Por Leda Tenório da Motta e Marco Calil
Partindo de nosso livro anterior, Semiótica Francesa: manual de teoria e prática, que tratou da vertente pós-estruturalista do estudo dos signos, nossa nova publicação pela Contexto trata de um período anterior da Semiótica Francesa. Filosofia e Semiótica: Lévi-Strauss, Foucault e Lacan examina as fontes estruturalistas que constituíram um núcleo mais antigo dessa tradição analítica.
Pelo menos na França, a Semiótica consolidou-se como ciência geral dos signos a partir do paradigma da Linguística Estrutural. Por influência desse eixo teórico, focalizou-se a arquitetura dos sistemas de significação, denotando como a experiência da linguagem seria mediada por uma codificação que obedece a lógicas relacionais e autônomas, isto é, a estruturas. A análise semiótica, assim, revelaria que os efeitos superficiais (de percepção, significação e comunicação) remetem à ordenação profunda que os gera.

Esse estilo de pensamento, cujo método privilegia formas abstratas da representação em vez de uma análise imediata do conteúdo material, gerou certa resistência em correntes de pensamento mais vinculadas a perspectivas sociais e materiais. Em especial no Brasil, onde debates de caráter histórico e econômico desfrutavam de grande prestígio, a ascensão do pensamento estruturalista foi por vezes recebida com ceticismo, vista como uma abstração formalista e passageira –uma moda importada da França. Contudo, foi justamente essa virada metodológica que parece ter redefinido as Humanidades a partir dos anos 1960, transformando disciplinas empiricistas em teorias dos sistemas de representação.
Ao sondar as extrações mais históricas da Semiótica Francesa, é importante enfrentar dois entendimentos equivocados. O primeiro consiste em interpretar o chamado “Giro Linguístico” promovido pelo Estruturalismo como uma simples valorização do discurso racional, uma espécie de cartesianismo requentado – e bastante requintado. Muito pelo contrário, seus principais teóricos frequentemente destacaram os limites, as ressalvas e as coerções inerentes à ordem da linguagem e aos jogos de oposição que a constituem. De fato, nem Lévi-Strauss, nem Foucault, nem Lacan eram tão ingênuos a ponto de defender a universalidade de suas discursividades semiótico-estruturais, ao contrário do que fizeram seus leitores ao transformar as opiniões deles em dogma. Outro desses casos é o contexto acadêmico brasileiro, em especial o paulista, no que tange à Semiótica Francesa: a vertente greimasiana desfruta de hegemonia, mas, como demonstra nosso novo livro, não é a única Semiótica Estruturalista. O segundo equívoco a ser corrigido trata da desconstrução da estabilidade nos sistemas de sentido, que, diferentemente do que se pode imaginar, já estava presente no interior do projeto estruturalista mais rigoroso. A atenção meticulosa à lógica interna dos signos conduz à percepção de suas brechas, deslizamentos e excessos. Não é à toa que, por exemplo, Hans-Georg Gadamer teria chamado de “neo-estruturalista” Jacques Derrida, que abordou problemas de ordem estruturalista. Nesse processo, como apresentamos em Filosofia e Semiótica, Derrida comenta, por exemplo, Lévi-Strauss, Foucault e Lacan. A dinâmica própria da significação, baseada em diferenças e oposições, carrega em si o princípio de sua própria instabilidade. Dessa forma, a passagem do Estruturalismo ao Pós-Estruturalismo não representa uma ruptura absoluta, mas um desdobramento e uma radicalização de questões já lançadas.
Desse contexto, pode-se traçar a linhagem estruturalista da Semiótica Francesa. Claude Lévi-Strauss, ao decifrar mitos e sistemas de parentesco como códigos estruturados análogos à linguagem, forneceu o modelo paradigmático de aplicação do método. Sua obra demonstra como a cultura opera como uma gramática cujas regras geram sentido. Da mesma forma, a primeira obra de Michel Foucault, com sua arqueologia dos saberes, expõe as estruturas discursivas que, em cada época histórica, determinam o que pode ser dito, visto e conhecido, e tudo isto sob o signo tanto da Semiologia Médica quanto da Semiótica Lógica, depois Linguística. Já Jacques Lacan, ao postular que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, transplanta a lógica do significante e das relações diferenciais, de origem semiótico-semiológica, para a Psicanálise, ou seja, para o campo da subjetividade e da Teoria da Cultura.
Portanto, as fontes estruturalistas da Semiótica Francesa estão naquele núcleo teórico que buscou isolar e descrever os sistemas de signos regendo a vida social, o conhecimento e o psiquismo. Como manual, Filosofia e Semiótica: Lévi-Strauss, Foucault e Lacan informa o leitor acerca dessas fundações. Na interface entre Filosofia e Semiótica, apresentamos de maneira abreviada as trajetórias, conceitos e métodos desses autores. Por meio da exposição teórica mas também de exercícios práticos, buscamos oferecer um instrumento didático para estudantes e pesquisadores de áreas como Linguística, Comunicação, Filosofia, Antropologia e Psicanálise. Esperamos assim contribuir para o entendimento do aparato analítico que é a Semiótica Francesa, em sua faceta interdisciplinar conhecida como Semiótica Filosófica Estruturalista.
Leda Tenório da Motta é tradutora, crítica literária e professora universitária. Como tradutora literária, destacam-se obras de La Rochefoucauld, Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Francis Ponge e Nina Berberova, abarcando teóricos como Éric Rohmer, Julia Kristeva e Jacques Derrida. Como crítica, tem passagem pelos mais importantes cadernos de cultura brasileiros, como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo. Depois de ter passado pela Unesp como professora de Literatura Francesa, desde 1996 é professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (COS-PUC-SP), além de integrar o Réseau International de Recherche Roland Barthes. Publicou pela Contexto Semiótica Francesa: manual de teoria e prática e Filosofia e Semiótica: Lévi-Strauss, Foucault e Lacan.
Marco Calil é bacharel, licenciado e mestre pela Universidade de São Paulo (USP). Sob orientação de Leda Tenório da Motta, é doutorando pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (COS-PUC-SP), junto ao qual vem atualizando a bibliografia no Brasil em Semiótica, Pós-Estruturalismo e Filosofia Francesa, com destaque para Semiótica Asiática e partes pouco estudadas de Jacques Derrida. Também vem trabalhando na introdução de François Laruelle ao público brasileiro. Publicou pela Contexto Semiótica Francesa: manual de teoria e prática e Filosofia Semiótica: Lévi-Strauss, Foucault e Lacan.

