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As origens das civilizações e do patriarcado

As origens das civilizações e do patriarcado

por Peter N. Stearns em História das Relações de Gênero, publicado pela Editora Contexto

Por volta do quarto milênio a.e.c., um número de sociedades estava começando a mudar para a fase de organização conhecida por “civilização”. Embora os contatos entre diferentes grupos fossem virtualmente tão velhos quanto a existência da espécie humana, a maior parte das civilizações antigas vivia de certa forma separada. A civilização mesopotâmica, que surgiu depois de 3500 a.e.c., diferia da civilização egípcia, que emergiu logo depois no norte da África, não muito distante do sul. Por volta do quarto milênio a.e.c., também, a maior parte das sociedades agrícolas tinha desenvolvido novas formas de desigualdades entre homens e mulheres, num sistema geralmente chamado de patriarcal – com o domínio de maridos e pais. As civilizações, de uma forma geral, aprofundaram o patriarcado e, ao mesmo tempo, definiram seus detalhes de formas distintas que combinavam com crenças e instituições mais amplas de cada civilização em particular. Nesse sentido, pondo um selo próprio no patriarcado, cada civilização uniu as questões de gênero com aspectos de sua estrutura cultural e institucional. Este capítulo, preparando o terreno para o estudo
do impacto de contatos de convívio social sobre sistemas de gênero, dedica-se a estudar vários aspectos: civilizações, contatos, patriarcado e certos patriarcados e exceções.

A sociedade humana começou na base de pequenos grupos de pessoas, em bandos de caçadores e coletores. Com essa estrutura, as pessoas se espalharam nas áreas mais habitáveis do mundo por volta de 12000 a.e.c. Depois, por volta de 10000 a.e.c., a agricultura foi introduzida no norte do Oriente Médio, mudando radicalmente a estrutura da vida humana nas regiões em que se estabeleceu.

À medida que a agricultura se espalhou, muitas sociedades formaram padrões de moradia mais estáveis, embora importantes grupos continuassem a caçar e coletar ou se apoiassem na criação nômade de animais, como ocorreu em largos trechos da Ásia Central. A agricultura permitiu a geração de um excedente de produção com relação às necessidades imediatas. A partir desse excedente, um pequeno número de pessoas pôde se especializar em atividades não-agrícolas, como artesanato, religião e governo.

Os aprimoramentos na produção agrícola foram graduais, mas, por volta de 4000 a.e.c., novamente no Oriente Médio e arredores, uma importante série de invenções introduziu novas mudanças lideradas pela invenção da roda e o uso de metais, particularmente o bronze. Em decorrência disso, por volta de 3500 a.e.c., a primeira civilização foi formada na Suméria, no vale entre o rio Tigre e o Eufrates. Isso foi logo seguido pelo estabelecimento de civilizações em outros centros localizados em vales, como ao longo do Nilo na África, do rio Indo no noroeste da Índia e do rio Amarelo na China. As civilizações diferiam de outros tipos de sociedades agrícolas no fato de terem governos formais, no lugar de lideranças menos explícitas e diferenciadas. Apoiavam-se em cidades, embora só uma minoria vivesse ali. Estimulavam o comércio. A maioria delas, também, tinha a escrita, o que facilitava atividades burocráticas e comerciais.

O estabelecimento da civilização também fez avançar uma tendência a enfatizar as diferenças das instituições e formas culturais, destinadas a promover alguma unidade dentro do grupo e diferenciá-lo do mundo exterior. Dessa forma, quase todas as civilizações desenvolveram um pronunciado sentido de quão diferente eram dos “outros” – a quem os gregos chamariam de bárbaros. Embora nem todas as civilizações tenham se expandido muito, houve uma tendência expansionista a fim de somar recursos e aliviar a pressão populacional. Com a expansão, surgiu uma necessidade óbvia de identificar algumas características comuns – tanto em termos de idioma, religião ou estilo político – que manteriam o território e as populações (muitas vezes diferentes) juntos. Cada civilização desenvolveu algo de próprio. O Egito enfatizou uma forte monarquia, definiu uma preocupação com a vida após a morte e uma arte alegre e colorida. A Mesopotâmia, mais sujeita a desastres naturais e instabilidade política, colocou menos realce num governo único e central; sua religião era mais pessimista, apoiada em punições na outra vida. Por outro lado, a Mesopotâmia introduziu um interesse maior pela ciência.

O período inicial da civilização, nos quatro centros afro-eurasianos, estendeu-se até cerca de 1000 a.e.c., ponto em que muitos tinham se desestruturado ou enfraquecido, com freqüência em face de uma nova ordem de invasões de grupos nômades, como as tribos indo-européias da Ásia Central. Seguiu-se um período clássico na história das civilizações. No Mediterrâneo (envolvendo o norte da África, o oeste da Ásia e o sul da Europa), na Índia e na China, complexos civilizatórios maiores começaram a emergir a partir de 800. As civilizações clássicas expandiram seus aparatos culturais, políticos e comerciais. O comércio interno aumentou, permitindo a regiões diferentes de cada civilização se especializarem. Governos mais ambiciosos constituíram impérios. A China promoveu a tradição imperial mais duradoura, mas impérios foram importantes também na Índia, na Grécia e principalmente em Roma. Afirmações de valores culturais-chave – hinduísmo e budismo na Índia, confucionismo e daoísmo na China, religiões civis mas também filosofia secular na Grécia e em Roma – ajudaram a cimentar o arcabouço cultural. Essas culturas ofereciam certa unidade, ao menos nas classes altas, perpassando a sociedade: os bem-nascidos chineses podiam falar e escrever a mesma língua e participar de um sistema filosófico comum. As culturas e instituições compartilhadas também ajudaram a expandir o sentimento de identidade, de estar apartado das outras sociedades.

El Patriarca Abraham

À medida que as economias agrícolas e depois as civilizações se formaram, continuaram os contatos de vários tipos. Uma vez que a espécie humana migrou com tanta freqüência, os contatos e as trocas se tornaram virtualmente endêmicos. Por meio deles, bem antes do período clássico, várias áreas ganharam acesso a novos tipos de alimentos, não naturais da região, e a novas tecnologias – incluindo agricultura e trabalho com metais. As migrações e as invasões periódicas de grupos nômades forneceram uma fonte de contatos. O comércio foi outra fonte. Bem antes do período clássico, as rotas de comércio se estenderam da China através da Índia e Ásia Central até o Oriente Médio e o Mediterrâneo; esse percurso todo ficou conhecido como a Rota da Seda, por ser a seda a principal mercadoria comercializada. Ao mesmo tempo, o impacto de muitos contatos foi bastante limitado. Pessoas muito ricas na região mediterrânea gostavam da seda chinesa – tecido favorito no Império Romano, por exemplo –, mas não sabiam nada sobre a China, uma vez que não se faziam viagens diretas. O comércio ocorria por meio de etapas.

A maior parte dos avanços em uma civilização se mantinham internos, exatamente como o comércio. As restrições decorriam não só de uma considerável suspeita com relação aos forasteiros, mas também da lentidão das viagens de longa distância sempre tão arriscadas, o que limitava a extensão e o impacto das trocas. As grandes civilizações clássicas raramente tinham contato imediato entre si. A maior parte tinha ao redor de si uma “zona de amortecimento” habitada por nômades ou por povos agrícolas menos organizados. Assim, tanto o Oriente Médio quanto o Egito, e depois a região mediterrânea clássica, estabeleceram ligações com o centro em desenvolvimento ao longo do alto Nilo na África subsaariana, que se chamava Kush. A China, sob a dinastia Han, tinha alguma influência na Coréia e no Vietnã. A Índia, a sociedade de comércio mais ativa, fazia trocas com várias partes do sudeste da Ásia, incluindo a atual Indonésia.

O único exemplo importante de contato direto entre as maiores civilizações clássicas antes do final dos séculos da Era Clássica depois de 300 e.c. envolveu as conquistas no século IV e.c. de Alexandre, o Grande, no Oriente Médio, na Pérsia e no noroeste da Índia. Um reino sob influência da cultura grega – Báctria – foi estabelecido nessa parte da Índia por mais de um século. A partir dessa permuta incomum, a Índia, durante algum tempo, imitou estilos artísticos helenísticos, com estátuas de Buda vestidas com roupas de estilo mediterrâneo. A Índia também utilizou alguns conceitos matemáticos desenvolvidos na Grécia.

Além disso, a troca encorajou regentes indianos posteriores a pensar em enviar emissários budistas para o Oriente Médio. Ali eles não conseguiram conversões, mas possivelmente introduziram conceitos éticos que haveriam de influenciar os sistemas filosóficos como os estóicos e, por intermédio deles, o cristianismo. Esse foi um resultado importante, mas de forma geral o contato, excepcional a princípio, teve poucas consequências duradouras. As próprias civilizações foram influenciadas por trocas internas – como as “religiões misteriosas” que se espalharam para o oeste do Egito e Oriente Médio no Império Romano, ou o impacto crescente das instituições do Norte da Índia, incluindo o hinduísmo e o sistema de castas, no sul da Índia. No entanto, as mais características formas políticas e culturais de cada civilização permaneceram separadas: o confucionismo era chinês, o hinduísmo (exceto por uma pequena incursão no sudeste da Ásia) era da Índia etc.

À medida que as civilizações se desenvolveram, a partir dos contatos e das limitações das trocas, os sistemas de gênero – relações entre homens e mulheres, determinação de papéis e definições dos atributos de cada sexo – foram tomando forma também. Por fim, essa evolução haveria de se entrelaçar com a das civilizações.

O deslocamento da caça e coleta para a agricultura pôs fim gradualmente a um sistema de considerável igualdade entre homens e mulheres. Na caça e na coleta, ambos os sexos, trabalhando separados, contribuíam com bens econômicos importantes. As taxas de natalidade eram relativamente baixas e mantidas assim em parte pelo aleitamento prolongado. Em conseqüência disso, o trabalho das mulheres de juntar grãos e nozes era facilitado, pois nascimentos muito freqüentes e cuidados com crianças pequenas seriam uma sobrecarga. A agricultura estabelecida, nos locais em que se espalhou, mudou isso, beneficiando o domínio masculino. À medida que os sistemas culturais, incluindo religiões politeístas, apontavam para a importância de deusas, como geradoras de forças criativas associadas com fecundidade e, portanto, vitais para a agricultura, a nova economia promovia uma hierarquia de gênero maior. Os homens agora eram responsáveis, em geral, pela plantação; a assistência feminina era vital, mas cabia aos homens suprir a maior parte dos alimentos. A taxa de natalidade subiu, em parte porque os suprimentos de alimentos se tornaram um pouco mais seguros, em parte porque havia mais condições de aproveitar o trabalho das crianças. Essa foi provavelmente a razão principal de os homens assumirem a maior parte das funções agrícolas, já que a maternidade consumia mais tempo. Dessa forma, as vidas das mulheres passaram a ser definidas mais em termos de gravidez e cuidados de crianças. Era o cenário para um novo e penetrante patriarcalismo.

Nas sociedades patriarcais, os homens eram considerados criaturas superiores. Tinham direitos legais que as mulheres não possuíam (embora as leis protegessem as mulheres de alguns abusos, pelo menos no princípio). Assim, o Código de Hamurabi, na Mesopotâmia, a partir do segundo milênio e.c., estabelecia que uma mulher que não “tenha sido uma dona-de-casa cuidadosa, tenha vadiado, negligenciado sua casa e depreciado seu marido” deveria ser “jogada na água”. Não havia contrapartida disso para os homens, embora o código estabelecesse que a esposa poderia abandonar o marido se ele não provesse suas necessidades.

Muitas sociedades agrícolas impediram as mulheres de possuírem propriedade de forma independente. Muitas permitiam que os homens tivessem várias mulheres (se pudessem sustentá-las). A maior parte punia as ofensas sexuais das mulheres – por exemplo, o adultério – muito mais severamente do que as dos homens. De fato, alguns historiadores argumentaram que uma justificativa-chave para a existência do patriarcado era garantir, com o máximo de certeza possível, que os filhos de uma mulher fossem do marido. Dada a importância da propriedade em sociedades agrícolas (em contraste com as de caça e coleta), os homens sentiam necessidade de controlar a herança de gerações futuras, e isso começou regulando a sexualidade das esposas.

Outros indícios eram igualmente importantes. Havia preferência por filhos em vez de filhas. Muitas famílias adotaram o infanticídio para ajudar a controlar a taxa de natalidade, eliminando as meninas com mais freqüência. Culturalmente, os sistemas patriarcais enfatizavam a fragilidade das mulheres e sua inferioridade. Insistiam nos deveres domésticos e algumas vezes restringiam os direitos das mulheres a aparecerem em público.

O alcance do patriarcalismo foi poderoso e extenso. Muitas mulheres ficaram tão intimidadas e isoladas pelo sistema que formas de protesto se tornavam improváveis – embora algumas mulheres pudessem obter certa satisfação em manipular seus maridos e filhos ou em dar ordens a mulheres inferiores no ambiente doméstico.

HISTORIA-DAS-RELACOES-DE-GENEROA desigualdade das mulheres tendeu, além do mais, a aumentar com o passar do tempo, à medida que as civilizações agrícolas se tornavam mais bem-sucedidas. A lei judaica, surgida um pouco depois do Código de Hamurabi, era mais severa no tratamento da sexualidade das mulheres ou de seu papel público. Em outras partes do Oriente Médio, surgiu o uso do véu quando as mulheres estivessem em público, como sinal de sua inferioridade e de seu pertencimento a pais e maridos. A deterioração dos papéis das mulheres na China apareceu com o costume de enfaixar os pés, sob a dinastia Tang, depois que terminou o período clássico; os pequenos ossos dos pés das meninas eram quebrados para impedir que andassem com facilidade, e o jeito desajeitado de andar que resultou disso era recebido como sinal de beleza e modéstia respeitável. Pressões desse tipo existiam principalmente sobre mulheres da classe alta, em que as famílias tinham condições econômicas para dispensar o trabalho produtivo feminino; essas pressões tenderam a se espalhar, e ter um impacto simbólico mais amplo. O costume chinês de enfaixar os pés terminou apenas no início do século XX.

As razões da tendência à deterioração em civilizações estabelecidas envolveram o crescimento do poder de governos dominados por homens, que levaram à redução do papel político informal exercido pelas mulheres dentro das famílias. O fator-chave, no entanto, foi uma prosperidade, em particular para a classe alta, que permitiu enfatizar o papel ornamental das mulheres em detrimento de papéis práticos.

A força do patriarcado caiu sobre as mulheres, mas obviamente afetou também definições de masculinidade. Os homens, independentemente da personalidade de cada um, deveriam assumir seus papéis de dominantes. Deviam evitar mimar as mulheres, especialmente em público. Com freqüência, precisavam estar prontos a assumir deveres militares ou de outro tipo de liderança e, em princípio, eram evidentemente responsáveis pela sobrevivência econômica da família. Em muitos casos, os filhos mais velhos eram privilegiados de maneira particular, mesmo entre os homens, pois o patriarcado poderia estabelecer uma hierarquia e lhes entregar o poder total sobre a família. Algumas sociedades autorizavam outras categorias para
os homens, tolerando-lhes comportamentos ou vestimentas mais próprios de mulheres, ou mesmo orientação homossexual. Outros grupos de homens podiam ser selecionados: em algumas religiões os sacerdotes deveriam evitar o sexo, enquanto os homens que supervisionavam esposas e concubinas da corte de um governante (e que por vezes alcançavam considerável poder político em parte porque não podiam ter filhos para não confundir com a prole do rei ou imperador) podiam ser castrados, como eunucos – um testemunho algo desajeitado da ênfase na sexualidade masculina.

A ascensão e o aprofundamento dos sistemas patriarcais de relações de gênero formaram parte do mesmo processo que gerou economias agrícolas que substituíram a caça e a coleta e, depois, em muitas delas, um leque organizacional característico de civilizações. A agricultura e, depois, a civilização aprofundaram progressivamente as desigualdades entre homens e mulheres. Apesar disso, um ponto é crucial, e foi bem estabelecido durante o período inicial de civilização da história mundial: os sistemas patriarcais variaram muito, e os sistemas nunca foram de fato universais. A mesma ênfase na diversidade das instituições culturais e políticas globais que as civilizações forjaram em seus períodos de gestação aplicava-se às idéias sobre homens e mulheres e seus papéis.

Aqui há dois pontos principais. Em primeiro lugar, a agricultura e a civilização não envolveram todos os grupos populacionais principais, mesmo no final do período clássico. De particular importância foi o estabelecimento de grupos pastoris nômades, ou grupos – como muitas tribos indígenas nos Estados Unidos – que combinaram caça e agricultura transitória de corte e queimada. Muitas dessas sociedades simplesmente não estabeleceram as condições que geravam o patriarcado. Podiam enfatizar algumas diferenças agudas entre homens e mulheres – por exemplo, pressupondo que os homens tinham responsabilidade particular pela guerra ou por façanhas a cavalo –, mas com freqüência não instituíram o tipo de desigualdade sistemática característica das civilizações mais importantes. O confinamento doméstico das mulheres, por exemplo, foi limitado pelo fato de grupos nômades não estabelecerem moradias permanentes elaboradas. A existência de alternativas ao patriarcado pleno obviamente deu margem a um grande número de possibilidades complexas quando, por exemplo, valores de gênero de um grupo nômade se viram frente a frente com os de uma civilização patriarcal.

O segundo ponto envolve uma variação significativa entre as próprias sociedades patriarcais. Nem sempre é claro por que elas diferem – assim como é difícil explicar por que a sociedade indiana clássica acabou enfatizando a religião mais do que a chinesa, ou por que a Grécia e a China diferiram em suas definições de ciência. Uma vez que as diferenças foram desencadeadas, na questão do gênero e em outras, elas tenderam a persistir. As comparações são sutis: todas as civilizações dos vales e clássicas eram patriarcais, mesmo quando impunham papéis e culturas específicas diferentes. As semelhanças e as diferenças podiam ser igualmente importantes.

As primeiras civilizações dos vales, próximo do Egito e da Mesopotâmia, ilustraram com clareza o potencial de diferenças que havia dentro do patriarcado. Enquanto a Mesopotâmia realçava a inferioridade das mulheres e sua sujeição ao controle masculino, a civilização egípcia dava a elas mais crédito, ao menos nas classes altas, e vivia a experiência de várias rainhas poderosas. A bela Nefertiti, como esposa do faraó Aquenaton, influiu em disputas religiosas durante seu reinado. Mais tarde, Cleópatra desempenhou um papel poderoso, embora abortado, como rainha egípcia, lutando para modificar os controles do Império Romano. As mulheres eram também retratadas com esmero na arte egípcia, e as providências para seu enterro podiam ser elaboradas (embora nunca rivalizassem com as de homens poderosos). Tanto mulheres como homens podiam se tornar estrelas no corpo da deusa celeste Nut, uma maneira em que a vida após a morte se manifestava. Não havia dúvida sobre o patriarcado egípcio. Um escritor egípcio, Ptah Hotep, deixou isso claro, por volta de 2000 a.e.c., ao escrever que, “se você for um homem de reputação, busque uma mulher de família, e ame sua mulher em casa, como convém. Alimente-a, vista-a… mas não deixe que ela domine”. Entretanto, no cotidiano e no social, o sistema egípcio diferia.

Nem todas as sociedades agrícolas permitiam a poligamia; a Índia diferia da China e do Oriente Médio. Algumas sociedades traçavam a descendência das crianças a partir da mãe – como na lei judaica – em vez do pai. Isso não evitava a desigualdade, mas dava à maternidade uma importância cultural e legal maior.

hamurabi

Os códigos legais podiam variar muito em função dos direitos de propriedade da mulher ou sua capacidade em abandonar um casamento infeliz. Representações culturais variavam ampla-mente. Em algumas religiões, as deusas desempenhavam um papel poderoso e vital, ao passo que em outros sistemas culturais os princípios masculinos dominavam inteiramente. A China, sem tanta ênfase na religião, oferecia escape menos simbólico para as mulheres do que a Índia, com seu forte interesse nas figuras das deusas, ou o Mediterrâneo, com seu politeísmo diversificado em termos de gênero.

As variações afetavam também os homens. Sociedades com religiões fortes, como a Índia, podiam ter em alta conta sacerdotes e figuras masculinas sagradas, em contraste com sociedades como as do Mediterrâneo clássico, que tendiam a enfatizar as qualidades militares e atléticas como ideais para os homens. As abordagens da homossexualidade ou da bissexualidade variavam. Na Grécia e em Roma, homens da alta classe, com freqüência, escolhiam garotos como protegidos e amantes. Isso não entrava em conflito com papéis familiares normais.

As diferenças possíveis de sistemas patriarcais foram mostradas claramente nas três principais civilizações clássicas. A China instituiu o mais completo patriarcado, como parte da ênfase de Confúcio na hierarquia e na ordem. O homem na família era, em princípio, como o imperador na sociedade: ele governava. As mulheres eram instadas a ser subservientes e eficientes nas habilidades domésticas.

Ban Zhao foi uma mulher influente, que, apesar de sua posição ou talvez por causa dela, escreveu um manual clássico do patriarcado sobre seu sexo (em algum momento do primeiro século da era comum; ele se tornou o manual para mulheres mais duradouro da China, tendo sido republicado até o século XIX). Seu conselho: “Humildade significa prestar obediência e agir com respeito, colocando os outros em primeiro lugar… suportando insultos e aguentando maus-tratos… Prosseguir nos sacrifícios significa servir a seu amo e senhor com maneiras adequadas”. A ocupação diligente com os deveres domésticos e a concepção de filhos homens envolvia as vidas das mulheres bem-sucedidas, de acordo com o sistema chinês.

O sistema da Índia contrastava com esse. As mulheres eram consideradas inferiores; os pensadores indianos discutiam (sem chegarem a um acordo) se a mulher teria de ser reencarnada como homem a fim de avançar espiritualmente, caso tivesse levado uma vida digna, ou se ela poderia prosseguir diretamente para um domínio mais elevado. Os casamentos eram arranjados com cuidado pelos pais para assegurar os objetivos maiores da família, geralmente quando as meninas e os meninos eram bem jovens. Das mulheres se esperava que servissem aos pais e depois aos maridos fielmente. Em contraste com a China, no entanto, a cultura da Índia valorizava a inteligência e a beleza das mulheres.

Amor e afeição mereciam muito crédito, o que poderia ligar mulheres e homens informalmente, apesar da desigualdade básica. As futuras mães eram cercadas de solicitude. A ênfase no confinamento doméstico das mulheres também era menor na Índia clássica.

A civilização clássica no Mediterrâneo apresentou ainda um terceiro caso. Uma forte ênfase no racionalismo na filosofia e na ciência forjou uma tradição de distinguir traços intelectuais, considerados masculinos, e traços mais emocionais e menos mentais, atribuídos às mulheres. Pensadores gregos apregoavam um bom tratamento para a mulher, ao mesmo tempo em que reforçavam sua inferioridade e seus papéis altamente domésticos. A atuação pública, assim como papéis atléticos, eram reservados aos homens.

Estuprar uma mulher livre era crime, mas merecia punição menor do que seduzir uma esposa – pois isso envolvia conquistar a afeição e lealdade que ela devia ao marido. No entanto, algumas mulheres possuíam propriedade; sua presença pública era maior do que na China. E as condições melhoraram no período helenístico, pelo menos na alta classe, com a participação das mulheres em atividades culturais e comerciais (embora sob a guarda masculina).

Além do mais, em Roma, as condições das mulheres novamente se aprimoraram com o tempo – desafiando o padrão geral (embora houvesse um retorno subseqüente depois do primeiro século da era comum, sob o Império). A sociedade romana em seus primórdios impunha duras punições sobre as mulheres, por exemplo por contravenções sexuais. “O marido é o juiz da esposa.

Se ela comete uma falta, ele a pune; se ela bebeu vinho, ele a condena; se ela cometeu adultério, ele a mata.” As regras das leis romanas posteriores, no entanto, somadas a um desejo de encorajar a estabilidade da vida familiar, trouxeram alguns aprimoramentos.

Os poderes do marido foram substituídos pelo estabelecimento de cortes de família, compostas de membros tanto da família de origem da esposa quanto do marido, em casos de disputa ou acusação. As mulheres eram livres para aparecer em público e participar da maioria dos entretenimentos. Ainda que elas fossem punidas por adultério com a perda de um terço de suas propriedades, a punição era relativamente suave comparada com outras civilizações patriarcais. Por fim, a literatura romana, assim como a grega, registrou inúmeras histórias de deusas ativas e extravagantes, assim como deuses.

Em suma: a variação coexistiu com o patriarcado, antes e durante o período clássico, sendo que algumas sociedades importantes escaparam inteiramente ao patriarcado. As diferenças afetaram definições e papéis masculinos, ocorrendo o mesmo com relação às mulheres. As tendências ao longo do tempo também diferiram.

Aqui houve um contexto fértil para o complexo impacto dos contatos culturais, ocasião em que sociedades diferentes adquiriram conhecimento mútuo. Precisamente porque o patriarcado gerava tensões nos relacionamentos entre homens e mulheres, com os homens ansiosos por preservar o domínio, mas algumas vezes incertos sobre como isso funcionaria num cenário familiar, e com as mulheres em geral evitando protestar, mas não necessariamente muito felizes com a parte que lhes cabia, o conhecimento ou o suposto conhecimento de como outra sociedade lidava com questões de gênero poderia ter resultados poderosos. Seria fácil, em particular para os homens que muito provavelmente experimentariam os resultados das trocas por meio do comércio ou da guerra, usar os contatos para tentar confirmar a correção de seus próprios arranjos e, portanto, exagerar ou distorcer os padrões de gênero na outra sociedade. O fato de o patriarcado ser bastante sólido sugere que apenas contatos prolongados (o que não era usual) dariam acesso à novos padrões. No entanto os contatos poderiam causar rompimentos; poderiam sugerir opções e alternativas. Os padrões patriarcais diferiam o suficiente de uma sociedade a outra, para tornar o contato potencialmente causador de rompimentos quando ocorriam confrontações entre as sociedades nômades e as civilizações estabelecidas.

Nem o período das civilizações dos vales nem o período clássico mais rico em evidências enfatizaram a importância do contato com padrões diferentes; o foco se deteve em construir sistemas separados, incluindo sistemas patriarcais, e integrar diversos povos por meio desse processo. A maior parte dos povos não tinha qualquer consciência de que outras sociedades poderiam fazer coisas de forma diferente, mas as trocas entre sociedades, embora raras, realmente existiam, incluindo viagens ocasionais fora dos limites familiares. Por essas trocas, por sua vez, podemos ter um primeiro lampejo das possíveis reações: como culturas que lutaram para definir os papéis de gênero como um componente importante da ordem social lidavam com evidência ocasional de que outros arranjos eram possíveis?

Ao fim do período clássico, a possibilidade de troca estava esquentando. Problemas com o sistema político, particularmente em Roma e na China, abriram novas possibilidades de contatos, tanto por meio de invasões externas como por intermédio de missões religiosas. Vários povos nômades invadiram território de civilizações estabelecidas – os hunos da Ásia Central na China e depois Índia, tribos germânicas adentraram o sul da Europa. Missionários budistas e cristãos buscaram fazer conversões em países estrangeiros, tanto em outras civilizações como em regiões politicamente menos organizadas como a Ásia Central ou o norte da Europa. O que tinha sido uma experiência periódica durante as primeiras civilizações e o período clássico, agora, por meio de invasões, guerras e comércio limitado, tornava-se comum, à medida que vários povos se deparavam com outras maneiras de se organizarem os padrões de gênero.


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