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Áreas de interesse da Sociolinguística

Áreas de interesse da Sociolinguística

São muitas as áreas de interesse da Sociolinguística: contato entre as línguas, questões relativas ao surgimento e extinção linguística, multilinguismo, variação e mudança constituem temas de investigação na área.

O fenômeno da diversidade linguística em cada sistema é diferente do que entendemos por multilinguismo. Um país pode conviver com mais de uma língua, como é o caso do Brasil: somos plurilingues, pois, além do português, há em nosso território cerca de 180 línguas indígenas, de comunidades étnico-culturalmente diferenciadas, afora as populações bilingues que dominam igualmente o português e línguas do grupo românico, anglo-germânico e eslavo-oriental, como em comunidades multilingues português/italiano, português/espanhol, português/alemão, português/japonês. A linguística volta-se para todas as comunidades com o mesmo interesse científico e a Sociolinguística considera a importância social da linguagem, dos pequenos grupos socioculturais a comunidades maiores. Se cada grupo apresentasse comportamento linguístico idêntico, não haveria razão para se ter um olhar sociolinguístico da sociedade.

Áreas de interesse da Sociolinguística

O papel da mudança linguística é fundamental para os estudos sociolinguísticos. Os problemas teóricos envolvidos referem-se aos processos de encaixamento, avaliação e implementação. Antes de tudo, o linguista deve compreender como se caracteriza uma determinada variação de acordo com as propriedades da língua, verificar seu status social positivo ou negativo, entender o grau de comprometimento do fenômeno variável no sistema e determinar se as variantes em competição acham-se em processo de mudança, seja no sentido de avanço, seja no de recuo da inovação. Em última análise, deve definir se o caso é de variação estável ou de mudança em progresso, conceitos explicitados e ilustrados em alguns capítulos deste livro.

Variantes e variáveis
A variação linguística constitui fenômeno universal e pressupõe a existência de formas linguísticas alternativas denominadas variantes. Enten­demos então por variantes as diversas formas alternativas que configuram um fenômeno variável, tecnicamente chamado de variável dependente. A concordância entre o verbo e o sujeito, por exemplo, é uma variável linguística (ou um fenômeno variável), pois se realiza através de duas variantes, duas alterna­tivas possíveis e semanticamente equivalentes: a marca de concordância no verbo ou a ausência da marca de concordância.

Uma variável é concebida como dependente no sentido que o emprego das variantes não é aleatório, mas influenciado por grupos de fatores (ou variáveis independentes) de natureza social ou estrutural. Assim, as variáveis independentes ou grupos de fatores podem ser de natureza interna ou externa à língua e podem exercer pressão sobre os usos, aumentando ou diminuindo sua frequência de ocorrência.

Vale frisar que o termo “variável” pode significar fenômeno em variação e grupo de fatores. Estes consistem nos parâmetros reguladores dos fenômenos variáveis, condicionando positiva ou negativamente o emprego de formas variantes. As variantes podem permanecer estáveis nos sistemas (as mesmas formas continuam se alternando) durante um período curto de tempo ou até por séculos, ou podem sofrer mudança, quando uma das formas desaparece. Neste caso, as formas substituem outras que deixam de ser usadas, momento em que se configura um fenômeno de mudança em progresso.

Cabe à Sociolinguística investigar o grau de estabilidade ou de mutabilidade da variação, diagnosticar as variáveis que têm efeito positivo ou negativo sobre a emergência dos usos linguísticos alternativos e prever seu comportamento regular e sistemático. Assim, compreende-se que a variação e a mudança são contex­tualizadas, constituindo o conjunto de parâmetros um complexo estruturado de origens e níveis diversos. Vale dizer, os condicionamentos que concorrem para o emprego de formas variantes são em grande número, agem simultaneamente e emergem de dentro ou de fora dos sistemas linguísticos.

Áreas de interesse da Sociolinguística

A partir de um esquema geral, uma classificação da natureza dos fatores atuantes na variação configura-se como se segue. No conjunto de variáveis internas, encontram-se os fatores de natureza fonomorfossintáticos, os semânticos, os discursivos e os lexicais. Eles dizem respeito a características da língua em várias dimensões, levando-se em conta o nível do significante e do significado, bem como os diversos subsistemas de uma língua. No conjunto de variáveis externas à língua, reúnem-se os fatores inerentes ao indivíduo (como etnia e sexo), os pro­pria­mente sociais (como escolarização, nível de renda, profissão e classe social) e os contextuais (como grau de formalidade e tensão discursiva). Os do primeiro tipo referem-se a traços próprios aos falantes, enquanto os demais a características circunstanciais que ora envolvem o falante, ora o evento de fala. Neste livro, aprofundam-se as questões relativas ao comportamento dos grupos de fatores com relação a fenômenos variáveis ou em mudança. Alguns capítulos destinam-se a detalhar didaticamente os aspectos concernentes a algumas das variáveis independentes possíveis que contextualizam os fenômenos variáveis. No entanto, a complexidade dos condicionamentos da variação não permite a previsão de todos os tipos de agentes correlacionados às variantes linguísticas. A explicação didática do efeito das variáveis independentes (ou grupo de fatores) é um artifício aqui utilizado que não reflete evidentemente a atuação simultânea da rede de fatores que interage na variação linguística.


Maria Cecilia Mollica é professora titular em Linguística na UFRJ, pós-doutorada na área (UnB) e pesquisadora nível 1 do CNPq. Coordena o Peul (Programa de Estudos sobre os Usos Linguísticos). Foi presidente da Abralin na gestão 2001-2003. Extensa é sua contribuição teórica e aplicada na área, com ramificações para a Educação Inclusiva e os campos de Saúde, Ciência da Informação, Tecnologia e Inovação. Atua nas pós-graduações e coordena o Polo-UFRJ do Profletras. Tem diversos livros publicados e também assina a coorganização e coautoria de livros, periódicos, capítulos e artigos. Pela Contexto publicou Fala, letramento e inclusão social e coautora Introdução à sociolinguística e Linguagem para formação em letras, Educação e fonoaudiologia, Práticas de Ensino do Português e Sociolinguística, Sociolinguísticas.

Maria Luiza Braga é doutora pela Universidade da Pensilvânia. É professora titular aposentada da UFRJ onde continua atuando como professora colaboradora na pós-graduação. É pesquisadora do CNPq e interessa-se pelos estudos da mudança linguística, particularmente, gramaticalização. É autora dos volumes 2, 4 e 5 da coleção Gramática do Português Culto Falado no Brasil e dos livros Funcionalismo Linguístico Vol. 2 e Linguagem para Formação em Letras, Educação e Fonoaudiologia, além de organizadora do livro Introdução à Sociolinguística.