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8 de setembro (1941) | O Cerco de Leningrado

8 de setembro (1941) | O Cerco de Leningrado

O Cerco de Leningrado foi um cerco militar à então cidade de Leningrado (atualmente, São Petersburgo), na então União Soviética (atualmente, Rússia), pelas tropas da Alemanha Nazista, Itália e Finlândia durante a Segunda Guerra Mundial. Durou cerca de 900 dias. Foi um dos cercos mais longos e destrutivos da história das guerras.


“Quem não a conheceu a conhecerá um dia. Quem a conheceu jamais a esquecerá.”

O Cerco de LeningradoÉ tentador apresentar a fortaleza de Schlüsselburg – a “bastilha russa” – por esse provérbio sobre a prisão, citado pelo francês Jacques Rossi, especialista em gulag, se é que isso existe, por ter passado 18 anos – de 1937 a 1955 – nas penitenciárias siberianas e que, no momento do cerco a Leningrado, ainda ali definhava.

Construída numa ilhota no meio das ondas, rodeada de torres redondas e gigantescas muralhas em arco, a fortaleza é russa desde que o czar Pedro I arrancou-a dos suecos em 1702, tornando-se, quase ao mesmo tempo, uma das prisões políticas mais tristemente célebres da Rússia.

Em 5 de setembro de 1941, quando Hitler aceitou uma ofensiva sobre Moscou pelo Grupo de Exércitos Centro reforçado, ao Grupo de Exércitos Norte coube finalizar o cerco de Schlüsselburg às margens do lago Lagoga. Por um lado, a fortaleza – encimada por um campanário em cuja extremidade brilha uma chave dourada “parecendo dizer que uma vez trancado ali era impossível sair” –, segundo Vera Figner, faz tremer os soviéticos ao ser mencionada. Por outro lado, os alemães que partiram de Novgorod em final de agosto de 1941 ignoraram, em sua maioria, sua terrível reputação ou até mesmo sua existência. Para eles, Schlüsselburg não é uma fortaleza, mas uma cidade do continente, situada não longe de Leningrado, no local mais largo do Neva, onde se encontra com o lago Ladoga, uma cidade-chave por sua posição estratégica.

É ao general alemão Harry Hoppe – um verdadeiro sósia do comediante Stanley Laurel (o inseparável companheiro de Hardy) – que cabe o essencial da operação de Schlüsselburg. Ele é associado ao grupo do conde Schwerin. Os dois procuram a falha onde devem penetrar, Mga, muito disputada, e Kelkolovo caem, depois é a vez de Godorok, ramificação da linha férrea industrial que leva a Mga e Schlüsselburg. Associados a outras unidades, os comandos de Brandenberger, avançando através da floresta, chegam a Mga e ao Neva, em Ivanovskoie, no fim do mês de agosto. Hoppe e Schwerin tomam Mga em 31 de agosto. A última estação de trem que permitia a Leningrado comunicar-se com o exterior. Em 8 de setembro, a armadilha se fecha, o cerco de Leningrado é realizado pelas bordas do Báltico às do lago Ladoga.

Hoppe ataca Schlüsselburg um pouco antes das 7h, e em menos de uma hora após o início do ataque, a bandeira alemã flutua na ponta do campanário da igreja. Num cúmulo de eficácia, os bombardeiros Stukas que deveriam desencadear o ataque não atiram nos soldados da infantaria alemães.

Schlüsselburg abre três portas: a via Báltico/Volkhov, passando por Leningradp e pelo lago Onega; a estrada mar Branco/mar de Gelo até Murmansk e Arkhangelsk; a passagem Leningrado/Moscou através da represa de Rybinsk e do canal do Moskova no Volga. Hoppe recebe a cruz de ferro. A tomada de Schlüsselburg corta as comunicações terrestres da cidade com o resto da URSS. Sua sobrevivência passa por poucos quilômetros, através do lago Ladoga. Uma vez tomada Schlüsselburg, se os finlandeses decidirem prosseguir a ofensiva e aliar-se aos alemães, Leningrado cairia, mas foi o dia que escolheram para deter seu ataque.

Em 8 de setembro às 18h45, no mesmo dia da tomada de Schlüsselburg, aconteceu um ataque aéreo sobre Leningrado com uma potência jamais vista até então. Numa única saída, os bombardeiros da Luftwaffe, em formação cerrada, despejaram sobre a cidade milhares de bombas incendiárias que provocaram numerosos incêndios, entre os quais o dos entrepostos Badaiev e da fábrica de manteiga “Estrela Vermelha”. Os nazistas, pouco econômicos ao lançar bombas explosivas e projéteis incendiários, não as jogam ao acaso. Evidencia-se que os voos de reconhecimento dos meses e das semanas precedentes não foram em vão.

Naquela noite, tendo chegado de Moscou havia duas semanas para encontrar seu marido médico, nomeado diretor do hospital Erisman, a poetisa Vera Inber assiste, com alguns amigos, a uma opereta de Richard Strauss, O Morcego, que está em cartaz na Comédia Musical, a dois passos da Philharmonie. Autora também de um testemunho único sobre o cerco de Leningrado, O Meridiano de Pulkovo, ela registra em seu Diário as condições excepcionais do espetáculo. Depois de um “alerta tradicional”, o administrador do estabelecimento articula distintamente: “Pede-se aos cidadãos para ficarem o mais próximos possível das paredes, tendo em vista que não temos abrigo.” Disciplinados e prudentes, os espectadores obedecem durante cerca de quarenta minutos, ouvindo, ao longe, o barulho das explosões e dos tiros de DCA. “Após o final do alerta”, acrescenta ela, “o espetáculo continua, mas num ritmo acelerado, com supressão das árias e dos duos de importância secundária”. Na saída, os espectadores percebem, na luz azulada da noite, o clarão dos incêndios. O motorista de Vera a avisa: “O alemão jogou bombas e incendiou os grandes depósitos de alimentação.” Chegando em casa, da sacada de sua moradia situada não longe do Jardim botânico, ela observa os estoques que se consomem no outro lado da cidade. “Essa sinistra fumaça que subia, tão pegajosa, tão espessa e tão pesada, eram o açúcar, a farinha, a manteiga que queimavam.”

Durante horas, e mesmo dias, o cheiro de caramelo queimando e de fritura pairou sobre Leningrado. Mais tarde, no momento da escassez absoluta, formou-se uma brigada para recuperar os resíduos ainda comestíveis da catástrofe – placas marrons, cortadas em pequenos pedaços e vendidas por unidade.

Consequência psicológica grave, esse incêndio dá origem a uma lenda segundo a qual “importantes recursos estratégicos de víveres” foram destruídos, explicando (e mesmo desculpando) a fome terrível infligida à cidade nos meses seguintes. Na verdade, esse incêndio só destrói as reservas de açúcar previstas para três dias (2 mil e 500 toneladas) e as de farinha por um dia e meio (3 mil toneladas). Para a famosa fábrica de manteiga “Estrela Vermelha” que aplica ao pé da letra as prescrições escrupulosas do professor M. Goraiev, encarregado da cátedra de bioquímica do leite no Instituto dos Engenheiros da Indústria Leiteira em Leningrado e que trabalha sobre a viscosidade da manteiga em função da temperatura (!), os estragos são irreparáveis.

Três dias depois, os tiros de artilharia alemães são retomados, acompanhados de ataques aéreos. Não menos de 60 bombas explosivas e 1794 bombas incendiárias se abatem sobre a cidade. Os alertas se sucedem, precipitando os habitantes da cidade em abrigos ou surpreendendo-os antes que possam se refugiar em algum lugar. Cada vez mais a cidade compreende que só vai poder contar consigo mesma, e que está isolada do restante do mundo.


Pierre Vallaud é historiador, especialista em história contemporânea e em guerras do século XX. Antigo diretor do Centro de Estudos Estratégicos (CERGES) da Universidade Saint-Joseph, é autor de diversas obras sobre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Argélia e a Guerra Fria.