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Soltar a linha é deixar o peixe ir embora | Rubens Marchioni
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Soltar a linha é deixar o peixe ir embora | Rubens Marchioni

Imagine a cena: o pescador sente que fisgou um peixe de tamanho razoável. Sua primeira providência é manter a linha do seu equipamento de pesca esticada ao máximo. Explica-se: só assim o anzol se manterá fincado na boca da presa, que ficará exausta mais rapidamente e deixará de lutar contra a sua retirada inevitável da água. Ponto para o pescador e sua estratégia.

Agora imagine outra cena: você é o pescador que ao longo do tempo fisgou conteúdos que tornam a sua vida mais rica, interessante e sofisticada. Qual a sua primeira providência? O ideal é que, assim como o homem que fisgou um exemplar de um peixe cobiçado, você mantenha esticada a linha que está sustentando todo aquele conteúdo, a fim de que ele não se perca. Apenas para exemplificar com fatos, nos anos 1980, a qualidade criativa da nossa propaganda colocava o Brasil em segundo lugar no ranking mundial. Então o genial Washington Olivetto nos advertiu, dizendo algo como “Quando você começar a acreditar que a nossa propaganda é mais criativa está na hora de passar uma temporada na Inglaterra, onde se produz a melhor propaganda do mundo.” Constatação de quem vivia ganhando Leão de Ouro no Festival de Cannes.

Se soltar a sua linha, você poderá facilmente deixar de ser alguém que vê, julga e age segundo o senso crítico e adotar o frágil e obscuro senso comum. Falo da atitude que produz audiência para programas de televisão como o Domingão do Faustão e o Cidade Alerta, apenas para citar dois exemplos de gosto pra lá de duvidoso, sobretudo pelo muito que não acrescentam ao telespectador então empobrecido.

Tudo bem, você pode ouvir de alguém muito bem-intencionado que não há por que continuar se esforçando para crescer interiormente, que você pode parar com tudo isso etc. “Estudar e capacitar-se para quê, se você não vai mais arranjar emprego?”, é o que se ouve, como se a busca por progresso intelectual só se justificasse mediante o registro numa carteira profissional. Diante de um cenário como esse, pergunte-se: quem está dizendo isso é alguém que já fez pós-doutorado, tem um faturamento mensal de cinco dígitos e vive muito bem instalado num luxuoso apartamento da elegante Higienópolis, com carro importado na garagem? Alguém que passa dias seguidos no próprio sítio produzindo alimento orgânico, sustentado por um discurso engajado, mas sabe que diante do cansaço pode deixar tudo e voltar para o luxo do seu meio ambiente residencial e intelectual? Ora, nesse caso a recomendação é compreensível. Mas se você não tem esse padrão de vida, não se engane. É melhor colocar os pés no chão, mantendo a linha esticada, isto é, agindo como quem tem consciência de que ainda não chegou lá e, por isso, não pode relaxar. Afinal, é sabido que algumas ocupações engolem a pessoa e a arrastam para baixo. Não é à toa que as donas de casa se queixam tanto da frustração experimentada devido à lida diária sem salário, sem brilho e sem reconhecimento, embora seja um trabalho digno e indispensável.

Você vive muito bem e tem uma gorda conta bancária? Se isso não aconteceu, ao lavar a louça na sua casa, por exemplo, pense em deixar tudo inclinado, no escorredor, enxugando-se naturalmente – vivemos num país tropical, com muito sol quase em tempo integral –, e use o melhor do seu tempo estudando, pesquisando, aprimorando seu conteúdo, ou fazendo qualquer outra coisa que o empurre para cima, isto é, aumentando o tamanho do peixe. Disso depende, em grande parte, a sua realização pessoal e profissional.

Ao gastar tempo “acariciando” a louça, apenas para mostrar que é uma pessoa dedicada e que não vê problema na realização de certo tipo de trabalho, você está deixando ir embora o peixe de que precisa para se alimentar e manter o seu lugar no cenário profissional. Afinal, não foi para isso que você estudou durante tantos anos? Nesse caso, deixar tudo brilhando é importante, sim, mas está longe de ser essencial.

Portanto, cuide primeiro do essencial, depois do importante e, por fim, do meramente acidental. A menos que você pretenda colocar a vida de cabeça para baixo, investindo o melhor do seu tempo e energia primeiro no acidental, depois no importante e, caso sobre tempo, atendendo ao que é essencial. Se esse é o seu desejo, pronto, você terá construído o melhor retrato do caos. E ele é mestre em mandar a fatura.


RUBENS MARCHIONI é palestrante, publicitário, jornalista e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Autor de Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected] — https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao