondente em Paris. Fundou e dirigiu meios e empresas de comunicação. Como executivo ou consultor, por mais de 15 anos ajudou empresas de mídia a fazer sua migração para o mundo digital. É CEO e fundador da Pyxys Inteligência Digital, que explora novas formas de comunicação. Velejador oceânico, iniciou em 2018 uma volta ao mundo sozinho no seu veleiro, Endeavour.