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A Argentina de cada um | Jaime Pinsky

Brasileiro acha que conhece bem os argentinos. Afinal, nós curtimos Buenos Aires, eles desfrutam de nossas praias e uns e outros praticam a língua comum, o portunhol. Desconfiamos (só desconfiamos, não temos certeza) que ser argentino vai além de amar tango e churrasco, mas nem imaginamos que nossa rivalidade preferencial não é recíproca: eles detestam reconhecer, mas amam os brasileiros. E, ao contrário do que nossos óbvios narradores esportivos pensam, seus adversários preferencias, no futebol e fora dele, não somos nós, são os ingleses. Isso, por sinal, é tão óbvio: enquanto brasileiros viabilizam Bariloche, Mendoza e até Buenos Aires, os ingleses infligiram aos generais argentinos a maior derrota militar que o país lamenta. O povo continua odiando os generais fascistas, mas não perdoa as mortes de jovens argentinos provocada pelo fogo inglês.  

A Argentina de cada um | Jaime Pinsky

Argentinos já ganharam prêmios Nobel (nós ainda não) e o metrô de Buenos Aires, centenário, é prova de que já viveram dias melhores. Ao contrario de nós, ocupar ruas, protestar e fazer barulho batendo em panelas é coisa cotidiana para eles. Seu sistema educacional e sua concentração na capital mostram um povo urbano, culto e politizado, mas a instabilidade política pode ser percebida pela sucessão de líderes populistas, entremeada de golpes militares e poucos presidentes eleitos em muitas décadas. Podemos estranhar as escolhas feitas pelo povo de lá, mas não tenho certeza de que as nossas têm sido, na média, muito melhores. Pra dizer a verdade, isto parece ser um problema americano. E não só sul americano…

O jornalista brasileiro (tem gente que não sabe que ele é paranaense) Ariel Palacios, que vive há tempos em Buenos Aires, conta em seu delicioso livro Os argentinos que nossos vizinhos clamam não apenas fazer o melhor doce de leite do mundo, mas ter inventado esse doce que encanta uns e provoca náuseas em outros. Até aí, tudo bem. Reivindicam também ter desenvolvido a sofisticada caneta tinteiro até ela se transformar em uma banal esferográfica que, sem a nobreza e sofisticação de uma Parker, é mais prática, embora provoque vazamentos incontroláveis em bolsos dos cavalheiros e bolsas das madames. Enfim, uma caneta controversa, como seus supostos inventores.

Porém, doce de leite e caneta esferográfica nós tiramos de letra. O que não aceitamos é quando provocam confronto direto com ícones da brasilidade. Não deviam fazer isso, pois mexem com alguns valores fundamentais de nossa identidade nacional, como música e futebol. Nosso samba, em suas diversas tonalidades, intensidades, velocidade e até ritmo já teve dias melhores, sem dúvida, basta lembrar não só de Carmem Miranda, estrela internacional, mas mesmo os grandes músicos que tivemos no final do século XX. Mas samba é samba, e mesmo quem só se liga em funk defende esse patrimônio nacional. Colocar na arena, para confrontá-lo, o velho e carcomido tango, mesmo o  de Carlos Gardel, parece o mesmo que apresentar uma galinha velha para enfrentar nosso melhor galo de briga. Embora, por justiça, eu deva admitir que Volver e Por una cabeza são obras primas.

O problema se complica quando entramos no futebol. Certo, aqueles que alegaram que Neymar era melhor do que Messi eram míopes, sonhadores ou tinham interesses escusos, mas comparar Maradona com Pelé é inaceitável sob todos os aspectos, a não ser o peso. O craque argentino (tudo bem, merece o título) brilhou em copas do mundo, executou gols que surpreenderam até seus ineptos companheiros. Já Pelé, não só marcou uma era do nosso futebol, como foi exemplo de atleta, mantinha uma incrível regularidade, sem se apresentar como divindade ou herói do Olimpo ocasionalmente visitando a Terra. Nem vale a pena se alongar nesse item, por favor

E olha que sou fã de nossos vizinhos. Admiro a nação que já ganhou cinco prêmios Nobel, admiro a nação que produz um cinema de alta qualidade, fico maravilhado ouvindo músicos de origem argentina (embora hoje vivam em outros países) como Marta Argerich e Daniel Baremboim, e me envolvo com seus escritores fantásticos. Buenos Aires pode não ser aquela de décadas atrás, mas ainda é uma cidade fascinante e por lá a tradição de trocar ideias é levada a sério. Se o leitor não for para a Argentina apenas para comer carne, beber vinho e comprar o que encontrar pela frente a preços (ainda) baixos, vai  ficar maravilhado com a capital europeia mais próxima do Brasil, que é Buenos Aires. Não somos concorrentes, somos complementares.

Viva a diferença.


Jaime Pinsky é historiador e editor. Completou sua pós-graduação na USP, onde também obteve os títulos de doutor e livre-docente. Foi professor na Unesp, na própria USP e na Unicamp, onde foi efetivado como professor adjunto e professor titular. Participa de congressos, profere palestras e desenvolve cursos. Atuou nos EUA, no México, em Porto Rico, em Cuba, na França, em Israel, e nas principais instituições universitárias brasileiras, do Acre ao Rio Grande do Sul. Criou e dirigiu as revistas de Ciências Sociais, Debate & Crítica e Contexto. Escreve regularmente no Correio Braziliense e, eventualmente, em outros jornais e revistas.

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