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Síndromes cognitivas | Ronai Rocha

Síndromes cognitivas | Ronai Rocha

Em Semiótica 101 aprende-se que a tipologia clássica dos signos também nos permite pensar sobre o modo de funcionamento do pensamento humano. Assim, ícones, índices e símbolos não apenas nomeiam diferentes tipos de signos, que funcionam por semelhança (figuras desenhadas), por contiguidade (pegada na areia) e por convenção (palavras), mas designam formas de cognição. Assim, as metáforas mostram a presença do pensamento icônico, na medida em que orientam-se por analogias e semelhanças; as metonímias são casos de pensamento indexical, pois tomamos uma parte pelo todo. Mas tudo isso é muito mais complicado, e o mais complicado de tudo é que o pensamento simbólico não existe sem uma base formada pelo icônico e pelo indexical. Assim, o pensamento do sapiens é sempre um complexo simbólico que não apenas não elimina os níveis anteriores, mas os conserva em modos mais elaborados. Isso nos permite sugerir uma forma de apresentação do pensamento científico como uma sofisticação do pensamento indexical, pois a ciência, no final das contas, orienta-se pela pergunta: descontadas certas aparências, o quê vai com o quê? Simples assim.

Essas lembranças de Semiótica 101 tem me ocorrido por ocasião dos primeiros debates e entrevistas sobre Quando ninguém educa – questionando Paulo Freire. Esse “Paulo Freire” na capa do livro faz com que o leitor lembre, por semelhança, os ataques que surgem na mídia e em livros, mas também em movimentos como o “escola sem partido” e na proposta de destituição do patronato da educação brasileira. Assim, é natural surjam dúvidas sobre se o QNE (e esse seria o passo indexical), estaria no mesmo campo desses ataques ao patrono Paulo Freire.

Vou tentar esclarecer isso. Mais do que uma crítica ao Paulo Freire, ocupei-me com a forma como ele tem sido recebido; mas ao apontar algumas características da Pedagogia do Oprimido é evidente que fiz várias críticas ao livro; não preciso lembrar aqui que esse é o feijão e arroz da filosofia.

Os ataques a Paulo Freire, feitos pela “escola sem partido” e assemelhados são de outra natureza, mas uma síndrome de indexicalidade pode levar alguém distraído a não perceber isso, pois ela se deteria na semelhança dos significantes. Não há nada que eu possa fazer com relação a isso, a não ser pedir que a pessoa leia o QNE e seja honesta com a diferença de contextos; somente me ocupei com Paulo Freire no livro porque nenhuma abordagem da educação brasileira a partir dos anos 1960 faz sentido sem isso. E se fiz críticas a ele, muitas mais fiz a Saviani e aos desconstrucionistas, sempre no mesmo espírito. Podem ter sido mais ou menos felizes, mas foram feitas em um registro acadêmico.

O mesmo não se pode dizer da abordagem de baixa complexidade que vemos nos protestos. Em um caso, o “escola sem partido”, temos um movimento que se diz reativo às doutrinações, mas de base fatual nula e de bases conceituais ainda mais frágeis, que culmina na defesa de um maoísmo de sinal trocado: o controle dos professores pelos estudantes, no melhor estilo chinês dos anos 60. Isso sem falar na enorme confusão entre o privado (família) e o público (escola). O outro caso, os ataques ao patronato e os protestos de rua contra Paulo Freire, são episódios de psicopolítica misturados com linchamento intelectual que somente podem surpreender venusianos. Voltarei a esses temas em outro espaço de escrita.

É possível que ocorra a alguém a ideia de colocar o QNE em outros sacos que não o do jogo acadêmico. Isso seria semioticamente compreensível, mas desonesto. Há ocasiões em que a semelhança é mera coincidência. Quando não vemos ou não queremos ver isso e ficamos impressionados pela semelhança, misturaremos alhos com bugalhos. Ao invés de tentar compreender, esbravejaremos. Mas isso, como já observou um filósofo, não seria filosofia, seria apenas a idiotia da indexicalidade, uma variante patológica da desonestidade intelectual.

Fonte: Blog Ronai Rocha


Ronai Rocha é doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde foi pró-reitor de graduação. Desde o início de sua vida profissional pesquisou temas ligados à educação.