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Vamos ler? | Jaime Pinsky

Sim, bom número de pessoas satisfaz sua sede de leitura combatendo inimigos reais ou imaginários nas redes sociais. Dados confiáveis garantem que nunca se leu, nem se escreveu tanto quanto hoje, por conta delas. Escudados pela distância e, frequentemente, pelo anonimato, muita gente sofre, nesse processo de escrita, uma mutação regressiva, abandonando sua condição humana e se transformando em algum primata sanguinário ainda não identificado pelos paleontólogos. A escrita afoita e a leitura “por cima” em nada acrescenta em termos de cultura, seja ela artística ou política. A superficialidade ganha espaço, o conteúdo desaparece.

Sim, bom número de pessoas satisfaz sua sede de leitura combatendo inimigos reais ou imaginários nas redes sociais. Dados confiáveis garantem que nunca se leu, nem se escreveu tanto quanto hoje, por conta delas.

Humildemente, continuo achando que, antes de escrever, convém ler. Afinal, ainda não há — se é que algum dia vai haver — veículo mais adequado para a transmissão cultural do que o livro. Frases feitas, palavras retumbantes, piadinhas de gosto duvidoso, conceitos vazios, esse tipo de linguagem que entope as redes sociais não nos levam a lugar algum. Embora reconheça que há gente de bom nível nelas, sempre é alguém que preza e pratica regularmente o hábito de ler. Assim, tomo a liberdade de sugerir a leitura de algumas obras que li recentemente e podem ajudar a formar uma base bem estruturada de conhecimentos.

Daqui a pouco mais de um mês, teremos a comemoração dos 200 anos da independência do Brasil. Sim, 7 de setembro. O evento deve merecer nossa atenção, não para berrar frases feitas e pseudopatrióticas, mas para aproveitar e conhecer um pouco melhor o que de fato aconteceu nessa data. Reconheço nunca ter tido, no ensino fundamental, nenhum professor que se preocupasse em apresentar uma visão crítica do ato encabeçado por D. Pedro, no Ipiranga. Hoje, sabemos que ele subiu a Serra do Mar em lombo de mula, não de um cavalo garboso, mas isso é pouco. Fica parecendo que todos os moradores deste país se entusiasmaram com o gesto do príncipe, que ele libertou toda a nação, que havia consenso nacional a respeito da necessidade do grito às margens do Ipiranga.

Acaba de sair um livro importante, Várias faces da Independência do Brasil, para o qual os organizadores, Bruno Leal e José Inaldo Chaves, tiveram a excelente ideia de reunir um pequeno grupo de historiadores sérios, que mostram, com diferentes olhares, como as coisas aconteceram em diversos lugares e grupos sociais. Indígenas, escravos e libertos saem das sombras e se tornam personagens históricos. Como “o grito” repercutiu em diferentes regiões do Brasil? Como foi o antes e o depois do 7 de setembro? Enfim, um livro esclarecedor.

Outro livro interessante é de autor único. Mais que isso, é uma obra muito pessoal, que fala de comportamento dos brasileiros, de economia, da estrutura social e até da criação de passarinhos em gaiolas. A obra é erudita, mas não ostenta a cultura do autor, apenas utiliza as informações quando quer se apoiar nas ideias de alguém, ou destruí-las sem piedade. Não, não é um livro para todos, mas para quem gosta de desafios intelectuais; um livro para quem tem prazer em ler brigando, duelando com o autor, tentando submetê-lo.

Aviso, desde já, que, por conta do enorme repertório do seu autor, Mércio Gomes, corremos o risco de nos convertermos a algumas de suas teses… O livro se chama O Brasil inevitável, ética, mestiçagem e borogodó. O autor é antropólogo, tem forte ligação com o pensamento de Darcy Ribeiro, foi professor em importantes universidades e dirigiu a Fundação Nacional do Índio (Funai). Há obras em que o autor recorta, modestamente, um pequeno tema, no espaço e no tempo, e tenta esgotá-lo. Esta não é uma delas. Mércio se arrisca em todas as águas, rasas e fundas, amigáveis e perigosas. Então, vale a pena ler? Vale, sim, pois a criatividade, a originalidade de análise, o profundo conhecimento dos problemas do país que o autor demonstra são surpreendentes e estimulam qualquer leitor inteligente.

Com questões de saúde entrando na ordem do dia, apareceram muitos livros importantes nessa área. Talvez o melhor deles seja História da saúde humana, de Jean-David Zeitoun. Leitura aborrecida? Não, pelo contrário, obra fascinante. O autor é um médico francês que realizou pesquisa acurada e percorre, no livro, cuidadosa trajetória desde a pré-história até os dias de hoje. Ele mostra como as sociedades lidaram com a saúde de seus membros ao longo do tempo e do espaço. É uma história social que vai agradar a muita gente, mas eu tomaria a liberdade de indicar, particularmente, aos médicos e ao pessoal da área.

Zeitoun, ao contrário de outros autores, como Harari, não acredita que estamos em um espiral ascendente de longevidade. Lembra que condições climáticas negativas (e a própria poluição das grandes cidades), assim como a circulação de vírus em cidades mais populosas, com população cada vez mais aglomerada são fatores que podem frustrar o sonho de vivermos cada vez mais e melhor. Boa leitura a todos.


Jaime Pinsky é historiador e editor. Completou sua pós-graduação na USP, onde também obteve os títulos de doutor e livre-docente. Foi professor na Unesp, na própria USP e na Unicamp, onde foi efetivado como professor adjunto e professor titular. Participa de congressos, profere palestras e desenvolve cursos. Atuou nos EUA, no México, em Porto Rico, em Cuba, na França, em Israel, e nas principais instituições universitárias brasileiras, do Acre ao Rio Grande do Sul. Criou e dirigiu as revistas de Ciências Sociais, Debate & Crítica e Contexto. Escreve regularmente no Correio Braziliense e, eventualmente, em outros jornais e revistas.

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