por Jaime Pinsky
Carlos Guilherme Mota foi um historiador inquieto e criativo e um professor preocupado com a missão de transmitir conhecimentos. Tinha uma verdadeira obsessão em fazer com que as conquistas intelectuais da geração anterior chegassem aos alunos e para isso buscava, sem cessar, fazer com que esta fosse uma preocupação dos colegas. Para ele, o saber tinha um significado social e não via sentido nos sábios encastelados em questões muito específicas, particularmente no caso de historiadores. Daí por que sua morte cria um vazio difícil de ser preenchido.
Eu o conheci quando começávamos como historiadores profissionais, ele na USP, eu na Faculdade de Assis, então instituto isolado, mas logo depois incorporada à Unesp. O ambiente intelectual e político do país estava corrompido com a presença dos militares, que tomaram o poder graças às armas, não à vontade popular. A sociedade civil tentava sobreviver com o pouco de liberdade que conseguia encontrar, ou produzir, nos espaços possíveis. E a produção intelectual das boas universidades era um desses espaços.
Nesse contexto, Carlos Guilherme tem uma ideia e busca executá-la com a colaboração de importantes historiadores e cientistas sociais. E pede a cooperação dos intelectuais da Faculdade de Assis, onde era conhecido e admirado. Ele é recebido pelos professores do Departamento de História e apresenta seu projeto: um livro de História do Brasil escrito em muitas mãos, propondo uma leitura bem diferente dos acontecimentos, um olhar mais crítico, em estilo direto, acessível não apenas para especialistas, mas para um público mais amplo. Um Brasil em perspectiva, não pronto e acabado, mas em elaboração. Nós nos animamos. Embora eu seja professor de Antiga e Medieval, Carlos Guilherme insiste na minha participação no projeto, que seria lançado publicamente por meio de uma série de palestras no auditório do jornal Folha de S.Paulo e depois seria publicado pela Difel, então uma importante editora. Reluto, mas não posso ficar de fora, aceito o desafio. O livro é um sucesso estrondoso, só se fala dele; é inaceitável não o ler, vende feito água. Carlos Guilherme deixa de ser uma jovem promessa, torna-se um legítimo e merecido “Historiador Brasileiro”. Assim mesmo, com caixa alta.
Fizemos muitas coisas juntos. Não é o caso de exemplificar, mas sempre me prestigiou e eu a ele. Concordamos e discordamos, como amigos de verdade fazem, mas eu entrei em projetos dele, ele entrou em meus projetos, como a revista Debate & Crítica e depois sua sucessora, Contexto, que viria a batizar também a editora que eu criaria depois e hoje é uma realidade a serviço do saber. E Carlos Guilherme está na base de tudo isso.
Descanse em paz. Você merece muito mais do que esta nota singela, mas pelo menos queria registrar que você nos deixou e temos que resolver as coisas sem você daqui pra frente.

